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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Os Burgueses de Calais



Uma das 12 cópias do grupo, em Londres
O Monumento aos Burgueses de Calais, que ocupou Rodin durante onze anos, evoca um episódio da Guerra dos Cem Anos, relatado pelo cronista Froissart nas suas “Crónicas de França”, (1370-1400).
A história narra o patriotismo e a coragem de seis dos mais notáveis cidadãos de Calais, que voluntariamente se ofereceram como reféns ao rei Eduardo III de Inglaterra, para que levantasse o cerco da cidade e salvasse as populações famintas. Rodin retrata estes mártires num momento crucial, quando se dispunham a abandonar a Praça do Mercado a caminho da execução.
O Cerco de Calais
Eduardo III, de Inglaterra, que através da sua linhagem materna, reclamava também o reino de França, invadiu o reino e depois de derrotar os franceses nas Batalhas de Sluyis em 1340 e de Crécy em 1346, necessitava de um porto de águas profundas para garantir o transporte dos abastecimentos provenientes de Inglaterra.
Calais, situada no Estreito de Dover, no ponto mais estreito do Canal da Mancha, e sendo a cidade francesa mais próxima da Inglaterra, estava perfeitamente apropriada para os propósitos do monarca inglês. Era altamente defensável, com duplo fosso e muralhas que tinham sido erguidas cem anos antes. A cidadela no lado noroeste da cidade tinha o seu próprio fosso e fortificações adicionais. Assim, o rei inglês reivindicou-a por direito, mediante o seu título de conde de Ponthieu
A cidade foi cercada no dia 3 de Setembro de 1346 por um exército de cerca de 34.000 homens comandados pelo próprio rei, enquanto que dentro da cidade as forças francesas comandadas pelo governador Jean de Vienne, contavam apenas com 7 a 8.000 cidadãos.
Apesar da disparidade dos números, e mesmo sabendo que não conseguiriam ser socorridos pelos seus, os franceses resistiram heroicamente aguentando o cerco, e capitulando apenas quando a fome que já grassava na cidade se tornou insuportável , precisamente no dia 4 de Agosto de 1347, onze meses mais tarde.
Furioso com esta longa demora, Eduardo III ordenou primeiro a execução em massa dos habitantes, mas acabou por aceitar poupar-lhes a vida em troca da presença dos seis homens mais importantes da cidade, descalços, vestidos apenas com as roupas interiores e de baraço ao pescoço.
Eustache de Saint-Pierre, o mais velho e rico dos burgueses foi o primeiro a oferecer-se para o sacrifício, no que foi seguido por Jean d'Aire, que levava a chave do castelo, Pierre et Jacques de Wissant, Andrieu d’Andres y Jean de Fiennes.
Mas no momento em que o rei ia dar o sinal para serem executados, sua esposa, a rainha Philippa de Hainaut, que se encontrava grávida e tinha acompanhado o marido durante o cerco, ao ver os seis infelizes suando de calor e tremendo de medo pela cólera do rei, cobertos de trapos, com a corda ao pescoço, trazendo nas mãos as chaves da cidade e do castelo, ajoelhou-se aos pés do marido, suplicando por misericórdia, em nome do filho ainda por nascer.
Impressionado com a bondade da rainha, Eduardo acalmou-se e mandou que os libertassem.
Calais continuou inglesa até ao reinado de Maria Tudor, quando a França reconquistou definitivamente a cidade.
Em Setembro de 1884, o município de Calais, propôs erigir um monumento, com a ajuda de uma subscrição nacional, ao heroísmo de Eustache de Saint-Pierre e seus companheiros. Para isso foram escolhidos dois artistas que não puderam executar a obra; o primeiro, David d'Angers porque ter falecido e o segundo, Auguste Clésinger, devido à guerra Franco-Prussiana. Foi feito então um convite a vários escultores, Rodin incluído, para apresentarem os seus esboços.
Baseado no relato histórico de Froissart, o escultor põe mãos à obra, ainda sem um contrato definitivo. Logo a partir da primeira maquete, impõe-se a noção de sacrificio colectivo. Não é um burguês de Calais que ele quer representar, mas sim seis, numa lenta procissão para a morte Os personagens que todavia não estão individualizados, apresentam-se num mesmo plano, movendo-se em torno uns dos outros, sem se tocarem e sem distinção de hierarquias, vestidos com a camisa dos condenados. Os pés e as mãos das figuras são demasiado grandes para o seu tamanho e os gestos tetrais ainda mais enfatizam as suas diferentes atitudes face ao martírio; ira, medo, orgulho...Eustache de Saint-Pierre, o mais velho, no centro do grupo inclina-se para a frente, as mãos caídas, pesadas, Jean d'Aire de cabeça erguida, desafiante, leva nas mãos uma chave enorme, as pernas afastadas, Andrieu d'Andres leva as mãos à cabeça, em desespero e Jean de Fiennes, o mais novo e o mais relutante, abre os braços com as mãos viradas para dentro . O seu vizinho, Pierre Wissant, com a mão direita levantada e o indicador apontado para si mesmo parece perguntar: Porquê eu? . Jacques Wissant atrás de Eustache, levanta a mão numa interrogação ou protesto
O grupo forma uma espiral, obrigando assim o espectador a rodeá-las para que as possa observar na sua totalidade.
Feito em bronze, o monumento é, sem dúvida alguma, uma das sua obras mais importantes. Foi inaugurado na Praça do Soldado Desconhecido, diante da prefeitura de Calais, em 1895, apesar das muitas críticas que recebeu.
Actualmente existem vários exemplares desta famosa escultura no mundo.


