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terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Assunção de Maria e o culto a Nossa Senhora da Boa Morte

A celebração da Assunção ao Céu em corpo e alma da Virgem Maria é um dos cultos marianos mais antigos que se conhecem e que deu origem à devoção a Nossa Senhora da Boa Morte.
Nos finais do séc. V, começaram a aparecer textos apócrifos sobre a morte de Maria, embora divergissem entre si. Uns achavam que o seu corpo tinha ficado no túmulo, luminoso e incorruptível, outros, que Jesus a tinha levado para o céu em corpo e alma. Apesar disso, a crença espalha-se, primeiro no Oriente, onde teve o seu início, e mais tarde, no Ocidente, trazida pelos cristãos bizantinos.
Segundo a tradição, Maria, por volta do ano 42 da nossa era, entra em “dormição” (isto é, no sono da morte, o que não é bem a morte comum), rodeada pelos apóstolos, que depositam o seu corpo num túmulo novo. Três dias depois, a pedido de S. Tomé, que não tendo chegado a tempo, queria honrar a Mãe de Deus, o sepulcro é aberto e, para espanto de todos, apenas se encontram nele as mortalhas em que o corpo tinha sido envolvido. Admirados, os Apóstolos fecham novamente o túmulo, convencidos de que a Virgem tinha sido “Assunta” isto é, levada em corpo e alma para o Céu.
Um texto difundido no Ocidente por Gregório de Tours dizia que “quando Maria agonizava, os Apóstolos acorreram todos, de cada país, para a sua casa. Velavam por ela quando o Senhor veio, escoltado pelos seus anjos, e recebendo a alma de Maria, entregou-a ao Arcanjo Miguel e retirou-se”. Ao romper do dia, os Apóstolos puseram o seu corpo na tumba, esperando o seu regresso: “Subitamente, Jesus apareceu-lhes de novo e arrebatando o corpo numa nuvem fê-la transportar assim para o Paraíso”.
O Imperador Maurício, que na altura, reinava no Império Romano do Oriente, estabeleceu a data de 15 de Agosto para comemoração da “Dormição da Assunta”, ou a “Dormição” da Mãe de Deus. Mais tarde, o Papa Sérgio I introduziu-a na liturgia romana.

No Ocidente, o culto à ”Dormição de Maria” deu também lugar à homenagem da Nossa Senhora da Boa Morte. Antigamente, era costume na véspera do dia 15 expor á adoração dos fiéis a imagem da Virgem adormecida num esquife, que na manhã seguinte, era trocada pela imagem de Nossa Senhora da Assunção.
Em 1661, Francisco Homem de Couto mandou erigir uma capela a Nossa Senhora da Boa Morte na freguesia da Calheta, e junto a Ponte de Lima existe também uma igreja com o mesmo nome, que na sua capela-mor exibe um belíssimo conjunto escultórico sobre este tema.
A 1 de Novembro de 1950, o Papa Pio XII, através da Constituição apostólica “ Magnificentissimus Deus”, proclama o dogma da Assunção de Nossa Senhora, sem no entanto se pronunciar quanto à sua morte ou “dormição”. Mas já João Paulo II na audiência geral de Junho de 1997 diz: “Qualquer que tenha sido o fato orgânico e biológico que, do ponto de vista físico, Lhe tenha produzido a morte, pode-se dizer que o trânsito desta vida para a outra foi para Maria um amadurecimento da graça na glória, de modo que nunca melhor que nesse caso a morte pode conceber-se como uma "dormição".
Qualquer destes temas, Dormição, Assunção e Boa Morte, foram tratados através dos tempos pelos mais variados artistas, tanto na pintura, como na escultura ou na literatura, desde os ícones bizantinos até às obras do Renascimento e do Barroco, ou aos mais recentes livros dos autores modernos.

Designação: Nossa Senhora da Boa Morte
Autor: Desconhecido
Cronologia: Séc. XVII
Proveniência: Desconhecida
Escultura em madeira estofada. Nossa Senhora aparece deitada com um vestido decorado com motivos florais e um véu na cabeça. Sobre este, um manto que lhe cobre também a cabeça e se estende praticamente até aos pés. As suas mãos estão em gesto de oração e a sua cabeça pousa numa almofada decorada com motivos vegetalistas. O seu leito está rodeado com oito cabeças de anjinhos de asas abertas: três na parte superior, três na parte inferior e um a meio de cada uma das partes laterais. (masampaio.imc-ip.pt)

