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terça-feira, 15 de setembro de 2015

O Aniversário da Lua



O Festival da Lua, também chamado na China de Festival de Meados de Outono, é um dos principais feriados tradicionais celebrados pelo povo chinês, ocorrendo sempre no 15º dia do 8º mês lunar do calendário chinês, (normalmente em meados de setembro no calendário gregoriano), e que coincide com a Lua Cheia do equinócio de outono do calendário solar. Este ano o festival celebra-se a 27 de Setembro.
É manifestamente uma festa das colheitas que se querem boas, sendo tempo de guardar provisões para o Inverno que se aproxima, reservas alimentares e sementes. a Lua é aqui ainda o símbolo da fecundidade. A lua é de água, ela é a essência do yin: como o Sol, é habitada por um animal, que é uma lebre ou um sapo.
O culto “oficial” à Lua parece remontar à dinastia Shang (1600 – 1046 a. C.) contudo referências ao festival do Meio de Outono surgem já nos célebres Ritos de Zhou (Dinastia Zhou do Oeste) altura em que entre a nobreza e os ricos vingou o hábito de sacrificarem à Lua no 15.º dia da 8.ª Lua. Tornar-se-ia uma festa popular já na Dinastia Tang (618 – 907) mas é na dinastia seguinte, a Song que a tradição se enraíza permanecendo até aos nossos dias.
Conta-se que o Imperador Xuanzong terá feito uma visita pela mão do mestre Taoista Lo Gong Yuan, até ao “Palácio da Lua” através de uma ponte que unia a terra à lua através dos céus, ou como consta numa outra versão, através de um sonho, onde terá sido recebido com “música”, “bailarinas” e “bolo lunar”, que foi então adoptado como símbolo da celebração. O bolo lunar é sempre redondo ou quadrado, redondo por ser a forma da lua, quadrado, pelas quatro faces da Lua.


Nesse dia, uma Lua límpida e brilhante paira nas alturas da noite transparente, de onde contempla a Terra com um sorriso. Nessa Lua redonda e luminosa mora a bela e solitária deusa Chang E, a mulher do herói ou semi-deus Hou Yi, o arqueiro que derrotou os nove sóis e, por isso perdeu a sua imortalidade.
Diz a lenda, há sempre uma lenda, que havia dez sóis na terra que se substituíam saindo um a cada dia. Um dia, cansados das suas rotinas, resolveram sair todos de uma vez e o calor foi tanto que as pedras derretiam, as pessoas morriam e as plantas secavam. Por isso, o imperador, Yao, implorou ao pai dos sóis, Dijun, que os controlasse. Os sóis não deram ouvidos a seu pai e por isso ele enviou Houyi para a Terra com um arco mágico e flechas. Dijun esperava que Hou Yi apenas assustasse os sóis, mas quando ele viu a devastação causada por aqueles foi tomado por um acesso de fúria e derrubou nove deles, restando apenas o atual. Dijun por sua vez ficou furioso e baniu Hou Yi para a Terra para passar o resto de seus dias como um mortal.
Depois deter destruído os nove sóis Hou Yi conhece a bela mortal Chang'e por quem se apaixona e casam-se. Vivem felizes e o archeiro continua a ensinar a sua arte aos mais necessitados dos seus seguidores para que estes pudessem com a caça sobreviver e para se defenderem. Um dia, resolveu ir falar com a Imperatiz-mãe para saber como poderia novamente tornar-se imortal e conseguir que a sua amada também o fosse. A viagem foi muito longa e cheia de perigos, mas o nosso herói venceu todos os obstáculos e conseguiu da imperatriz o elixir da imortalidade. Se o tomasse junto com a esposa ascenderiam os dois aos céus.
Feng Meng, considerado o melhor de todos os discípulos de Hou Yi, era, no entanto, orgulhoso, invejoso e perverso. Todos os dias desejava que o seu mestre morresse, pois cobiçava ser considerado o mais exímio arqueiro do mundo. Contudo, ao saber do elixir que tornava irrealizável o seu sonho, tenta roubá-lo a Cheng'e aproveitando uma ausência do mestre. Cheng'e não querendo dividir o elixir com um homem tão perverso, toma-o e chorando amargamente, voa para a Lua, o lugar mais próximo da Terra e de onde poderia continuar a ver o seu amor.
Mas Feng Meng espera por Hou Yi arma-lhe uma emboscada, acabando por o matar com uma paulada na cabeça e esconde-se, aproveitando a escuridão, Ao saberem do crime, os habitantes da aldeia ficam consternados e partem à procura do assassino munidos de lanternas acesas, acabando por o encontrar. Amarram-no a uma árvore e matam-no, atravessando-o cada um com uma flecha.
Chang E continuou a habitar, tal como uma fada celestial, o luxuoso palácio de Guanghan feito de jade e esmeraldas, mas afastada da Terra e da companhia de Hou Yi, a sua eternidade tornou-se um mar de amargura, solidão e sofrimento.




