quinta-feira, 12 de novembro de 2015

D. Dulce de Aragão

(vinheta da CVP de 1939)
Aldonça, Dulcia, Doce ou Dulce (versões do mesmo nome em documentos administrativos), a segunda rainha de Portugal, casou em 1174, aos 14 anos de idade, com o então infante D. Sancho, futuro D. Sancho I, de vinte anos, num casamento de conveniência política, como eram todos, negociado entre o pai do noivo, o rei português D. Afonso Henriques e o conde Raimundo Berenguer IV, de Barcelona, pai da noiva, o Dominador ou Protector do Reino de Aragão.
A sua mãe, a rainha Petronilha, única herdeira do reino de Aragão, foi dada com apenas um ou dois anos de idade em casamento ao conde-rei Raimundo de Barcelona, que contava cerca de 24 ou 27 anos e um dos mais bravos cavaleiros do seu tempo, com a condição deste proteger a herança da sua pequenina esposa, sendo-lhe outorgado o título de Protector do Reino de Aragão, estipulando-se no contrato de casamento que o futuro filho de ambos herdaria o reino, ou no caso de não haver descendência, seria o próprio Raimundo o herdeiro. Na altura em que D. Dulce nasceu, por volta de 1159, já existia o seu irmão Raimundo Berengário, que ao tornar-se príncipe herdeiro depois da morte de um irmão mais velho, Pedro,mudará o nome para Afonso, subindo ao trono de Aragão como Afonso II, tal como fez o noivo de D. Dulce, o príncipe D. Sancho, nascido Martinho, após a morte do irmão mais velho, Henrique.
Nesta altura, o reino de Portugal ainda não tinha sido reconhecido como tal pelo Papa, por isso ter como esposa uma filha de rainha e irmã de um rei que beneficiara do privilégio de ser ungido pelo Papa aquando da sua emancipação só podia trazer uma boa ajuda ao monarca português e a união com uma princesa da linhagem real de Aragão, cujo estatuto de reino independente já tinha sido reconhecido em 1095, só prestigiava a própria linhagem de D. Sancho que urgia fazer reconhecer como régia.
Não sabemos também se ela amou o homem de “meã estatura, mui dobrado de membros, rosto grande, boca grossa e grande, olhos pretos e grandes, cabello castanho mui tirante a preto”, que gostava de caça, de correr touros e dos serões da corte onde não faltavam jograis e trovadores de que ele fazia parte, poemas e vinho, mas que D. Dulce agradou ao marido atesta-o os cerca de 15 filhos que os cronistas lhe apontam, embora só se conheçam onze, e o facto de apenas se conhecerem filhos bastardos ao rei ou depois da morte da rainha, como apontam alguns historiadores, ou já nos seus últimos anos de vida, como referem outros. D. Sancho I apenas sobe ao trono em 1185, pelo que a primeira década do casamento da rainha é passada em Coimbra, sendo que depois provavelmente acompanhará a normal itinerância da corte.
Nada se sabe sobre o dote que trouxe ou das arras que lhe foram concedidas, e do seu séquito sabe-se que, entre outros, trouxe Martim de Aragão que aqui se estabeleceu e casou com D. Maria Reimondo ou Reimondes e uma aia, D. Toda Palazim, talvez filha de D. Palazim, cavaleiro aragonês e tenente de Saragoça, que a acompanhou toda a vida e que depois da morte da rainha ajudou a criar os filhos mais pequenos, sendo-lhe feita por D. Sancho I a doação do reguengo de Entre Ambos-os-Rios.
