terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Lenda da Coroa Real de Cedros


Esta lenda é uma tradição da ilha do Faial nos Açores, e passa-se no tempo da ocupação das ilhas pelas forças de Filipe II, de Espanha. Já antes, eram frequentemente assaltadas e roubadas por piratas e corsários, que também levavam homens e mulheres da terra para venderem como escravos.
Num certo dia, uma embarcação pirata comandada por um rei mouro apareceu nas costas da ilha para mais um assalto, mas como a embarcação foi avistada a tempo, as populações locais tiveram tempo de se preparar. Encontrando forte resistência, os piratas foram obrigados a fugir de forma precipitada sem conseguirem roubar nada.
Na fuga apressada, o rei mouro esqueceu-se da sua coroa que tinha posto sobre um muro de pedra enquanto combatia. A coroa era feita de prata lavrada e enfeitada em toda a volta com lindos ramos desenhados no metal luzidio e ao aperceber-se da sua falta, resolveu voltar à ilha para a recuperar.
Disfarçando-se de marinheiros comuns, procuraram-na sem resultado e apesar das perguntas que fizeram aos habitantes, ninguém sabia de nada. Para não levantarem mais suspeitas, desistiram da busca e fizeram-se novamente ao mar, para não mais regressarem…
Afinal, a coroa do rei pirata tinha sido encontrada por uma mulher da localidade dos Cedros, que ao saber que andavam à sua procura, a escondeu conforme pôde - levantando as saias, enfiou-a numa perna, como quem enfia um anel num dedo…E aí a conservou até ter a certeza que o rei mouro tinha desistido do precioso objecto.
Calculando o valor da coroa, e não desejando que os seus conterrâneos soubessem que a tinha, deixou-a ficar muito tempo na perna, que ao fim de alguns dias começou a inchar e a doer. Aflita, a mulher acabou então por confessar o sucedido, mas como a perna estava muito inchada, a população não teve outra alternativa senão cortar a coroa para a poderem retirar.
Depois de soldarem cuidadosamente a parte cortada, o objecto ficou para a freguesia dos Cedros, onde morava a referida mulher cujo nome se desconhece. Com o passar dos anos a coroa passou a ser usada pelos locais nas festas do Divino Espírito Santo.
Esta coroa tinha 13 Centímetros de altura e continha engastada uma gema de cor da qual se ignora o verdadeiro valor. Com o passar dos anos e com medo de estragar tão simbólico e rico objecto, foi feita uma imitação da primeira, que passou a ficar guardada na casa do mordomo da festa do Espírito Santo.
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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

N.Correia - Poemas

De Amor nada Mais Resta que um Outubro


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia, in “Poesia Completa

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Genserico, Rei dos Vândalos – II

Com o assassinato de Valentiniano III, Genserico deu por terminado o seu acordo com Roma, e em 455 lança um ataque à capital do Império. O Papa Leão I sai ao seu encontro, e tal como tinha feito três anos antes com o rei dos Hunos, Átila, pede-lhe que poupe a cidade. Mas o rei vândalo concorda apenas em respeitar vidas, igrejas e edifícios e durante duas semanas as hordas vândalas lançam-se sobre a cidade, arrebanhando tudo o que tivesse algum valor.
Quando regressa a Cartago, leva consigo como reféns a imperatriz viúva Licina Eudoxia e as suas duas filhas, Placídia e Eudoxia, assim como ouro, obras de arte, artesãos, armamento e os tesouros do Templo de Jerusalém trazidos pelo Imperador Tito em 77 d.C., quando destruiu a cidade, deixando atrás de si uma Roma profundamente humilhada.
O valor do saque foi tal, que, tanto romanos como bizantinos lançaram vários ataques contra Genserico, para o reaverem, mas sem sucesso. No último deles, em 468, o velho rei derrotou a frota conjunta de Roma e Bizâncio, junto ao Cabo Born, a norte da Tunísia, incendiando as mais de mil naves que a compunham. Em 474, os Bizantinos assinaram uma paz perpétua, reconhecendo a soberania vândala sobre todas as províncias por eles conquistadas.
Internamente, Genserico estabeleceu a monarquia hereditária ao designar seu filho Hunerico, como seu sucessor, contrariando o antigo costume da livre eleição do chefe pela nobreza vândala. Isto deu origem a uma revolta que o rei reprimiu com toda a violência e sem qualquer piedade, aproveitando para debilitar a nobreza tradicional substituindo-a por outra mais leal à sua família.
Com as mulheres da família imperial em seu poder, Genserico obrigou o seu herdeiro a repudiar a princesa visigoda com quem estava casado, acusando-a de traição, e enviando-a de volta à família seriamente ferida e mutilada, com as orelhas e o nariz cortados, casando-o depois com Eudóxia, uma das princesas romanas.
Incentivou a segregação racial proibindo os casamentos mistos, com excepção dos da família real por motivos políticos e permitiu o porte de armas apenas ao seu povo. Ariano convicto como todos os vândalos, perseguiu duramente o catolicismo, confiscando os bens da Igreja Católica, deportando bispos e sacerdotes, e impondo pesados impostos às famílias de origem romana e ao clero, o que lhe valeu a oposição de toda a Igreja africana.
Morreu a 25 de Janeiro de 477, vencido pela idade, ao fim de 50 anos de reinado, senhor incontestado do Mediterrâneo ocidental.