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Contos tradicionais Chineses



O Cheiro da comida e o som do dinheiro

Certo dia, ao ver que o dono de um restaurante estava a agredir um pobre, Hocanasgar (Personagem bem conhecida pelas suas aventuras, da minoria étnica kazak) decidiu intervir.
- O que está a fazer? – perguntou ao dono do restaurante.
- Este pobre não quer pagar o que comeu.
- O que comeu ele? E quanto lhe deve? – quis saber Hocanasgar.
- Ele entrou no meu restaurante, tirou um pão do bolso, e ficou a contemplá-lo durante muito tempo. Só depois do cheiro da cozinha se infiltrar no pão é que ele começou a comer. O cheiro da minha comida não é de graça, por isso ele tem que me pagar!
- Tem toda a razão – disse Hocanasgar. E voltando-se para o pobre, perguntou: - Qual é a sua versão dos acontecimentos?
- De facto, entrei no restaurante. Queria pedir um prato, mas como são muito caros, o meu dinheiro não chega para eles. Ainda pedi algumas sobras, mas o dono do restaurante não quis dar-mas. Assim, fiquei a comer o meu pão, sentado à porta. Como se atreve ele a cobrar-me dinheiro por isso?
- Também está cheio de razão…Mas, diga-me, tem algum dinheiro por pouco que seja?
- Só tenho duas moedinhas.
- Dê-mas, que eu resolvo o assunto.
O pobre tirou o dinheiro do bolso e entregou-o a Hocanasgar. Este fez soar as moedas ao ouvido do dono do restaurante, devolvendo-as depois ao pobre, dizendo:
- Pode ir-se embora.
- Como pode deixá-lo ir sem pagar? – gritou o dono, furioso.
Então Hocanasgar explicou calmamente:
- Gosto de defender a justiça. Ele não comeu a sua comida, cheirou-a. Mas agora você também ouviu o som do dinheiro dele! Estão quites.

Fonte:
Suoying, Wang e Ana Cristina Alves – Contos da Terra do Dragão – Ed. Caminho

quinta-feira, 31 de maio de 2012

E A Culpa Foi Do Cutelo…

No tempo em que os seres humanos se alimentavam apenas de frutos, grãos e legumes, e não tinham ainda o costume de sacrificar animais aos seus deuses, vivia em Atenas um estrangeiro chamado Sópatro, habitando numa propriedade que lhe pertencia.
Ora num certo dia em que Sópatro sacrificava aos deuses, apareceu um touro que comeu as ervas e o grão que ele tinha disposto no altar. Indignado, matou o animal com um machado e, pensando depois que tinha cometido um sacrilégio, partiu para Creta.
Na sua ausência, a fome começou a grassar em Atenas e os habitantes da cidade perguntaram ao oráculo a razão para tal calamidade. A resposta foi que somente Sópatro poderia remediar o mal e encontrar o culpado…
A cidade, então, enviou mensageiros a Creta, onde o encontraram ainda deprimido pelo que fizera. Sem saber como proceder perante a questão colocada pelos enviados, pediu a Atenas que lhe concedesse a cidadania, o que lhe foi concedido.
Ao regressar, a sua primeira ideia foi compartilhar a culpa com todos os atenienses e, para tal, reuniu o povo da cidade dando-lhes instruções para que lhe trouxessem um touro igual ao que ele abatera. O animal, purificado pelas jovens atenienses, foi então morto por Sópatro com um cutelo igualmente purificado e afiado pelos outros atenienses. Depois, foi cortado em pedaços que foram distribuídos pelos presentes, de modo que todos foram culpados pela morte do touro.
Sópatro sugeriu então que se criasse um tribunal para julgar, definir e punir o culpado. Depois de muitos e longos debates, a culpa foi atribuída ao cutelo, pelo que foi condenado a ser lançado ao mar…
E a lenda diz que depois de executada a sentença, a fome cessou!


quarta-feira, 7 de março de 2012

Vamba – Historia e Lenda – IV

O Freixo de Wamba
Sobre a vara florida do Rei Wamba, há ainda uma outra versão além da que contei no primeiro post sobre este rei…
Conta a lenda, que quando os mensageiros do Conselho dos Godos descobriram Wamba a lavrar e o quiseram levar com eles, ele espetou a vara da aguilhada no chão e disse:
- Só irei convosco, se esta vara se tornar numa árvore!
Palavras não eram ditas, a vara criou raízes, cresceu, deitou ramos e folhas, tornando-se num freixo, o qual ainda podemos apreciar no percurso pedestre junto a Idanha-a-Velha /Idanha-a-Nova!
No início do século XVI, Duarte d'Armas não se esqueceu de o reproduzir ao representar o conjunto das fortalezas de Monsanto e Idanha-a-Velha/ Idanha-a-Nova.