sábado, 25 de junho de 2011

S. Pedro

Ao contrário dos outros dois Santos, S. Pedro, que se celebra a 29 de Junho e portanto, também faz parte destes festejos, é o protector das viúvas!
O aniversário da sua morte celebra-se desde o ano 336, e com ele encerram-se as festas do Solstício do Verão.
Como foi pescador de profissão, antes de se ter tornado como apóstolo, um pescador de almas, é também protector dos pescadores, que em sua homenagem lhe dedicam grandes festas, onde por vezes se inclui a bênção dos rios e dos barcos.
Segundo a tradição, depois da sua morte foram-lhe entregues as chaves das portas do Paraíso, tal como na terra lhe tinha sido confiada as chaves da Igreja.
Algumas tradições da noite de S. João também se repetem na noite de 28 para 29 de Junho, outras são adaptadas:
- As verrugas extinguem-se a quem furtar em noite de S. Pedro um vaso de flores (melhor se forem cravos) de alguma janela.
É também responsável pelo estado do tempo, de maneira que quando troveja, diz-se que “S. Pedro está a mudar os móveis “, quando chove, diz-se que “S. Pedro está a limpar a cisterna do Céu”.
Por vezes, a sua imagem é representada com 3 cruzes em vez de uma. Nesse caso, as chaves simbolizam o seu triplo poder sobre o Céu, a Terra e o Inferno.
E como diz o povo:


St. António já se acabou
O S. Pedro está-se a acabar
S. João, S. João dá cá um balão
Para eu dançar!



E por este ano acabaram-se os santos populares…




quinta-feira, 23 de junho de 2011

S. João

Festas de forte cariz popular têm a sua origem nas celebrações feitas pelas primitivas culturas pagãs, essencialmente agrícolas, às diversas divindades que presidiam às diferentes estações do ano, das quais dependiam as colheitas que asseguravam a sua sobrevivência. Ligadas ao Solstício de Verão e comuns a todos os povos indo-europeus e ainda aos povos semitas, eram comemoradas conforme as suas diversas tradições.
Cristianizadas mais tarde, as celebrações do Solstício de Verão foram “atribuídas” a S. João Baptista, cuja festa de nascimento que se comemora a 24 de Junho, fica situada mais ou menos a meio do período dos dez ou doze dias, em que antigamente se acreditava que o Sol parava durante o seu movimento à volta da terra, antes e depois de atingir o seu ponto mais a norte. Aliás, a palavra Solstício vem do latim sol¬+sistere (que não se mexe).
Mas nem mesmo a Igreja conseguiu apagar de todo o culto antigo, que, embora modificado pelas diversas tradições das civilizações que por cá passaram, como a visigótica e a árabe, se reflecte nas danças e cantares, feitos muitas vezes à roda de um tronco enfeitado, mas principalmente nas fogueiras acesas durante toda a noite, a noite mágica de 23 para 24 de Junho, cheia de lendas e superstições…
Nesta “noite aberta”, a água, o fogo, as ervas, principalmente as plantas aromáticas, têm poderes especiais e divinatórios relacionados sobretudo com o casamento, a saúde e a felicidade.
Aqui ficam alguns
Água:
Da meia-noite até ao amanhecer, a água dos rios e das fontes é sagrada, por isso as raparigas iam lavar-se nos rios, ou iam a uma fonte lavar a cara. Se vissem a lua reflectir-se na fonte, ficavam mais bonitas!
Água que fica ao relento em noite de S. João é incorruptível; pão que seja amassado com ela, dispensa o fermento.
Na madrugada de S. João, iam os pastores para o pé dos ribeiros e molhavam o gado com a água, para ficar bento, ou livre da tinha.
As raparigas deitam num copo de água à meia-noite, uma clara de ovo e deixam o copo ao relento; no dia seguinte, da forma que a clara tiver tomado, podem adivinhar a profissão do futuro marido.
O orvalho caído depois da meia-noite até ao nascer do sol é bento, e cura todas as enfermidades…mas também se diz que as bruxas costumam apanhá-lo para fazer dele o óleo com que se untam, a fim de poderem voar.
Fogo:
As fogueiras têm uma influência benéfica para a saúde e o poder de afugentar os malefícios, entre outras virtudes. Assim, algumas mães passavam por elas os filhos doentes para sararem.
As cinzas das fogueiras apanhadas na véspera de S. João, protegem contra várias moléstias e têm a virtude de acalmar as tempestades.
É costume saltar por cima das fogueiras e cada pessoa deve saltar três vezes. As raparigas casadoiras devem saltar com uma alcachofra na mão para que fique chamuscada, dizendo:
Em louvor de S. João
Para ver se ….nome do namorado
Me quer bem ou não.
Depois, é posta à janela e se ao outro dia estiver florida, têm o casamento garantido.
Ervas e plantas:
Quem quer saber a sua sorte mete, na noite de S. João, três favas debaixo do travesseiro da cama, uma, toda descascada, significando pobreza, outra só com metade da casca significando mediocridade, e a terceira com toda a casca, significando riqueza. Tira-se de manhã uma à sorte, e a fortuna da pessoa será segundo a que sair.
Na véspera de S. João, à noite apanha-se um molho de erva- cidreira e vai-se passear com ela. Faz-se depois um chá, que se toma, para nos livrar de feitiços.
Na noite de S. João aparecem as mouras encantadas e, nalguns sítios, aparecem em forma de cobras com grandes cabeleiras.
Quem quiser que o cabelo lhe cresça mais, corta uma madeixa e à meia-noite ata-a ao rebento de uma silva. Conforma o rebento crescer, assim crescerá o cabelo à dona, ou dono, da madeixa.
Quem encontrar um trevo de quatro folhas na noite de S. João tem a fortuna garantida. Á meia-noite dá uma flor que o diabo quer a todo o custo. Se a apanharmos antes dele, em troca, ele dá-nos os tesouros que pedirmos. Diz-se o mesmo da flor da arruda.
O Hipericão ou erva de S. João é muito procurado nesta noite. Na Idade Média era costume fazer-se grinaldas desta erva com que as pessoas se enfeitavam. Deitavam-se hastes desta planta para as fogueiras, para assegurar colheitas abundantes e protecção para o gado. Quando as fogueiras se apagavam, as grinaldas eram atiradas para os telhados para defenderam as casas dos relâmpagos, tempestades e dos espíritos malignos.
As flores desta erva têm um intenso brilho amarelo, aparecendo no Solstício de Verão, pelo que esta planta representava o Verão e os raios de Sol que afastavam o mau tempo, a escuridão e o mal. Os primeiros missionários cristãos, ao descobrirem que, na Europa, esta flor era consagrada ao deus Balder, representante dos espíritos das trevas que lutavam contra o Sol, dedicaram-na a S. João Baptista, alegando que ela brotara das gotas de sangue do mártir, e, por isso mesmo sangrava no aniversário da decapitação do santo.
Se colocarmos as folhas em contraluz, parecem perfuradas, devido às suas glândulas de óleo translúcidas, o que fez correr a versão de que tinha sido o próprio Satanás a fazer esses pequenos furos, num acesso de fúria, ao ver que o sangue de São João obstruíra, na forma do líquido vermelho comprimido, a passagem aos seus diabinhos.
Na manhã de S. João o Sol dança ao nascer.
Mas, enquanto Santo António tem em Lisboa as suas maiores festividades, as de S. João têm maior expressão no Norte do País, principalmente na cidade do Porto.
É um Santo “brejeiro” sempre pronto a ajudar os enamorados e as moças que pedem o seu auxílio, mas também é o santo protector dos casados.