Fontes:
Marsh, w.b. E Bruce Carrick – 365 grande histórias da História
www.museu.gulbenkian.pt/
wikipedia.org

sábado, 4 de abril de 2015

PÁSCOA 2015


Domingo de Ressurreição

Páscoa ou Domingo da Ressurreição é uma festividade religiosa que celebra a ressurreição de Jesus ocorrida três dias depois da sua crucificação no Calvário, conforme o relato do Novo Testamento. É a principal celebração do ano litúrgico cristão e também a mais antiga e importante festa cristã. A data da Páscoa determina todas as demais datas das festas móveis cristãs, exceto as relacionadas ao Advento. O domingo de Páscoa marca o ápice da Paixão de Cristo e é precedido pela Quaresma, um período de quarenta dias de jejum, orações e penitências e seguido por um período de cinquenta dias chamado Época da Páscoa que se estende até o Domingo de Pentecostes.
O termo "Páscoa" que significa passagem deriva, através do latim Pascha e do grego bíblico Πάσχα Paskha, do hebraico פֶּסַח (Pesaḥ ou Pesach), a Páscoa judaica.
É também uma festa móvel, o que significa que sua data não é fixa em relação ao calendário civil. O Primeiro Concílio de Niceia (325) estabeleceu a data da Páscoa como sendo o primeiro domingo depois da lua cheia após o início do equinócio vernal (a chamada lua cheia pascal). Do ponto de vista eclesiástico, o equinócio vernal acontece em 21 de março (embora ocorra no dia 20 de março na maioria dos anos do ponto de vista astronómico) e a "lua cheia" não ocorre necessariamente na data correta astronómica. Por isso, a data da Páscoa varia entre 22 de março e 25 de abril (inclusive). Os cristãos orientais baseiam seus cálculos no calendário juliano, cuja data de 21 de março corresponde, no século XXI, ao dia 3 de abril no calendário gregoriano utilizado no ocidente. Por conseguinte, a Páscoa no oriente varia entre 4 de abril e 8 de maio inclusive.
A Páscoa já era comemorada antes da época de Jesus Cristo. Tratava-se da comemoração do povo judeu por terem sido libertados da escravidão no Egito, que durou cerca de 400 anos. Essa libertação coincidiu com a Primavera, que ocorria no mês hebraico (nissan) que corresponde mais ou menos aos últimos dias de Março e meados de Abril, quando na bacia do Mediterrâneo começava a Primavera.
Os costumes pascais variam bastante entre os cristãos do mundo inteiro e incluem missas matinais, a troca do cumprimento pascal e de ovos de Páscoa, que eram, originalmente, um símbolo do túmulo vazio. Muitos outros costumes passaram a ser associados à Páscoa e são observados por cristãos e não-cristãos, como a caça aos ovos, o coelho da Páscoa e a Parada da Páscoa. Há também uma grande quantidade de pratos típicos ligados à Pascoa e que variam de região para região.
A produção de imagens ancoradas na temática hierática e, sobretudo, na emblemática figura do Cristo, remonta às representações artísticas da Alta Idade Média, documentadas a partir do século III. No período paleocristão, a concepção iconográfica de Jesus encontra-se representada quase que exclusivamente na figura do Cristo como o “Bom Pastor”. O enriquecimento da cultura iconográfica cristã após a promulgação do Édito de Milão permitiu a ampliação dos ciclos narrativos.
Na Baixa Idade Média, a predominância da figura de Cristo como “bom pastor” foi sendo progressivamente substituída pela do “cordeiro em sacrifício”, abrindo espaço para as representações do episódio da ressurreição. A fonte primária do tema é o Evangelho de João (capítulos 20 e 21), em que se narra de forma concisa o fenómeno da ressurreição e da aparição de Jesus a Maria Madalena.
A cena do Cristo ressuscitado, ostentando o estandarte da ressurreição, e elevando-se sobre o sarcófago na presença dos soldados – alternativamente retratados inconscientes, fascinados ou espantados diante do fenômeno que observam –, tornou-se relativamente frequente na cultura pictórica do Renascimento. Artistas como Perugino e Piero della Francesca dedicaram-se ao tema, que, ademais, encontra ressonâncias para além das fronteiras italianas, nomeadamente na Alemanha, em obras de Matthias Grünewald e Albrecht Altdorfer.