A Sepultura de Wamba
Na igreja da freguesia de Briteiros Santa Leocádia, existia uma sepultura contígua à porta travessa da Igreja que se diz ter pertencido ao rei-abade S. Wamba, e que posteriormente foi deslocada para a frente do cemitério.
Era uso antigo para se curarem as crianças doentes, apanharem-se umas ervas do adro da igreja que se benziam na imagem de Santa Leocádia, dizendo “A bênção do Padre, do Filho e do Espírito Santo”. Molhavam-se depois na pia da água benta, misturavam-se com terra da sepultura do santo, coziam-se e com a água daí resultante, dava-se banho a toda e qualquer criança doente. E pela bênção, dava-se ao pároco, um vintém.

Santo Egídio e o Rei Wamba
Santo Egídio foi um santo católico eremita do século VI originário da Grécia que se tornou popular na região da Provença e na Escócia. A abadia onde viveu Santo Egídio, Saint-Gilles, é local de peregrinação e um dos pontos de paragem dos Caminhos de Santiago.
São poucos os dados que existem sobre a vida deste santo, supondo-se que tenha nascido por volta de 650 d. C., em Atenas.
De acordo com a Legenda Áurea, depois da morte de seus pais, decidiu tornar-se um ermitão, vivendo na pobreza e totalmente dedicado a Deus. Instalou-se em França, numa caverna de uma floresta próxima de Nimes, cuja entrada era escondida por um arbusto espinhoso. Na mais completa pobreza, alimentava-se apenas de ervas, de raízes e do leite de uma corça, que, segundo a tradição, lhe tinha sido enviada por Deus.
Certa vez, o rei Wamba foi caçar nas proximidades da caverna de Egídio e, em vez de ferir uma corça que se escondera atrás de um arbusto, a sua flecha acertou na mão do pobre ermitão, que tentava proteger o animal acuado. Descoberta assim a residência do eremita, o rei, para se desculpar, mandou-lhe o seu médico e passou a visitá-lo com frequência, presenciando vários prodígios que divulgava na Corte. Assim, a fama de santidade de Egídio ganhou vulto e ele passou a ter vários discípulos. O rei, então, mandou construir um mosteiro e uma igreja, sendo Santo Egídio o seu primeiro abade. Aí faleceu a 1 de Setembro de 720, sendo nesta data que a Igreja celebra a sua festa litúrgica. A sua sepultura depressa se tornou num local de peregrinação, estendendo-se o seu culto por todo o mundo cristão.
Mais tarde, o mosteiro foi entregue aos beneditinos.
É um dos quatorze “santos auxiliadores” do povo, sendo invocado contra a convulsão da febre, contra o medo e contra a loucura.

Fontes e imagens:
cm-vvrodao.pt
naturtejo.com
briteirossantaleocadia.pt



domingo, 4 de março de 2012

Vamba - História e Lenda – III


Vamos então ver algumas das lendas que constam sobre este rei:

O Castelo do Rei Wamba

Sobranceiras às célebres Portas de Ródão erguem-se, ainda hoje, velhas ruínas de uma antiga fortaleza que o povo diz ter sido o Castelo do Rei Wamba.
Este rei visigodo fundou o Castelo de Ródão na margem norte do rio Tejo onde vivia com a mulher e os filhos. Na margem sul, vivia um rei mouro por quem a mulher de Wamba se apaixonou e como o amor era recíproco, aproveitando um dia a ausência do marido, deixou-se raptar pelo seu amado.
Quando soube disto, Wamba, que adorava a mulher, jurou vingar-se. Disfarçando-se de mendigo, dirigiu-se ao castelo inimigo para a trazer de volta, mas precavendo-se, ordenou aos seus homens que se escondessem e só atacassem quando o ouvissem tocar a sua trompa de guerra.
Chegado lá, pediu para o levarem à rainha porque trazia um recado para ela. Quando a mulher o reconheceu, manhosa, exclamou entre hesitante e aflita:
— Estamos perdidos! Esconde-te nesta alcova porque o Mouro que foi à caça, não demorará. Quando ele chegar, mata-o para eu poder regressar contigo…
Poucos minutos passados chegou o Mouro e a rainha fazendo-lhe um sinal de aviso, perguntou-lhe:
— Mataste muita caça?
— Sim, tive um bom dia!
— Pois também eu, respondeu ela, nem imaginas o que cacei… E, abrindo a porta da alcova, mostrou-lhe o falso mendigo!
Estupefacto, mas satisfeito por ter em suas mãos a vida do seu maior adversário, o Mouro, dirigiu-se-lhe:
— O dia de hoje foi para mim de grande felicidade. Matei muita caça e tenho-te aqui à mão. Quero por isso ser generoso. Ora diz:
— Que farias tu, Wamba, se te encontrasses no meu lugar?
Com astúcia e sangue-frio este respondeu:
— Agradeço a tua generosidade e, visto que me é permitido lavrar a minha própria sentença, quero dizer-te que se os nossos lugares se trocassem, obrigar-te-ia a subires ao cimo da torre do castelo e tocares esta trompa até rebentares!
— Pois, cumpra-se, disse o Mouro. Não terás de te queixar...
E Wamba foi levado ao cimo da torre onde tocou a sua trompa com todo o vigor! Naquele toque (mal o Mouro o podia adivinhar) estava a sua perdição…
Os cavaleiros visigodos assim que ouviram o toque, e conforme o combinado, avançaram a todo o galope, apanhando os mouros desprevenidos. Após uma luta breve, mas renhida, o rei Mouro era morto e a esposa infiel conduzida para a outra margem, chorando sem parar a morte do seu apaixonado. Irritado com aquelas lágrimas, Wamba perguntou aos seus filhos:
— Meus filhos, se tivésseis esposas que adorásseis e assim procedessem, que lhes faríeis?
Tomou a palavra o mais velho:
— Conquanto me seja de muito pesar emitir opinião em assunto tão melindroso, afirmo que, se o caso comigo se desse, mandá-la-ia atar à cauda de um cavalo, que à desfilada a desfizesse em mil pedaços.
O filho do meio, respondeu:
- Por mim, adoptaria processo mais rápido. Pisá-la-ia e rachá-la-ia de meio a meio.
Restava a opinião do mais novo.
— Não costumo desobedecer às ordens de meu pai, chefe exemplar da nossa família e o fiel depositário da honra de nós todos, O momento é difícil, mas ante a nossa dignidade própria e a do nosso povo, digo que, se o caso comigo se desse, amarraria a adúltera a uma galga (mó de moinho) e deitá-la-ia por essa ribanceira, até o seu corpo se perder nas águas do rio.
Esta foi, de facto, a ideia que melhor calou no ânimo de Wamba que imediatamente a mandou executar. Presa com segurança a enorme galga, a rainha foi despenhada pela ribanceira. E rolando, rolando, afundou-se no Tejo, para mais não ser vista...
O povo de Vila Velha diz, ainda hoje, que por onde o corpo passou o mato nunca mais cresceu!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Lenda da Noite de S. Silvestre