Segundo Luciano Cordeiro, a rainha "Formosa e excellente senhora, tranquilla e modesta, condizente no carácter com o nome", gostava de administrar e acrescentar a sua casa, conservando-se indiferente à política. Suportou as ausências do marido constantemente em batalha contra os mouros para expansão do reino, os surtos de fome e as epidemias que o reino atravessou e que prejudicaram a saúde do seu herdeiro Afonso, o futuro rei leproso. Aguentou também o feitio inconstante do rei e os seus ciúmes. Diz o Conde de Sabugosa no seu livro “Donas de Tempos Idos”:
Conta-se que induzido pelos murmúrios pérfidos de algumas vozes de invejosos, picados pelo valimento de algum mimoso da côrte, valente e galenteador. O Rei chegou a suspeitar da fidelidade de sua mulher. A Regina Dulcia, e a manifestar a intenção de castigá-la e ao suposto cúmplice. Ficou porém inconsolável pela sua suspeita ao reconhecer a inocência dos dois, e pesaroso por ter dado ouvidos a perversos caluniadores.
Dulce de Aragão estava inocente, e não consta mesmo que, usando dos seus encantos, quisesse vingar-se das empresas amorosas do marido”.
Se não há a certeza que a Rainha D. Mafalda, esposa de D. Afonso Henriques possuísse bens em Portugal, não acontece o mesmo em relação à sua nora, pois em testamento feito em 1188, quando tencionava visitar a Palestina, D. Sancho I deixa a sua mulher os rendimentos de Alenquer, terras do Vouga, de Santa Maria e do Porto; ignora-se se a rainha gozou os rendimentos de todos estes bens, mas enquanto a Alenquer, junto a um lugar chamado Marinha fez a rainha muitas aquisições de terras e courelas que comprou a diversos, sendo de facto, senhora de Alenquer. Comprou também várias terras na Beira, adquiriu Ervedel, que doou à albergaria de Poiares, perto de Coimbra, comprou dezanove casais em Travanca (de Lagos) e as herdades de Sameice e de Seia, pelo que se pode depreender que no tempo de D. Sancho I, as rainhas de Portugal já tinham Casa.
Por mandato do rei outorga algumas cartas e entre elas, em 1192, o foral aos povoadores de Mortágua.
Era também uma princesa muito beneficente e piedosa que frequentemente vestia o hábito da Ordem Terceira, no entanto não fundou nem igreja nem mosteiro algum, provavelmente porque a relação de D. Sancho I com o clero foi sempre conflituosa, tendo sido excomungado por várias vezes. Nos primeiros anos do seu reinado doou um cálice de prata dourada e pedras preciosas ao Mosteiro de Alcobaça para serviço no altar-mor conforme consta na inscrição, e outro mais pequeno para servir nos altares laterais. Juntamente com o marido, em 1187,ofereceu também um outro cálice ao Mosteiro de Santa Marinha da Costa, em honra de sua sogra, a rainha D. Mafalda, considerada a fundadora do mosteiro. Na sacristia do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra conservava-se um anel com uma esmeralda, que se diz ter pertencido a D. Dulce.
Conhecida como a “Rainha Fecunda” devido à sua extensa prole, o seu primeiro herdeiro varão só nasceu ao fim de quase doze anos de casamento e quando já toda a corte desesperava, apesar das três infantas já nascidas. Três das suas filhas foram beatificadas, outras foram rainhas, mas apenas assistiu ao casamento de uma delas, a sua primeira filha, D. Teresa, rainha de Leão, pois em 1138, o seu corpo enfraquecido por tantos partos, alguns deles múltiplos, não resistiu ao últimos deles e à peste que então grassava no país, tendo falecido, a 26 de Agosto de 1198.
Tanto D. Sancho como D. Dulce foram sepultado em Santa Cruz de Coimbra, em sepultura rasa. O rei D. Manuel I mandou levantar o rico mausoléu que hoje contém os restos do segundo rei de Portugal e supõe-se que o corpo da rainha se encontre dentro dele, tal como aconteceu com D. Mafalda.