A Ressurreição de Cristo – Piero della Francesca

A Ressurreição é uma pintura do grande mestre renascentista italiano Piero della Francesca, terminada por volta de 1460. Aldous Huxley referiu-se a ela como ‘a pintura mais bela do mundo’. Pode ser vista no Museo Civico de Sansepolcro (Toscânia), cidade natal do artista. O tema da imagem faz alusão ao nome da cidade (que significa "Santo Sepulcro"), derivada da presença de duas relíquias do Santo Sepulcro, realizado por dois peregrinos no século IX. Cristo está também presente no brasão da cidade.
Jesus está no centro da composição em forma piramidal, retratado no momento de sua ressurreição, como sugerido pela posição do pé no parapeito. A Sua figura, retratada com uma fixidez icónica e abstracta (e descrita por Aldous Huxley como "atlético"), paira sobre quatro soldados dormindo, o que representa a diferença entre o humano e o divino (ou a morte, derrotada pela luz de Cristo). A paisagem, imersa na luz do amanhecer, também tem um valor simbólico: o contraste entre as árvores florescendo na direita e os descalços na esquerda alude para a renovação dos homens através da luz da ressurreição.
Segundo a tradição, o soldado dormindo na armadura esverdeada à direita de Cristo é um auto-retrato de Piero. O contacto entre a sua cabeça e a haste da bandeira Guelfo transportada por Cristo é suposto representar o contacto do artista com a divindade. Outra curiosidade é que aparentemente o soldado com o escudo não tem pernas
Sansepolcro escapou ao fogo de artilharia durante a 2ª Guerra Mundial, porque Anthony Clarke, o capitão britânico encarregado da tarefa, havia lido o artigo já mencionado, de Aldous Huxley, sobre esta obra. O capitão nunca tinha visto a pintura, mas no último momento (os bombardeamentos já tinha começado) lembrou-se onde tinha ouvido falar de Sansepolcro e ordenou aos seus homens para parar. Uma mensagem recebida mais tarde informou que os alemães já se tinham retirado da área - o bombardeamento não foi necessário. A cidade, juntamente com o seu famoso quadro, sobreviveu e Clarke entrou na cidade à procura da pintura encontrando-a intacta. Saudado como um herói local tem em Sansepolcro uma rua com o seu nome.