Conta-se que há muitos, muitos anos — tantos que a nossa memória já não os consegue somar na ardósia da vida e do tempo — existia em certo local do oceano Atlântico o mais maravilhoso de todos os países do mundo: a Atlântida.
Segundo a narrativa de Platão, a Atlântida, que coubera inicialmente em partilha a Poseidon, o deus dos oceanos, foi dividida pelos dez filhos nascidos dos amores deste deus com uma mortal chamada Clito. E destes passara sucessivamente aos seus descendentes, até que a certa altura os seus reis tiveram a louca pretensão de conquistar o mundo
Diz-se mesmo que o último desses reis levou a sua arrogância a tal ponto que ousou desafiar os Céus
— Sim! Que podem os Céus contra nós?... Que pode o mundo contra nós, que somos os reis da Atlântida? Nós temos o poder dos deuses!
E conforme se diz também, nesse instante o rei escutou uma voz sobrenatural que ecoava dentro de si próprio e lhe dizia:
— Enganas-te! Não há homem algum que tenha o poder de Deus!
Espantado, intrigado, furioso, o rei da Atlântida olhou em redor de si sem nada ver
— Quem fala? Quem se atreve a erguer a voz na minha presença, sem me pedir autorização para tal?
E a mesma voz sobrenatural respondeu de pronto, pausada e severamente: — É Deus que te fala, mesquinho rei da Atlântida, homem frágil e meu servo.
Um grito de cólera saiu da garganta do rei humilhado:
— Deus? Mas qual dos deuses?
E a voz sobrenatural esclareceu, num tom ainda mais severo:
— O único Deus que existe!... O Criador da vida e da morte!
Então, o rei da Atlântida explodiu em ameaça e em jactância:
— Pois a esse tal deus que me fala, seja ele qual for, desafio-o a que se oponha aos meus planos!... Eu não tenho medo... Eu sou o rei da Atlântida, o mais poderoso império de todos os impérios!... Tenho fortuna e forças suficientes para esmagar o mundo! E para começar vou submeter e esmagar o poder de Atenas!
E a voz sobrenatural limitou-se a prevenir:
— Atreve-te, rei tolo e ambicioso... atreve-te e verás o resultado!...
Não se intimidou o rei da Atlântida. Mandou que se formassem os seus exércitos, prontos para a grande batalha.
— Se vencermos o poder de Atenas — e havemos de vencê-lo —, o mundo será nosso! Ninguém mais se atreverá a erguer-se na nossa frente!... Nem os próprios deuses ousarão tal... Portanto, guerreiros que me escutais, segui os vossos chefes, tal como os vossos chefes me seguirão, e a vitória será nossa!
Brandindo e espada refulgente nos ares, o rei da Atlântida voltou a bradar:
— A vitória será nossa!
E a multidão dos guerreiros repetiu como um eco:
— A vitória será nossa!
Assim se travou — conforme nos conta ainda Platão — a espantosa batalha entre os povos do Ocidente das Colunas de Hércules, comandados pelo rei da Atlântida, e os povos de Leste, chefiados por Atenas.
No meio da refrega, porém, surgiu como que prodigiosamente a mesma estranha voz sobrenatural, que se sobrepôs ao fragor da luta:
— A vitória será de Atenas, para que os reis da Atlântida, ingratos e indignos, sofram uma terrível lição. A Atlântida desaparecerá para sempre e o seu nome há-de ficar, pelos séculos dos séculos, como o símbolo da grandeza destruída por sua própria culpa. Esta é a minha vontade. Esta é a vontade de Deus!
E na verdade os guerreiros da Atlântida foram derrotados violentamente pelos guerreiros de Atenas. E à derrota pungente e dolorosa sucederam-se terríveis terramotos e fantásticas inundações. Num só dia e numa só noite, o que fora o esplendoroso e incomparável reino da Atlântida desapareceu por completo, engolido pelas águas do oceano. Muitíssimos anos passaram sobre esse dia...
Até que certa vez, bastantes séculos depois da morte de Jesus Cristo — o Messias que aparecera para ensinar uma nova vida aos homens —, Sua Mãe, a Virgem Maria, segundo se perpetua na tradição milenária, debruçava-se lá dos Céus sobre o oceano que se estendia a seus pés. E junto dela passou, em determinado momento, um santo ainda jovem. Vendo-a tão absorta, o Santo parou e perguntou:
— Senhora, que estais a ver com tanto interesse?...
A Senhora Mãe de Jesus ergueu o seu olhar doce.
— Ah, sois vós, Silvestre?
