sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Manuel da Fonseca


Comemorou-se no dia 15 deste mês (Outubro), o centenário de um dos melhores representantes do movimento neo-realista português e um dos grandes escritores da literatura portuguesa.
Nascido em Santiago do Cacém a 15 de Outubro de 1911, Manuel Lopes da Fonseca vai viver com a família para Lisboa em 1923, começando a publicar os seus primeiros poemas em 1925 num semanário da sua terra. Frequenta o Liceu Camões onde conhece Álvaro Cunhal, também aí aluno como ele, e mais tarde, a Escola de Belas-Artes. Apesar de não ter sobressaído na área das Belas-Artes, deixou alguns registos do seu traço sobretudo nos retratos que fazia de alguns dos seus companheiros de tertúlias lisboetas como é o caso do de José Cardoso Pires.
Em 1937 casa-se com Mabilde Matias e em 1940 publica o seu primeiro livro de poesia, “Rosa-dos-Ventos”, seguindo-se “Planície”, no ano seguinte. Estreia-se em ficção com os contos “Aldeia Nova”, em 1942, e em 1943 publica o romance “Cerromaior”, que foi transposto para o cinema em 1980, pelo realizador Luís Felipe Rocha.
Nas suas obras, carregadas de intervenção social e política, relata como poucos a vida dura do Alentejo e dos alentejanos. Autor de uma obra ancorada na realidade e eivada de um apontado regionalismo, a escrita de Manuel da Fonseca ultrapassa a contingência histórica de que nasceu, por um enaltecimento da vida, compreendida como intrinsecamente livre das imposições, frustrações, mentiras e condicionamentos impostos pela sociedade, ânsia de libertação, simbolizada, por exemplo, na repressão sexual imposta a algumas figuras femininas ou na admiração de figuras marginais como o "maltês" ou o vagabundo.
Além de romancista, poeta, contista e cronista, foi também argumentista (o filme “Os Três da Vida Airada” é disso exemplo), e esteve também ligado à música através de poemas que escrevia para alguns dos cantores portugueses. Escreveu também para jornais e revistas e fez parte do grupo do Novo Cancioneiro.
Era presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores quando esta atribuiu o Grande Prémio da Novelística a José Luandino Vieira pela sua obra Luuanda, o que levou ao encerramento desta instituição e à sua prisão pela PIDE.
Em 1972 casa com Arlete Ventura e em 1983 é condecorado com o grau de Comendador da Ordem de Sant’Iago da Espada. Em 1985 casa com Hermínia Matos e morre a 11 de Março de 1993 no Hospital de S. José, devido a uma queda na sua residência, em Santiago do Cacém.
No prefácio de uma das edições dos contos “O Fogo e as Cinzas” (1951), Manuel da Fonseca escreve:
“As pessoas de quem escrevo são as que houve na minha vida. Gente de família ou conhecida. Nelas me fui descobrindo e sendo eu próprio as vidas que contei. É isso, eu. Até quando escutava a vida de algum desconhecido, logo descobria que esse desconhecido era dois ou três indivíduos que já conhecia, um dos quais, com o tempo, começava a ser eu”.
As suas obras, para além das já citadas, são:
Poemas Completos – 1958
Um Anjo no Trapézio – 1968
Tempo de Solidão – 1973
Antologia de Fialho de Almeida - 1984
Crónicas Algarvias – 1986, escritas no jornal “A Capital”, de quem era colaborador.

Fontes: www.wikipedia.org
www.infopedia.pt
Jornal Expresso – semanário semmais




ANTES QUE SEJA TARDE

Amigo,
Tu que choras uma angústia qualquer
E falas de coisas mansas como o luar
E paradas
Como as águas de um lago adormecido,
Acorda!
Deixa de vez
As margens do regato solitário onde miras
Como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
Desse país inventado
Onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
Do barco ao deus-dará
E esse ar de renúncia
Às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
Liberta-te dessa paz podre de milagre
Que existe
Apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
Abre os braços e luta!
Amigo,
Antes de a morte vir
Nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca – Poemas Completos