Fontes e Imagem:www.wikipedia.org

Para todos os votos de uma Páscoa Feliz!




quinta-feira, 2 de abril de 2015

A ÚLTIMA CEIA

Última Ceia – Ícone de Teófanes, o Cretense
Enquanto comiam, tomou um pão e, depois de pronunciar a benção, partiu-o e entregou-o aos discípulos, dizendo: - Tomai, isto é o Meu corpo. - Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: - Isto é o Meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos. Em verdade vos digo: Não beberei do produto da videira até àquele dia em que o hei-de beber de novo no reino de Deus”.Marcos (14,22-25).
A Última Ceia ou a Santa Ceia, é o nome dado à última refeição que, de acordo com os cristãos, Jesus tomou com os seus apóstolos em Jerusalém antes da sua crucificação.
O relato mais antigo provém do Evangelho de Marcos, que foi produzido por volta do ano 70 d.C., seguido do de Mateus, por volta dos anos 70 a 90 d.C., Lucas em 90 d.C., e, por fim, o de João, escrito entre os anos 100 e 110 d.C. Além disso, é também mencionada na Epístola de S. Paulo aos Coríntios (I Coríntios 11,23, 26-3), e é comemorada na chamada Quinta-Feira Santa.
Em Marcos (14,12-25), o relato da Ultima Ceia dá-se no primeiro dia dos Ázimos, numa “sala arrumada com almofadas”, onde, durante a refeição, Jesus anuncia que um de seus discípulos o irá trair.
O Evangelho de Mateus (26,17-29) ilustra o cenário de uma forma um pouco diferente, pois não há menção sobre o lugar em que decorre a Santa Ceia. O anúncio feito por Jesus de sua iminente traição segue como descrito em Marcos. Apenas há o detalhe adicional de que Judas pergunta a Jesus se será ele o traidor, o que confere uma maior dramatismo à cena. A ceia termina com o ritual do pão e do vinho, embora com algumas diferenças da versão feita por Marcos.
No Evangelho de Lucas (22,7-23), diferentemente dos de Marcos e Mateus, encontramos a informação de que a traição a Jesus teria ocorrido porque “Satanás entrou em Judas”. Outra diferença está na menção de que os discípulos foram enviados por Jesus à casa em que ocorreu a última ceia: João e Pedro (em Marcos, vemos apenas Jesus ordenando dois de seus discípulos que fossem a uma casa; e em Mateus, a dois discípulos se apresentam para procurar um lugar para a ceia). Aqui, tal como em Marcos, já há detalhes sobre a casa e o lugar em que Jesus e seus discípulos realizaram a ceia.
O acto é encerrado com as palavras rituais que são similares àquelas vistas em Mateus, com o diferencial de que Lucas deixa claro que o ritual do pão e do vinho deve ser repetido até que o reino de Deus seja instaurado. Essa mudança é significativa quando posta em comparação com os dois evangelhos anteriores, já que tanto em Marcos quanto em Mateus, Jesus não deixa claro se o reino foi ou não instituído. O que o Nazareno diz é apenas que ele e seus discípulos beberão um novo vinho no reino de Deus.

Jesus lavando os pés dos discípulos – Mosaico do Mosteiro de Osias Lucas, na Beócia
No evangelho de João (13,1-30) não temos a Última Ceia, mas a cena do lava-pés aos discípulos em que Jesus lhes dá um novo mandamento: "Amai os outros como eu vos amei" e chamando os apóstolos que seguiam seus ensinamentos de "amigos e não servos". Apesar disso, é possível traçar paralelos com o material sinóptico (como são chamados os textos de Mateus, Marcos e Lucas, por poderem ser lidos em forma justaposta). Essa substituição da ceia pelo lava-pés é um dado significativo, ao sinalizar que, no século II d.C. (considerando que o evangelho de João foi escrito por volta do ano 110), não havia ainda consenso entre os primeiros cristãos sobre os eventos da última semana de vida de Jesus. Tanto o pão e o vinho como a água eram elementos empregados pelas comunidades paleocristãs (seguidores de Jesus, até o século IV, quando se institucionaliza a religião cristã) para manterem uma conexão espiritual com seu mestre
A Última Ceia, sendo um dos temas mais populares da arte cristã, foi objecto de múltiplos estudos e interpretações artísticas ao longo dos séculos.
As suas primeiras representações remontam ao cristianismo primitivo e podem ser vistas nas Catacumbas de Roma. Artistas bizantinos frequentemente pintavam os apóstolos recebendo a comunhão ao invés de figuras reclinadas ceando. Na época do Renascimento, tornou-se um tópico favorito da arte italiana.
Há três grandes temas nas representações artísticas da Última Ceia. O primeiro é a dramática e dinâmica cena em Jesus anuncia que será traído. O segundo é o momento da instituição da Eucaristia, e o terceiro é o Discurso do Adeus, no qual Judas Iscariotes já não se encontra presente, mas onde se sente a tristeza pela eminente partida do Senhor.