— Sou eu, sim, Senhora... Perdoai-me, mas vinha à vossa procura… à procura dos vossos conselhos...
A Virgem Maria olhou-o mais profundamente.
— Que vos preocupa, Silvestre?
Humildemente, ele confessou:
— Senhora, esta é a minha noite...
— Bem sei... É a última noite do ano.
Ele pareceu entusiasmar-se.
— E por isso mesmo, Senhora... É por isso mesmo que vos desejo falar.
A Senhora Mãe de Jesus fez um gesto de aquiescência.
— Pois falai!
E São Silvestre, enleadamente, timidamente, foi dizendo:
— Eu... Eu tenho pensado... enfim… acho que esta última noite do ano... a minha noite… devia significar para os homens, lá em baixo, mais alguma coisa do que tem significado até agora...
Uma interrogação muda transpareceu no rosto da Senhora dos Céus. E o Santo ajuntou, já mais à vontade:
— Pois bem, Senhora… se me permitis... julgo que esta noite poderia marcar uma fronteira entre o passado e o futuro... Ou seja, poderia servir para os homens se arrependerem dos erros cometidos e prometerem a si próprios esperança de melhores dias.
A Virgem Santíssima aprovou com um leve inclinar de cabeça.
— Acho muito boa a ideia...
E logo, entusiasmando-se mais, São Silvestre completou o seu pensamento:
— E vem a propósito, não achais, Senhora? Antes realiza-se a festa do Natal, a festa de Jesus, Vosso Filho e Nosso Senhor... Depois... bem, depois, viria a festa do Fim do Ano… a festa da minha noite, como chamada de atenção à consciência dos homens.
Foi a altura do rosto divinamente belo da Virgem se tomar de novo apreensivo.
— Dizeis bem, Silvestre!... Cada vez mais, a consciência dos homens precisa de ser vigiada.
Suspirou tristemente e sublinhou:
— Ainda há pouco, quando chegastes, estava eu a espreitar lá para baixo...
Ele suspirou também.
— Eu bem vi, Senhora... E parecíeis tão triste, tão amargurada...
Houve um breve silêncio. Depois, a Virgem Santíssima perguntou:
— Sabeis o que eu estava a observar nesse momento, Silvestre?
O Santo teve um ar de perplexidade.
— Não sei, Senhora, não...
E a Senhora, voltando a debruçar-se sobre o oceano esclareceu:
— Pois estava a relembrar o fausto e a beleza maravilhosa dessa ilha chamada Atlântida, que Deus fez afundar para castigo dos pecados sem fim dos seus habitantes e como aviso à soberba dos homens.
Dos olhos da Senhora tombaram lágrimas puras de tristeza.
— Mas, afinal, eles não se emendaram!... Silvestre, eles não se emendaram!...
Emocionado, o Santo olhou-a melhor.
— Chorais, Senhora?
— É o coração que chora nos meus olhos, Silvestre! São lágrimas por misericórdia dos homens!
Num sobressalto de júbilo, São Silvestre exclamou com voz trémula.
— Não são apenas lágrimas, Senhora... São pérolas... São autênticas pérolas que caem dos vossos olhos!...
E, nesse mesmo instante, tal como se perpetua na tradição popular, uma das lágrimas da Nossa Senhora, por vontade de Deus, deslizou lá dos Céus e foi cair sobre o próprio local onde desaparecera a maravilhosa Atlântida...
São Silvestre sentiu-se contagiado por uma alegria estranha.
— Senhora, olhai!... Olhai!... Uma das vossas lágrimas caiu no oceano...
Ela limitou-se a confirmar:
— É verdade, Silvestre... Não sei como foi...
E o Santo, como que iluminado interiormente, exclamou num êxtase:
— E que bem fica ali, no meio das águas... Uma pérola, uma pérola verdadeira, Senhora, a crescer, a tornar-se cada vez maior e mais bela... A Pérola do Atlântico!
E deste modo, tal como se enraizou na alma do bom povo madeirense, nasceu a ilha de Madeira, e daí lhe vem o sobrenome.
Diziam os antigos que noutros tempos, na noite de S. Silvestre — talvez, quem sabe, por inspiração da Nossa Senhora —, quando batiam as doze badaladas da meia-noite, erguia-se nos ares a visão surpreendente de um cortejo de maravilha, cheio de luz e de cores fantásticas e que deixava atrás de si um perfume estonteante...
No rodopio dos anos, esse cortejo mágico da meia-noite desapareceu. Mas em seu lugar os homens criaram as esplendorosas festas do fim do ano na Madeira — a já internacionalmente famosa Noite de S. Silvestre, com o seu prodigioso fogo-de-artifício, que mais não é, afinal, do que a evocação dos fascinantes sonhos de antanho...