Descendência
D.Teresa (1176-1250), casou com Afonso IX de Leão, fundou o Mosteiro feminino de Lorvão e foi beatificada em 1705.
D. Sancha (1177/1180-1229), fundou o Mosteiro de Celas, em Coimbra e foi beatificada em 1705.
D. Constança (1182-1186?) morreu em criança
D. Afonso (1186- 1223) futuro D. Afonso II de Portugal.
D. Pedro (1187-1258),chamado de Henrique durante o seu primeiro ano de vida, casou com Arumbaix, condessa de Urgel, foi senhor feudal de Maiorca.
D. Fernando (1188-1233), casou com Joana de Constantinopla, condessa da Flandres e de Hainaut.
D. Henrique (1190-1191), morreu em criança.
Uma filha? (1192-?)
D. Raimundo(1195-1196?), morreu em criança.
D. Mafalda (1196-1257), casou com Henrique I de Castela, reestruturou o Mosteiro de Arouca e o de Bouças e foi beatificada em 1705.
D. Branca (1198-1240), monja e senhora de Guadalajara, fundou com a irmã Teresa o Mosteiro de S. Domingos e está sepultada em St. Cruz de Coimbra.
D. Berengária (1198-1220), casou com o rei Valdemar II da Dinamarca.
Talvez mais dois ou três filhos provavelmente mortos à nascença, ou gravidezes que não chegaram ao fim, mas não há registos.