S. João para ver as moças
Fez uma fonte de prata
As moças não foram lá
S. João todo se mata!


sexta-feira, 17 de junho de 2011

Os Santos Populares

Aproxima-se a data do solstício de Verão em que na noite mágica de S. João tudo pode acontecer…As lindas mouras encantadas voltam à vida, e o fogo, as ervas e a água têm poderes especiais. O Inverno é finalmente expulso e até o Sol se detém na sua corrida!
Embora o Senhor das Festas seja S. João, St. António, cuja festa se celebra a 13 de Junho, é também incluído neste rol dos Santos Populares, assim como S. Pedro, festejado a 28 do mesmo mês.
Conhecido como “Santo Casamenteiro”, as raparigas de Évora dedicavam-lhe esta canção:


Ó meu rico Santo António
Santo do meu coração,
Atendei as minhas preces
Que faço com devoção.
Fazei, Santinho, que eu goze
Do casamento os prazeres,
Que este santo sacramento
Legou Deus a nós, mulheres.
Não queirais que eu leve à cova
Rosas, palmito e capela;
Que é coisa triste no mundo
Ver morrer a uma donzela.
Não queirais que as feições lindas
Que a Natureza me deu,
Vão parar à terra fria
Sem deixar retrato seu.
Fazei-me, pois, o milagre,
Santo do meu coração,
Prometo dar-vos um manto
Bordado por minha mão.
Não penseis que há-de ser feio,
Há-de ser todo taful:
Ricas bordaduras de ouro
Sobre cetim bem azul,
Se me fazeis o milagre,
Eu vos prometo Santinho,
Fazer mais uma fogueira
De alecrim e rosmaninho,
Como ao meu primeiro filho
Hei-de chamar Antoninho.