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Dama da Fonte – III

Depois de várias aventuras pelo caminho, o Rei e os seus cavaleiros encontraram finalmente Sir Owein, sendo recebidos por ele com um grande banquete, onde ele apresentou a sua mulher, a Dama da Fonte, ao rei.
Depois de alguns dias de repouso, Artur e a comitiva voltaram para casa, mas antes, o rei convidou o cavaleiro a regressar com ele para tomar parte nas caçadas que se iriam realizar. Contrariada, Laudine deixou-o partir na condição de o marido se apresentar no castelo ao fim de um certo tempo. Owein prometeu cumprir o prazo estabelecido e a Dama da Fonte deu-lhe um anel que o protegeria de todos os ferimentos que pudesse receber.
E o tempo foi passando em festas, torneios, caçadas e aventuras onde o seu manejo das armas lhe trouxe fama e glória. Apenas Sir Gawain, o seu melhor amigo, o conseguia igualar. E Sir Owein, no meio de tudo isto, esqueceu Castelo, Dama da Fonte, a promessa de voltar…E o prazo foi em muito ultrapassado, até que um dia, um mensageiro se chegou ao pé dele e em nome da Dama pediu-lhe de volta o anel, chamando-o de traidor e banindo-lhe para sempre o acesso ao Castelo.
Cheio de vergonha e remorsos, Owein abandonou a Corte, internando-se pelos bosques, onde, num acesso de loucura e vagueando sem rumo, se tornou num homem primitivo. Os cabelos e a barba cresceram tornando-o irreconhecível, as roupas foram apodrecendo, até que faminto, com o corpo nu e imundo, cheio de feridas, se acercou de um castelo, caindo desfalecido no jardim.
Recolhido pela dona do castelo e graças a um unguento maravilhoso que lhe foi administrado, ao fim de algum tempo o cavaleiro achava-se completamente restabelecido. Despedindo-se da castelã, jurou a si mesmo que a sua espada passaria a ser usada não para sua glória pessoal, mas em socorro dos fracos e indefesos, a fim de ganhar de novo o amor da sua Dama.
Passando por uma floresta ouviu uns rugidos medonhos, indicando que um leão se encontrava próximo. Com cautela e a espada desembainhada, o cavaleiro avançou até deparar com um leão que se debatia nos anéis de uma grande cobra. Era ele que soltava aqueles urros ao sentir-se cada vez mais apertado por aquele abraço mortal e do qual não se conseguia libertar. Owein, não hesitou e cortou a cabeça da serpente, mas ficou em guarda aguardando o ataque do leão. Este, depois de sacudir a juba, dirigiu-se mansamente até junto do cavaleiro, deitando-se-lhe aos pés, com que em agradecimento. E a partir daí, a fera acompanhou-o para todo o lado como se fosse um grande cão, correndo ao lado do cavalo durante as viagens, ajudando-o nos combates ou vigiando-lhe o sono durante a noite, protegendo-o de qualquer perigo.
Desde então, Owein passou a ser conhecido como o Cavaleiro do Leão, e as suas aventuras como um paladino da justiça, granjearam-lhe grande fama e reconhecimento. O tempo foi passando e Owein achou que já poderia regressar aos seus domínios. Durante o percurso, ainda conseguiu salvar Lunet de ser queimada e com a sua ajuda entrou no Castelo, onde conseguiu que Laudine o perdoasse e o aceitasse de novo como seu marido e Guardião da Fonte.


Nota: Owein, também conhecido por Ivain, o Cavaleiro do Leão (em francês: Yvain, le Chevalier au Lion) é um poema de Chrétien de Troyes, poeta e trovador francês dos finais do sec. XII e autor de romances de cavalaria, que inspiraram toda a literatura ocidental durante a Idade Média. Foi escrito provavelmente nos anos 1170, sendo o personagem principal, Ivain baseado numa figura histórica, Owain mab Urien.
Este poema inclui o conto da Dama da Fonte, que, por sua vez, é um dos três romances do Mabinogion, colectânea de contos celtas escritos em língua galesa e onde constam as aventuras de Owein ou Yvain. Como quase toda a obra de Chrétien de Troyes gira em volta do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, pôs-se a questão se estes romances não seriam versões galesas dos contos de Chrétien, mas o mais provável é que sejam versões diferentes da mesma história, com origem em tradições célticas bem mais antigas.