As Primeiras Rainhas - Colecção Rainhas de Portugal do Circulo de Leitores
Oliveira, Ana Rodrigues – Rainhas Medievais de Portugal
Benevides, Francisco da Fonseca – Rainhas de Portugal








quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A Batalha de Ponte Mílvio







Poucas batalhas têm sido tão autênticos pontos de viragem na História como a batalha hoje travada em Ponte Mílvio, perto de Roma.
No início do sec. IV, vários rivais competiam e combatiam pelo controlo do império romano. Dois dos mais poderosos eram Constantino (Flavius Valerius Constantinus), também conhecido como Constantino Magno ou Constantino, o Grande, que tinha dominado a Gália, a Britania, e a Germania, e seu cunhado Maxêncio (Marcus Aurelius Valerius Maxencius Augustus), que se tinha auto-proclamado imperador e que dominava a Itália, a Hispânia e a África.
Em 310, Constantino conquistou a Hispânia e decidido a apoderar-se de todos os territórios de Maxêncio desce em 312 até à Itália a fim de eliminar seu cunhado e fazer-se proclamar imperador em Roma. Instala-se em Mediolano (Milão) até meio do Verão desse ano, prosseguindo depois a campanha.
Esperava-se que Maxêncio tentasse a mesma estratégia que aplicara antes contra os seus inimigos, Severo e Galério, ou seja, protegido na bem-defendida cidade de Roma, e esperar que os recursos dos inimigos se esvaíssem num cerco caro e perigoso. Por razões pouco claras, resolveu enfrentar Constantino a 28 de outubro de 312, numa das pontes que atravessavam o Rio Tibre, em Roma. Possivelmente, após ter consultado os seus adivinhos, estes devem ter assumido que o dia 28 de Outubro (o seu dies imperii, o dia da sua ascensão ao trono a 28 de Outubro de 306), seria o mais indicado para a batalha.
Segundo os cronistas cristãos do sec. IV, na véspera do combate, às 12h00, Constantino viu suspensa nos céus, uma cruz luminosa, mais brilhante que o Sol, com as palavras In hoc signo vinces (Com este sinal vencerás!). Eusébio de Cesareia, na sua “Vida de Constantino” descreve o sinal como Chi (Χ) atravessado por RÕ (Ρ) ou , um símbolo representando as primeiras duas letras da grafia grega da palavra Cristo (Christos). Interpretando esta visão como uma mensagem directa de Deus, mandou bordar o sinal no estandarte imperial assim como nos escudos dos seus soldados.
No dia seguinte os dois adversários defrontaram-se na Ponte Mílvio ou Mílvia, onde as tropas inspiradas de Constantino obtiveram uma vitória esmagadora; Maxêncio morreu afogado no Tibre quando, ao fugir do campo de batalha uma ponte flutuante ruiu sob os seus pés.
O primeiro resultado desta batalha foi a reunificação do império romano sob um único governante (após a derrota de um outro César regional, Licínio, em 324). No entanto, a consequência de longe a mais duradoura foi a conversão de Constantino ao Cristianismo. No ano seguinte ao da batalha, ele e Licínio promulgaram o Édito de Milão, aceitando o Cristianismo por todo o Império.
Qualquer que tenha sido a fé individual de Constantino, o fato é que ele educou os seus filhos no cristianismo, associou a sua dinastia a esta religião, e deu-lhe uma presença institucional no Estado Romano (a partir de Constantino, o tribunal do bispo local, a episcopalis audientia, podia ser escolhida pelas partes de um processo como tribunal arbitral em lugar do tribunal da cidade). E quanto às suas profissões de fé pública, num édito do início de seu reinado, em que garantia liberdade religiosa, ele tratava os pagãos com desdém, declarando que lhes era concedido celebrar "os ritos de uma velha superstição".
Esta clara associação da casa imperial ao cristianismo criou uma situação equívoca, já que o cristianismo se tornou a religião "pessoal" dos imperadores, que, no entanto, ainda deveriam regular o exercício do paganismo — o que, para um cristão, significava transigir com a idolatria. O paganismo retinha ainda grande força política — especialmente entre as elites educadas do Ocidente do império — situação que só seria resolvida por um imperador posterior, Graciano, que renunciaria ao cargo de pontífice máximo em 379 — sendo assassinado quatro anos depois por um usurpador, Magno Máximo. Somente após a eliminação de Máximo e de outro usurpador pagão, Flávio Eugénio, por Teodósio I, é que o cristianismo se tornaria a única religião oficial (395).
O imperador romano Constantino influenciou em grande parte a inclusão na igreja cristã de dogmas baseados em tradições. Uma das mais conhecidas foi o Édito de Constantino. promulgado em 321, que determinou oficialmente o domingo como dia de repouso, com exceção dos lavradores, — medida tomada por Constantino utilizando-se da sua prerrogativa de, como Sumo Pontífice, fixar o calendário das festas religiosas, dos dias fastos e nefastos (o trabalho sendo proibido durante estes últimos). Note-se que o domingo foi escolhido como dia de repouso, não apenas em função da tradição sabática judaico-cristã, como também por ser o "dia do Sol" — uma reminiscência do culto do Sol Invicto de que o imperador era adepto. Aboliu também a crucificação como forma de castigo, devido ao seu significado simbólico e quando partia para a guerra, fazia-se acompanhar de um altar portátil.
Apesar de a Igreja ter prosperado sob o auspício de Constantino, ela própria decaiu no primeiro de muitos cismas públicos. Constantino, após ter unificado o mundo romano, convocou um Primeiro Concílio em Niceia, um grande centro urbano da parte oriental do império, em 325, um ano depois da queda de Licínio, a fim de unificar a Igreja cristã, pois com as divergências desta, o seu trono poderia estar ameaçado pela falta de unidade espiritual entre os romanos. Duas questões principais foram discutidas em Niceia (atual Iznik): a questão da Heresia Ariana que dizia que Cristo não era divino, mas o mais perfeito das criaturas, e também a data da Páscoa, pois até então não havia um consenso sobre isto.
Foi em grande parte devido aos esforços de Constantino que o mundo ocidental se converteu ao Cristianismo tão cedo e tão completamente. Estranhamente, o Imperador só aceitou receber o baptismo poucos dias antes de morrer e pelas mãos de um bispo ariano, Eusébio de Nicomédia.