Discurso do Adeus, por Duccio
Talvez a mais conhecida destas obras seja a de Leonardo da Vinci, pintada em 1497 numa das paredes do refeitório dos monges do Convento de Santa Maria Delle Grazie em Milão, e onde pode ser admirada, apesar deste mosteiro ter sido bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial.
Pela primeira vez as figuras não apresentam as auréolas de santidade, na mesa há vários alimentos, pão, laranjas, peixe, vinho, sal e água, mas não se vê carne e também não existe nenhum cálice (o Santo Graal) em frente a Jesus, mas apenas copos de vidro.
Desde que a pintura de Leonardo da Vinci se tornou famosa, houve estudos sobre as técnicas ali usadas, sobre as tintas e sobre a complexa interacção entre Jesus e os discípulos evidenciada na imagem.
Como esta pintura já é por demais conhecida, apresento aqui a obra que foi pintada por Jacopo Tintoretto, que pela sua energia fenomenal em pintar, foi chamado Il Furioso, e a sua dramática utilização da perspectiva e dos efeitos da luz fez dele um dos precursores do Barroco.

Última Ceia – Jacopo Tintoretto

Fontes e Imagens: www.wikipedia.org
Entre a História e os evangelhos” - Revista História Viva n. 137
www.snpcultura.org



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Juramento dos Horácios

O Juramento dos Horácios – Jacques-Louis David (1784)