Fontes: www.wikipedia.org
O Mabinogion





quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Dama da Fonte – II

Tudo aconteceu tal como a jovem dissera, e quando o sentiu junto de si, levou-o para um magnífico aposento onde lhe serviu uma copiosa refeição, indicando-lhe depois um leito luxuosamente ataviado onde o cavaleiro poderia descansar.
Ao romper do dia, um imenso e lamentoso clamor reboou pelo castelo. Abrindo uma janela, Owein observou um grande cortejo de damas, cavaleiros, homens de armas e clérigos acompanhando o féretro do senhor do castelo, que tinha falecido dos ferimentos recebidos. A fechar o cortejo, seguia uma dama cujos lamentos soavam mais alto que os cânticos fúnebres entoados pelos sacerdotes. A sua beleza era tal, que ao vê-la, mesmo no estado desalinhado em que se encontrava, Owein se sentiu perdidamente apaixonado.
Lunet informou-o que se tratava de Laudine, a Dama da Fonte, a viúva do Conde Esclados, o Cavaleiro Negro.
“A Deus eu digo”, exclamou Owein, “que esta é a dama que eu mais amo”.
“Deus também sabe, que a ti ela não ama, nem muito, nem pouco, nem nada”, respondeu-lhe a donzela.
No entanto, prometeu interceder por ele e recomendando-lhe que não abandonasse o quarto, saiu dos aposentos para ir servir a sua senhora.
Laudine, ao vê-la, mostrou-se sentida pela sua ausência no funeral, mas Lunet respondeu-lhe que mais lhe valia pensar em como iria conseguir defender a Fonte e o Castelo, agora que o Cavaleiro tinha morrido.
“Por mim e por Deus te digo”, respondeu a condessa, “que eu jamais poderei recompensar a perda do meu senhor, pondo outro homem no seu lugar!”.
“Pois deverias”, retorquiu a jovem, “ e alguém tão bom ou melhor que ele. Se não puderes defender a Fonte, também não poderás defender os teus domínios, e isso só se consegue pela força das armas. E quanto mais depressa o fizeres melhor para todos. Irei à corte do Rei Artur e trarei um dos seus cavaleiros.”
Repugnada com a ideia, mas sabendo que Lunet estava cheia de razão, a Senhora deixou-a partir.
Voltando para junto de Owen, a jovem ali ficou escondida de todos, o tempo suficiente para a viagem de ida e volta a Camelot. Quando achou que deveria ter chegado ao seu termo, apresentou-se perante Laudine, que lhe perguntou pelo êxito da viagem.
“Trago boas-novas, Senhora, achei o que procurava. Quando quereis ver o cavaleiro que trouxe comigo?”, perguntou Lunet.
“Amanhã pelo meio-dia”, respondeu a Dama da Fonte.
No dia seguinte, à hora marcada, os dois jovens apresentaram-se perante a Senhora do Castelo, que os recebeu com muita gentileza.
“Senhora, apresento-te Sir Owein o cavaleiro do Rei Artur que trouxe comigo”.
A condessa olhou o cavaleiro com muita atenção. Vestido com uma túnica, uma cota de malha e um manto de brocado de seda amarela e calçando uns borzeguins, Owein não tinha aspecto de quem tivesse feito uma grande jornada… Desconfiando da verdade, Laudine perguntou se aquele não teria sido o cavaleiro que lhe tinha morto o marido!
“Melhor para ti, Senhora”, respondeu Lunet, “Se ele não fosse o melhor dos dois, não estaria agora à tua frente. O que está feito, feito está!”.
A condessa mandou reunir os seus vassalos e com a aprovação dos membros do seu Conselho, tomou Sir Owein como marido.
Durante três anos, a felicidade reinou no Castelo de Landuc. Owein, o novo guardião da Fonte, derrubava qualquer cavaleiro que o desafiasse, mantendo-o prisioneiro até receber o seu resgate, distribuindo depois o dinheiro pelos seus vassalos, que retribuíam a sua generosidade com amor e lealdade.
Mas…e há sempre um mas…ao fim deste tempo, o Rei Artur que nada sabia do que poderia ter acontecido ao seu cavaleiro, reuniu os seus companheiros da Távola Redonda e foram no seu encalço…

terça-feira, 18 de outubro de 2011

F.Pessoa - Poema

Dizem que há entre a folhagem

Dizem que há entre a folhagem
Quando tudo está dormindo
Uma coisa como a aragem
Mas que é viva e está sentindo.

Não se sabe se é alguém
De outro mundo ou de outro ser,
Nem se está por mal ou bem
Entre as folhas a tremer.

Mas como é que alguém conhece
O que há quando ninguém vê?
Alguma coisa acontece
Quando ninguém está ao pé?

Não sei; sei que entre a folhagem
De uma noite e dum lugar
Mexe-se mais que a aragem…
Oiço, sinto, essa passagem
Sonho? Mas o que é sonhar?

Fernando Pessoa