 

Fontes: wikipedia,org.
Marsh, W.B. E Bruce Carrick – 365 Grandes Historias da História





terça-feira, 29 de setembro de 2015

A Batalha de Nicópolis








Em finais do sec. XIV, os Turcos Otomanos tinham reduzido o outrora poderoso império bizantino a pouco mais do que a própria cidade de Constantinopla. Em 1389, o sultão Murad I tinha vencido os exércitos sérvios e búlgaros na batalha de Kosovo Polje, terminando assim com a independência da Sérvia e da Bulgária. O seu império abrangia a maior parte da península balcânica. Da Arménia e do Cáucaso estendia-se até ao Adriático. Só as muralhas de Constantinopla resistiam ainda aos Turcos. No Ocidente, um certo número de países seguiam com apreensão as conquistas otomanas.
O novo sultão era agora o temível Bayezid I, ou Bajazet, que tinha ascendido ao sultanato em 1389, após o assassinato do pai, Murad I, por um nobre sérvio no Kosovo. Uma das suas primeiras medidas é assassinar todos prisioneiros sérvios capturados na batalha como vingança pelo assassinato do pai, muito embora o próprio Bayezid tivesse mandado matar seu irmão Yakub, popular herói das campanhas balcânicas e um virtual pretendente ao trono otomano. Apesar de sua falta de piedade com os prisioneiros de guerra sérvios, e da redução daquele país à condição de vassalo dos Otomanos, Bayezid consegue uma aliança de paz com o rei Lázaro da Sérvia, ao tomar em casamento sua filha Olivera Despina, e ao conceder aos sérvios uma autonomia considerável sob o governo de Stefan Lazarevic, filho do rei Lázaro. É possível que os sérvios tenham preferido o protectorado otomano porque os Húngaros já faziam incursões em território Sérvio planeando conquistar o país e usá-lo como trincheira contra os Otomanos.
Quando da ascensão de Bayezid ao trono, a Bulgária resumia-se a um estreito polígono entre o Mar Negro, a cordilheira do Haimos, as fronteiras com a Sérvia e o rio Danúbio e a Roménia dividia-se em dois reinos: o da Valáquia (entre os Cárpatos e o Danúbio) e o do Principado da Moldávia (dos Cárpatos ao Rio Bug do Sul).
Na tentativa de conquistar Constantinopla e desejando eliminar os dois estados cristãos ao norte, de onde poderiam partir expedições de socorro, Bayezid impõe um cerco à capital bizantina em 1391 e dois anos depois, invade a Bulgária, tomando a capital Tarnovo e a maior parte daquele país, restando livres apenas o Czarado de Vidin e o Despotado de Dobruja.
Todavia, ao cruzar o Danúbio em 1394, é derrotado por Mircea I, comandante das forças romenas, na Batalha de Rovine. Mircea ocupa temporariamente a Dobruja até esta ser conquistada por Bayezid em 1396. Alcunhado de “O Raio” devido aos seus repentinos e devastadores ataques, tendo decidido alargar os seus domínios mais além, em 1395 marchou para Ocidente, ameaçando directamente a Hungria, governada pelo rei Sigismundo I, o Sacro Imperador Românico Germânico que chamou em seu socorro os príncipes e os povos da Europa Ocidental. Em princípios de Julho, alcançou Nicópolis, uma fortaleza búlgara situada nas margens do Danúbio que conquistou após um breve cerco aniquilando os defensores.
Desta vez, o Papa Bonifácio IX convocou uma cruzada para eliminar a ameaça muçulmana. A ideia propagou-se com os melhores resultados. Carlos VI de França prometeu ajuda e os duques de Borgonha reclamavam a honra de serem psotos à frente de um exército de cruzados. Assim, em Julho de 1396 Jean de Nevers, o herdeiro da Borgonha conhecido mais tarde como João Sem-Medo, pôs-se em movimento à testa de um exército heterogéneo formado por 10.000 franceses, 2000 alemães, 1000 ingleses e grande variedade de soldados provenientes da Polónia, Áustria, Lombardia e Croácia, bem como um contingente de Cavaleiros Hospitalários. Marcharam para leste e em Buda juntou-se-lhes um grande exército de 30.000 húngaros, sob o comando do seu rei Sigismundo. O objectivo dos Cruzados era nada menos do que expulsar os Turcos dos Balcãs e depois, através da Anatólia e da Síria, seguir rumo a Jerusalém para reconquistar a Cidade Santa. O seu primeiro alvo importante era Nicópolis, recentemente conquistada e agora ocupada pelos Turcos. À frente deste imponente exército marchavam oito cavaleiros, escoltando a bandeira da Virgem, cuja imagem estava rodeada de flores de lis. Os cruzados não tinham dúvida de que iam exterminar facilmente os inimigos da cristandade.