Fonte: www.lendarium org.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Lenda da Coroa Real de Cedros


Esta lenda é uma tradição da ilha do Faial nos Açores, e passa-se no tempo da ocupação das ilhas pelas forças de Filipe II, de Espanha. Já antes, eram frequentemente assaltadas e roubadas por piratas e corsários, que também levavam homens e mulheres da terra para venderem como escravos.
Num certo dia, uma embarcação pirata comandada por um rei mouro apareceu nas costas da ilha para mais um assalto, mas como a embarcação foi avistada a tempo, as populações locais tiveram tempo de se preparar. Encontrando forte resistência, os piratas foram obrigados a fugir de forma precipitada sem conseguirem roubar nada.
Na fuga apressada, o rei mouro esqueceu-se da sua coroa que tinha posto sobre um muro de pedra enquanto combatia. A coroa era feita de prata lavrada e enfeitada em toda a volta com lindos ramos desenhados no metal luzidio e ao aperceber-se da sua falta, resolveu voltar à ilha para a recuperar.
Disfarçando-se de marinheiros comuns, procuraram-na sem resultado e apesar das perguntas que fizeram aos habitantes, ninguém sabia de nada. Para não levantarem mais suspeitas, desistiram da busca e fizeram-se novamente ao mar, para não mais regressarem…
Afinal, a coroa do rei pirata tinha sido encontrada por uma mulher da localidade dos Cedros, que ao saber que andavam à sua procura, a escondeu conforme pôde - levantando as saias, enfiou-a numa perna, como quem enfia um anel num dedo…E aí a conservou até ter a certeza que o rei mouro tinha desistido do precioso objecto.
Calculando o valor da coroa, e não desejando que os seus conterrâneos soubessem que a tinha, deixou-a ficar muito tempo na perna, que ao fim de alguns dias começou a inchar e a doer. Aflita, a mulher acabou então por confessar o sucedido, mas como a perna estava muito inchada, a população não teve outra alternativa senão cortar a coroa para a poderem retirar.
Depois de soldarem cuidadosamente a parte cortada, o objecto ficou para a freguesia dos Cedros, onde morava a referida mulher cujo nome se desconhece. Com o passar dos anos a coroa passou a ser usada pelos locais nas festas do Divino Espírito Santo.
Esta coroa tinha 13 Centímetros de altura e continha engastada uma gema de cor da qual se ignora o verdadeiro valor. Com o passar dos anos e com medo de estragar tão simbólico e rico objecto, foi feita uma imitação da primeira, que passou a ficar guardada na casa do mordomo da festa do Espírito Santo.
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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O Pequeno Herói de Haarlem