Fontes: www.wikipedia.org
Grinberg, Carl – História Universal
Revista Historia Y Vida

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Genserico, rei dos Vândalos – I

Se Átila, rei dos Hunos, ficou conhecido como o Flagelo de Deus, Genserico, rei dos vândalos, foi comparado ao Quarto Cavaleiro do Apocalipse pelos católicos da época.
Expulsos das margens do Danúbio pelos Hunos, os Vândalos aproveitando o congelamento do Reno, cruzaram a fronteira com a Gália na noite de 31 de Dezembro de 406, juntamente com parte dos alanos e suevos que se lhes tinham juntado, enfrentando as tropas romanas e os seus aliados, os francos, após a travessia do rio. Na batalha que se seguiu, o rei Geodesildo morreu, sendo sucedido no trono pelo seu filho Gunderico, que após ter saqueado a Gália durante cerca de 3 anos, foi forçado pelos romanos a estabelecer-se na Península Ibérica, onde após vários confrontos com os visigodos, se fixaram no sul da província, escolhendo Sevilha como sua capital, e controlando o tráfico marítimo através de Gibraltar.
Filho ilegítimo do rei Geodesildo e de uma mulher alana, Genserico nasce provavelmente cerca de 389, junto ao Lago Balaton (actual Hungria), sendo eleito rei dos vândalos e alanos em 427/8, depois de um conflito entre os dois irmãos, que acabou com a morte de Gunderico.
No ano de 429, aproveitando o pedido de auxílio feito por Bonifácio, governador romano da província da África Proconsular, em luta com a elite romana, abandona a Bética aos visigodos, e transpondo o estreito a partir de Tarifa, desembarca entre Tânger e Ceuta, à frente de todo o seu povo, cerca de oitenta a cem mil pessoas, incluindo velhos, mulheres e crianças, com a intenção de fundar um novo reino.
A fim de impedir um ataque dos romanos e seus aliados, destrói a frota inimiga fundeada em Barcino e ordena aos seus homens que arrasem Tânger. Em pouco tempo controla um território que abrangia a zona costeira do actual Marrocos e Argélia, e dirigindo-se para leste, põe cerco por terra e mar à cidade de Hipona (actual Anaba, na Argélia). Entre as vítimas da carestia que assolou a cidade durante os treze meses de assédio a que foi submetida, conta-se Santo Agostinho, Bispo de Hipona, então com 75 anos de idade, considerado um dos Doutores da Igreja.
Os africanos, fartos do poder de Roma, aliaram-se aos vândalos e em 435 o Imperador Valentiniano III é forçado a reconhecer Genserico como soberano dos territórios conquistados.
Em 439, apodera-se de Cartago, a segunda cidade do Império e o principal porto do Mediterrâneo, apresando a frota imperial ali atracada. Faz da cidade a sua capital, e a partir dali, as suas naus pilham, saqueiam, raptam, conquistando bases marítimas de grande valor comercial e estratégico como a Córsega, Sícilia, Sardenha, ou Baleares. Privada dos seus “celeiros” tradicionais, Roma vê-se obrigada a comprar os cereais de que necessita, o que deixa os romanos enfurecidos.