Ao longo dos séculos, sempre a coragem e a determinação dos Cruzados foi muito mais forte do que o planeamento e a preparação. A Cruzada de 1396 não constituiu excepção, porque os exércitos europeus não tinham trazido material de assédio, pelo que foram forçados a cercar e a isolar Nicópolis, em vez de a subjugar. Este erro deu aos Turcos várias semanas para segurarem a fortaleza, enquanto esperavam por reforços que não tardaram a chegar. Resolvido a salvar Nicópolis, o sultão saiu da Turquia à testa de um grande exército, que incluía os temíveis janízaros (do turco Yeniçeri ou “Nova Força”), um contingente de infantaria composto por jovens cristãos raptados às famílias e obrigados a converter-se ao Islamismo. Era o chamado “imposto de sangue” imposto pelo Sultão Murad I e aplicado aos povos cristãos que ficavam sob o jugo otomano. Não podiam casar e depois de anos de treino intensivo, formavam a guarda pessoal do Sultão, a quem eram fiéis até à morte e à sua ordem combatiam até os seus antigos irmãos, sendo considerados a elite do exército otomano. Depois de se lhe juntarem os aliados sérvios, Bajazet ocupou posições defensivas na estrada para a cidade, com os flancos protegidos por fundas ravinas.
Era o dia 25 de Setembro de 1396. Ávidos de sangue e honra, os impacientes cavaleiros franceses lançaram imediatamente um ataque, não obstante os conselhos em contrário do rei Sigismundo que propôs que a infantaria húngara fosse a primeira a atacar. A princípio foram bem-sucedidos derrotando a infantaria turca e a cavalaria ligeira e lançando-se sobre os Janízaros. Bruscamente, a cavalaria francesa foi obrigada a uma paragem; tinham chegado a um campo de estacas aguçadas cravadas no terreno e tiveram de desmontar dos seus cavalos esventrados. Mesmo a pé eram combatentes formidáveis, rompendo a linha dos Janízaros e matando-os aos milhares.
Os Franceses e seus aliados subiram então uma pequena colina, na esperança de pilharem o acampamento do sultão; mas deram de caras com a cavalaria pesada otomana ali reunida. Isolados do resto do exército cristão, foram cercados e chacinados ou aprisionados.
Entretanto, a infantaria húngara dos Cruzados inicialmente saiu-se melhor, derrotando as forças turcas à sua frente, antes que os soldados sérvios de Bajazeto surgissem de emboscada e pusessem em fuga todo o exército dos Cruzados em pânico.
Apenas alguns poucos escaparam. O rei Sigismundo fugiu para o Danúbio, onde embarcou; Jean de Nevers e cerca de vinte e quatro outros cavaleiros de grande nome e fortuna foram feitos prisioneiro e libertados após o pagamento dos seus resgates, o que poderia demorar anos. Os restantes, no dia seguinte à batalha, foram obrigados a desfilar perante o Sultão furioso pelas baixas sofridas e entregues ao carrasco, depois de se negarem a converter-se ao Islão, sendo decapitados na presença do conde da Borgonha e dos outros cavaleiros. Os cruzados marcharam para o suplício como verdadeiros mártires. Segundo relatam testemunhas, podiam-se ouvir agradecer a Deus a graça que lhes fora concedida de morrerem por Ele. Os que sobraram foram dados aos soldados como escravos.
Toda a cristandade sentiu uma emoção intensa em face do relato do destino pavoroso reservado aos Cruzados e voltaram a ver-se no Ocidente as procissões de penitentes conhecidas dos tempos das epidemias da peste. Poderia o sultão executar a ameaça de levar os seus cavalos a pastar nos jardins de S. Pedro?
Mas Bajazet que tinha também sofrido pesadas perdas, conquista as províncias remanescentes da Bulgária e pôs cerco a Constantinopla. Todavia, em 1401 levanta-se na Ásia um novo império mongól, liderado por Timur-I-Leng, conhecido na literatura ocidental como Tamerlão. Este já havia conquistado boa parte da Ásia Central, todo o Irão e o Cáucaso, e invadira o leste da Anatólia, alcançando os Otomanos pela retaguarda. Bayezid é obrigado a abandonar o assédio a Constantinopla e voltar todas as suas forças para a defesa da Anatólia. Em 20 de Julho de 1402, Bayezid é derrotado e capturado pelos Mongóis na Batalha de Ancara. Em vão esperou que os filhos o fossem libertar. Quando após o cativeiro de nove meses soube que iria ser arrastado em triunfo a Samarcanda, não pode suportar esta ideia e morreu em 1403 vítima de uma crise de coração.
Os turcos mantiveram sua pressão sobre Constantinopla que só cairia em 1453 aumentaram o controle sobre os Balcãs e tornaram-se uma grande ameaça para a Europa Central. A nobreza búlgara foi eliminada – os aristocratas foram obrigados a aceitar o Islamismo sob pena de serem executados. Os camponeses foram reduzidos à servidão sendo-lhes também aplicado o famigerado “imposto de sangue”. Demoraram cerca de cinco séculos a reconquistarem a sua liberdade! 