A Holanda, ou mais propriamente, Os Países Baixos, são um pequeno país europeu banhado pelo Mar do Norte, geograficamente de baixa altitude e em que uma boa parte do seu território se situa abaixo do nível do mar. Para se defenderem das constantes inundações provocadas pelo mar e pelos rios, os holandeses construíram diques, para susterem as águas, e ao mesmo tempo, conseguirem recuperar mais terras, ampliando assim o seu território.
Estes diques, símbolos da luta tenaz entre o homem e a natureza, deram origem a algumas lendas que fazem parte do folclore holandês, da qual esta foi retirada e adaptada…
…Perto da cidade de Haarlem, situada na margem do rio Spaarne e também conhecida como a cidade das túlipas, o pequeno Hans e o seu irmão Dieting apanhavam violetas junto do dique que a protegia, quando Dieting, que era o mais novo, exclamou de repente:
- Hans, anda cá ver! Não vês este buraquinho? Parece que dele saem bolas de sabão…
Hans aproximou-se do seu irmão para ver o buraquinho. Este era ainda insignificante, mas um fiozinho de água escapava-se por ali…Olhou em torno de si e não viu ninguém até aos últimos limites do horizonte. Que fazer? Lembrou-se que os homens tinham partido para a pesca e só voltariam no dia seguinte. E então teve uma ideia: aplicou o seu pequeno indicador à abertura, vedando-a, e disse ao irmão:
- Corre depressa, Dieting! Vai dizer a toda a gente que há uma abertura no dique. Eu vou tapá-la com a mão até chegar alguém.
E a criança começou a correr o mais depressa que as suas pequenas pernas lhe permitiam em direcção à aldeia.
Hans estava agora sozinho, ouvindo o gorgolejar da água que a sua mão heróica não deixava passar, sentindo a espuma das vagas que se despedaçavam contra o dique humedecer os seus cabelos.
Pareceu-lhe de repente, que a sua mão se fatigava, que estava muito rígida e ia ceder. Um grande frio subia-lhe ao longo do braço, percorria-lhe todo o corpo, inteiriçando-o…
E olhando ao longo da estrada, não via ninguém. Na sua fadiga crescente, na sua crescente ansiedade, parecia-lhe que a imensa voz do mar lhe dizia:
- Eu sou o Oceano. Ninguém pode lutar contra mim. Como queres tu, pobre criança, impedir-me de passar?
E o coração de Hans batia num grande tumulto. E os seus braços inteiriçavam-se mais e mais. E a voz do mar, ameaçadoramente, clamava:
- Hei-de passar, hei-de passar, hei-de passar!
Então o pequeno Hans, cerrando os dentes, crispou a mão com mais força vedando a abertura do dique, e no meio da sua dor, gritou ao vasto mar:
-Não. Não passarás!
Nesse momento, o pequeno herói ouviu gritos, e viu um bando de homens que corria rapidamente pela estrada abaixo, para consertar o dique. Uma hora depois, voltavam todos à cidade trazendo aos ombros o intrépido Hans.
Ainda hoje se conta em Haarlem a bela história do rapazinho, que com a sua coragem salvou a cidade onde as túlipas são tão belas…

Imagem: Internet




domingo, 22 de maio de 2011

Malfadados Amores


No parque que fica à retaguarda do que é hoje denominado por Templo da Kun Iâm, a Deusa da Misericórdia, em Macau, existem duas árvores com os troncos estranhamente enlaçados um no outro, atraindo a curiosidade dos visitantes.
Conta a lenda, que, ainda antes de o templo ser edificado, aquele sítio era um povoado chamado Móng Há, habitado por agricultores. Ora, vivia aí um lavrador, que embora não fosse rico, tinha mais bens que os outros, sendo respeitado por todos, por ser uma pessoa ponderada e cordial vivendo com moderação. Chamavam-lhe Lou Uóng (velho Uóng) e era pai de uma bonita rapariga chamada A Kâm, que estava em idade de casar. Embora tivesse vários pretendentes, Lou Uóng tinha-os recusado a todos, egoisticamente, porque se a deixasse ir embora, não teria ninguém que o ajudasse no trabalho da lavoura.
Ora acontece, que pai e filha eram ajudados nos trabalhos da monda por dois moços da lavoura, um dos quais, A Heng, era um moço simpático, muito alegre e bastante trabalhador. Sempre que podia, ajudava A Kâm aliviando-a do trabalho mais pesado, e a simpatia recíproca depressa se transformou em amor…
Ao sentir-se grávida, A Kâm muito a medo, revelou ao pai o seu estado, pedindo-lhe que a deixasse casar com A Heng. Furioso, Lou Uóng mandou chamar o rapaz, insultou-o e declarou que nunca lhe daria a filha em casamento por ele ser alguém sem eira nem beira. O melhor que ele tinha a fazer era pôr termo à vida, para não ter de ser sempre um miserável e desprezível trabalhador.
A Heng amava sinceramente a filha do lavrador e vendo que nunca a conseguiria, procurou-a para lhe dizer que tencionava suicidar-se, pois preferia morrer a ter de desistir dela. A Kâm, que também o amava, disse-lhe que o acompanharia na morte, pois talvez noutro mundo conseguissem alcançar a felicidade que aqui lhes era negada.
Assim, quando o Sol se pôs na colina findando o dia de trabalho, os dois amantes dirigiram-se para as traseiras da capela da Kun Iâm e depois de se abraçarem, enforcaram-se nos ramos de duas árvores que cresciam isoladas naquele local.
Os espíritos dos dois suicidas nunca mais se aquietaram e a partir da meia-noite, os seus vultos viam-se a passear abraçados, soltando lamentos tão aflitivos, que os moradores não conseguiam dormir…e para espanto de todos, as duas árvores onde eles se enforcaram, cresceram com grande pujança, mas com os seus troncos abraçados um ao outro como se dois seres se tratassem envolvidos em forte amplexo, e com o aspecto estranho que mantêm até hoje!
Mais tarde, quando foram ali construídas várias capelas, o superior do mosteiro, ouvindo a história daqueles amores, celebrou diversas cerimónias para libertar aquelas almas atormentadas. Só assim é que os moradores de Móng Há puderam voltar a dormir descansados e os dois vultos nunca mais foram vistos, nem ouvidos…

Lenda contada por Luís Gonzaga Gomes no seu livro – Macau Factos e Lendas.
Imagem: infoescola.com