Le Serment des Horace (O Juramento dos Horácios) de Jacques-Louis David (Paris, 30 de Agosto de 1748 - Bruxelas, 29 de Dezembro de 1825), é uma pintura a óleo concluída em 1784, de 3,3 por 4,25 metros, e encontra-se no Museu do Louvre, em Paris.
A intenção do pintor era fazer deste quadro uma arma de propaganda mas nem mesmo ele podia prever o sucesso que teria. A obra mostra uma cena da história romana, onde os cidadãos republicanos, na qualidade de homens livres, pegam em armas para decidirem eles o destino do Estado. Neste caso não são portanto reis ou condes que tomam as decisões, mas sim cidadãos que se empenham responsavelmente pelo bem da nação.
Quando foi pintado, tinha David 27 anos, o antigo regime da monarquia francesa com base no direito divino dos reis, tinha apenas mais 4 anos de vida. Em 1789, a Revolução Francesa, que David apoiava desde o início, sendo amigo de Robespierre e membro do Grupo dos Jacobinos, implantou uma nova ordem política, o Estado nação republicano, com os seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.
Ironicamente, este quadro foi encomendado pelo rei Luís XVI, que morreria na guilhotina em 1793, sendo um dos votos favoráveis à sua execução do próprio David.
Heróico, autoritário e de composição impecável, o quadro personifica o novo sonho político em que a França se encontrava mergulhada e tem por base um episódio passado na Antiga Roma.
Verdadeira ou lendária a luta entre Horácios e Curiácios foi registada, no século I a. C., pelo escritor latino Tito Lívio na obra "Ab Urbe Condita" e séculos mais tarde recuperada pelo dramaturgo francês Pierre Corneille (1606-1684) na tragédia "Horace".
Reza a história que no Lácio, o país dos Latinos, havia diversas cidades, sendo Alba Longa a mais antiga e Roma a mais recente. Por volta do ano 669 a.C., Roma teve um rei belicoso na pessoa de Tullus Hostilius que, um dia resolveu entrar em guerra com a sua metrópole. Os exércitos das duas cidades já estavam dispostos em ordem de batalha, prontos a lançarem-se uns sobre os outros, mas hesitando em cometer um acto tão ímpio dado os estreitos laços que os uniam.
Decidiram então que a querela seria resolvida por um duelo. Havia justamente nas fileiras de cada um dos exércitos três irmãos, os três Horácios no lado romano e os três Curiácios no de Alba Longa. Foram eles os escolhidos para travarem o combate decisivo, tendo ficado estipulado que a pátria dos vencedores reinaria sobre a dos vencidos.
A um sinal combinado, os seis jovens lançarem-se uns sobre os outros, até que, dois dos romanos caíram feridos de morte. Os três Curiácios estavam feridos, mas agora eram três contra um. Já as aclamações dos Albanos soavam, quando o Horácio sobrevivente se pôs em fuga. Ao irem atrás dele, os Curiácios separaram-se e astuciosamente, o romano foi eliminando um de cada vez.
Voltando a Roma triunfante, à frente do seu exército e sob os aplausos da população que o aclamava como herói, Horácio tem à sua espera as mulheres da família, entre as quais Sabina, irmã dos Curiácios e mulher de um dos Horácios e a sua irmã Camila, que estava noiva de um dos Curiácios e se desfaz em prantos ao ver o manto do seu amado entre os troféus que o irmão exibia. Irritado, Horácio arremete contra a irmã e trespassa-a com a sua espada exclamando: “Que morra assim todo o romano que chore a morte de um inimigo!”.
Este acto do vencedor fez calar todos os aplausos e, apesar do imenso serviço que ele tinha prestado à sua cidade, Horácio foi levado perante o tribunal e condenado à morte. Mas o povo acedeu ao pedido do seu velho pai, que suplicou lhe deixassem o seu último filho.
O cenário arquitectural do quadro é nitidamente romano, com três arcos dóricos sustentados por colunas também dóricas que correspondem ao agrupamento das figuras. Cada grupo ou indivíduo está emoldurado por um dos arcos, sugerindo o seu isolamento e os laços que os unem. A austera coluna dórica, caracterizada pela ausência de base, era considerada de carácter masculino e militar.
A lança, que mal se nota na arcada escura, é o único ornamento deste espaço nú e desprovido de qualquer luxo doméstico e serve também para equilibrar o ângulo do corpo do pai, quase ao centro da tela.
Os três irmãos são apresentados como modelos do soldado ideal. Os rostos amargos e determinados e a sua linguagem corporal transmitem a mensagem de que o dever e a disciplina são a virtude suprema e se necessário morrerão por elas.
No centro da pintura verifica-se a acção principal : O ritual do juramento. A pose heróica do pai acentua a nobreza do seu sacrifício. Nas suas mãos segura as três espadas para onde se estendem as mãos dos seus filhos no momento de prestarem o seu juramento, iluminadas pela viva luz do sol. O pai olha para os céus, em direcção aos deuses, os filhos têm as pernas firmemente assentes no solo e o soldado mais próximo é agarrado pelo irmão com toda a força em volta da cintura.
As togas foram fielmente copiadas de exemplares romanos, tal como os elmos e as espadas. O pintor assegurou-se de que cada pormenor fosse o mais preciso possível e até os narizes dos homens, são do feitio conhecido por “nariz romano”.
A cor dominante neste grupo masculino é o vermelho-vivo, a cor da paixão, que se iria tornar na cor tradicional da Revolução.
No entanto, todo este grupo masculino projecta a sua sombra escura sobre o canto onde duas crianças se abrigam sob o manto protector da avó, a mãe dos Horácios. A criança mais velha, embora assustada, afasta a mão da velha senhora e olha para as espadas com os olhos muito abertos. A sombra indica que até crianças inocentes devem estar dispostas a pagar o preço exigido pela lealdade ao Estado.
Também a atitude firme e determinada dos homens contrasta com a posição desfalecida das duas outras mulheres sentadas que assistem à cena e cujas mãos pendem inertes e passivas. Também elas iluminadas pela luz do sol, são a personificação da tragédia e da angústia. A mulher de branco é Sabina, irmã dos Curiácios e mulher de um dos Horácios que prestam juramento. Encosta-se à cunhada Camila, noiva de um dos Curiácios e que será morta por um dos seus irmãos.
Com esta obra Jacques-Louis David pretendeu mostrar que o cumprimento do dever está acima de qualquer sentimento pessoal, o Estado acima do indivíduo.


