Fontes:
Grimberg, Carl - História Universal
Marsh, W.B. e Bruce Carrick - 365 Grandes Histórias da História
www.wikipedia.org 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O Aniversário da Lua



O Festival da Lua, também chamado na China de Festival de Meados de Outono, é um dos principais feriados tradicionais celebrados pelo povo chinês, ocorrendo sempre no 15º dia do 8º mês lunar do calendário chinês, (normalmente em meados de setembro no calendário gregoriano), e que coincide com a Lua Cheia do equinócio de outono do calendário solar. Este ano o festival celebra-se a 27 de Setembro.
É manifestamente uma festa das colheitas que se querem boas, sendo tempo de guardar provisões para o Inverno que se aproxima, reservas alimentares e sementes. a Lua é aqui ainda o símbolo da fecundidade. A lua é de água, ela é a essência do yin: como o Sol, é habitada por um animal, que é uma lebre ou um sapo.
O culto “oficial” à Lua parece remontar à dinastia Shang (1600 – 1046 a. C.) contudo referências ao festival do Meio de Outono surgem já nos célebres Ritos de Zhou (Dinastia Zhou do Oeste) altura em que entre a nobreza e os ricos vingou o hábito de sacrificarem à Lua no 15.º dia da 8.ª Lua. Tornar-se-ia uma festa popular já na Dinastia Tang (618 – 907) mas é na dinastia seguinte, a Song que a tradição se enraíza permanecendo até aos nossos dias.
Conta-se que o Imperador Xuanzong terá feito uma visita pela mão do mestre Taoista Lo Gong Yuan, até ao “Palácio da Lua” através de uma ponte que unia a terra à lua através dos céus, ou como consta numa outra versão, através de um sonho, onde terá sido recebido com “música”, “bailarinas” e “bolo lunar”, que foi então adoptado como símbolo da celebração. O bolo lunar é sempre redondo ou quadrado, redondo por ser a forma da lua, quadrado, pelas quatro faces da Lua.


Nesse dia, uma Lua límpida e brilhante paira nas alturas da noite transparente, de onde contempla a Terra com um sorriso. Nessa Lua redonda e luminosa mora a bela e solitária deusa Chang E, a mulher do herói ou semi-deus Hou Yi, o arqueiro que derrotou os nove sóis e, por isso perdeu a sua imortalidade.
Diz a lenda, há sempre uma lenda, que havia dez sóis na terra que se substituíam saindo um a cada dia. Um dia, cansados das suas rotinas, resolveram sair todos de uma vez e o calor foi tanto que as pedras derretiam, as pessoas morriam e as plantas secavam. Por isso, o imperador, Yao, implorou ao pai dos sóis, Dijun, que os controlasse. Os sóis não deram ouvidos a seu pai e por isso ele enviou Houyi para a Terra com um arco mágico e flechas. Dijun esperava que Hou Yi apenas assustasse os sóis, mas quando ele viu a devastação causada por aqueles foi tomado por um acesso de fúria e derrubou nove deles, restando apenas o atual. Dijun por sua vez ficou furioso e baniu Hou Yi para a Terra para passar o resto de seus dias como um mortal.
Depois deter destruído os nove sóis Hou Yi conhece a bela mortal Chang'e por quem se apaixona e casam-se. Vivem felizes e o archeiro continua a ensinar a sua arte aos mais necessitados dos seus seguidores para que estes pudessem com a caça sobreviver e para se defenderem. Um dia, resolveu ir falar com a Imperatiz-mãe para saber como poderia novamente tornar-se imortal e conseguir que a sua amada também o fosse. A viagem foi muito longa e cheia de perigos, mas o nosso herói venceu todos os obstáculos e conseguiu da imperatriz o elixir da imortalidade. Se o tomasse junto com a esposa ascenderiam os dois aos céus.
Feng Meng, considerado o melhor de todos os discípulos de Hou Yi, era, no entanto, orgulhoso, invejoso e perverso. Todos os dias desejava que o seu mestre morresse, pois cobiçava ser considerado o mais exímio arqueiro do mundo. Contudo, ao saber do elixir que tornava irrealizável o seu sonho, tenta roubá-lo a Cheng'e aproveitando uma ausência do mestre. Cheng'e não querendo dividir o elixir com um homem tão perverso, toma-o e chorando amargamente, voa para a Lua, o lugar mais próximo da Terra e de onde poderia continuar a ver o seu amor.
Mas Feng Meng espera por Hou Yi arma-lhe uma emboscada, acabando por o matar com uma paulada na cabeça e esconde-se, aproveitando a escuridão, Ao saberem do crime, os habitantes da aldeia ficam consternados e partem à procura do assassino munidos de lanternas acesas, acabando por o encontrar. Amarram-no a uma árvore e matam-no, atravessando-o cada um com uma flecha.
Chang E continuou a habitar, tal como uma fada celestial, o luxuoso palácio de Guanghan feito de jade e esmeraldas, mas afastada da Terra e da companhia de Hou Yi, a sua eternidade tornou-se um mar de amargura, solidão e sofrimento.