terça-feira, 25 de março de 2014

Túmulo de D. Gonçalo Ouveques



Á esquerda da entrada da Igreja do antigo Mosteiro beneditino de S. Pedro, em Cete (tão antigo que a data da sua primeira fundação se perde no tempo), e já no interior da torre defensiva anexa ao templo, encontra-se a capela funerária de invocação a S. Nicolau Tolentino, que alberga o belíssimo túmulo românico de D.Gonçalo Oveques, reconstrutor e fundador do mosteiro na segunda parte da sua existência.
D. Gonçalo Oveques ou Ouveques ou Veques (1067-1113) foi um cavaleiro de ascendência francesa, que viveu no reinado de D. Afonso VI, de Castela, sogro do Conde D. Henrique. Segundo a Monografia de Paredes, ele o seu irmão D. Garcia Ouveques, “seriam filhos de Ouvequo ou Ouveco, irmão de D. Cresconcio (ou Dom Crescónio), bispo de Coimbra, e netos de Roderindo , do tempo de el-rei D. Ordonho III”. O conde Ouveco Garcia, seu pai, era senhor de Mouriz e da Honra de Urrô, tendo casado com D. Cete Gomes.
D. Gonçalo foi casado com D. Brites de quem teve um filho, D. Diogo Gonçalves de Urrô (1095 - 1139) morto na batalha de Ourique e "que casou com D. Urraca Mendes, irmã de D. Fernão Mendes de Bragança, cunhado de el-rei D. Afonso Henriques (...).
Companheiro do conde D. Henrique, foi senhor de Cete e de Mouriz, lutando ao lado de Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, em vários combates contra os mouros.
"Há quem diga que na família de Gonçalo Oveques havia vários bispos (menciona-se por exemplo uma doação de Oveco, bispo de Leão, em 24 de Junho de 750) e por isso se lhe chamava a família dos bispos - des évêques, derivando-se de aí o apelido Oveques ; que à entrada da igreja de Cêtte, há uma pedra sepulcral que tem desenhado um báculo, bastão episcopal curvo em cima, insígnia de bispo, e que no claustro há uma pedra sepulcral quebrada, que também tem representado um báculo”.
A sua admirável arca tumular, sem jacente, que albergava também os restos mortais de sua esposa, está inserida num arcossólio de volta perfeita, encimado por arco canopial decorado com friso fitomórfico, e apresenta o frontal composto por cinco painéis profusamente decorados com invulgar e larga decoração vegetalista, divididos por pares de caules cruzados, com as raízes alargadas em leque guarnecendo a base da arca. A capela tem cobertura em abóbada polinervada, assente em mísulas hexagonais, onde se pode admirar um bocete armoriado na pedra de fecho. O portal é emoldurado por duas arquivoltas de ponto, sendo a exterior decorada por friso vegetalista, repetido nos saiméis.
Na época manuelina o Mosteiro sofreu algumas remodelações, pelo que tanto a abóbada da capela funerária como o arcossólio do túmulo foram arranjados, passando a ostentar painéis de azulejos policromados quinhentistas.
Com o passar do tempo, o Mosteiro entrou em decadência e em 1936, nas obras de restauro que então se fizeram, o túmulo de D. Gonçalo foi descoberto, felizmente “ileso”, debaixo de um monte de entulho.
  



Fontes e Imagens:
As Mais Belas Igrejas de Portugal – Vol.I, Editorial Verbo
Saraiva, José Hermano – Lugares desconhecidos de Portugal – Selecções do Reader’s Digest
wikipedia.org
www.igespar.pt