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Porque os Leopardos têm pintas


O Leopardo era muito amigo do Fogo visitando-o todos os dias, embora este nunca fosse a sua casa. Estas visitas sucederam-se durante tanto tempo, que a mulher do Leopardo zangando-se com o marido, disse-lhe que o amigo nunca retribuía as visitas porque sabia que eles eram pobres e portanto não lhe interessava ir a casa deles.
E de cada vez que o marido saía de casa, ela dizia-lhe sempre a mesma coisa. Isto sucedeu-se também tantas vezes, que o pobre do Leopardo, já cansado das discussões com a mulher, pediu ao Fogo que lhe retribuísse a visita.
Ao princípio, o Fogo tentou escusar-se, dizendo que nunca ia a casa de ninguém porque não podia andar. Mas quando o amigo lhe perguntou se era porque eles eram pobres e lhe contou as discussões que, por causa disso, tinha com a mulher, insistindo muito na visita, o Fogo acabou por concordar, com uma condição: para ele poder chegar a casa do Leopardo, era necessário haver uma estrada de folhas secas que fosse desde a sua casa até à do amigo.
Muito contente, o Leopardo contou depois a conversa à mulher, que logo se pôs a apanhar folhas secas para fazerem o caminho.
Quando a passagem ficou terminada, o Leopardo combinou com o amigo a visita à sua casa no dia seguinte.
Estavam marido e mulher à espera do visitante quando sentiram um vento forte acompanhado de um ruído de coisas a estalar no exterior. Correram a ver o que se passava e viram o Fogo à sua porta. Este estendeu os dedos em chamas para cumprimentar o Leopardo, mas este e a mulher conseguiram fugir saltando por uma janela.
A casa ficou toda queimada e desde então, os Leopardos têm manchas pretas como lembrança dos sítios onde os dedos do Fogo tocaram no seu antepassado, fugindo assim que o sentem ao longe.

domingo, 8 de maio de 2011

Um Conto taoista

O Domar da Harpa

Havia em tempos idos, na Ravina de Lungmen, uma árvore kiri (Pandownia), verdadeira rainha da floresta. Erguia a cabeça para conversar com as estrelas, as suas raízes desciam fundas no solo, emaranhando-se nas do dragão prateado que dormia por baixo. E aconteceu que um mago poderoso fez desta árvore uma harpa maravilhosa, cujo espírito obstinado havia de ser domado apenas pelo maior dos músicos. Durante muito tempo o instrumento foi estimado pelo imperador da China, mas foram vãos todos os esforços dos que à vez tentaram extrair melodias daquelas cordas. Em resposta às suas melhores tentativas soltavam-se da harpa apenas notas roufenhas de desprezo, em desarmonia com as canções que eles gostariam de cantar.

A harpa recusava-se a reconhecer um mestre.
Por fim, chegou Peiwoh, o príncipe dos harpistas. Com mão meiga acariciou a harpa, como quem tentasse acalmar um cavalo obstinado, e tocou suavemente as suas cordas. Cantou a natureza e as estações, montanhas altaneiras e águas correntes, e todas as memórias da árvore despertaram! O doce sopro da primavera tornou a brincar entre os seus ramos. A s jovens cataratas dançando pela ravina, riram-se para as flores em botão. Seguidamente, escutaram-se as vozes sonhadoras do verão, com a sua miríade de insectos, o gentil tamborilar da chuva, o grito do cuco.

Escutai! Ruge um tigre – o vale volta a responder. É Outono; na noite deserta, afiada como uma espada, brilha a lua sobre a erva molhada de geada. Agora reina o inverno, e pelo ar cheio de neve redemoinham flocos de cisnes, e pedras de granizo ruidosas fustigam os troncos numa delícia feroz.
Então Peiwoh mudou de tom e cantou o amor. A floresta balançou como um mancebo ardente embrenhado em pensamentos. Lá no alto, qual donzela altiva, correu uma nuvem reluzente e linda; passageiras apenas, longas sombras rastejaram pelo solo, negras como o desespero.
De novo o tom mudou; Peiwoh cantou a guerra, o embater do aço e os corcéis em tropel. E na harpa cresceu a tempestade de Lungmen, o dragão cavalgando o corisco, a avalanche tempestuosa embatendo pelos montes.
Em êxtase, o monarca celeste questionou Peiwoh pelo segredo desta vitória.
“Senhor” replicou ele, “os outros falharam por que apenas se cantaram a si próprios. Eu deixei que a harpa escolhesse o seu tema, e não soube verdadeiramente se a harpa era Peiwoh, ou se Peiwoh foi a harpa”.

Okakura, Kakuzo – O Livro do chá



quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Desacato de Santa Engrácia


A Maldição de Simon Solis

O Desacato de Santa Engrácia encontra fundamento nos relatos históricos da paróquia de Santa Engrácia, em cujos anais ficou registado um incidente ocorrido na noite de 15 de Janeiro do ano de 1630.
“Lisboa preparava-se em grandes festejos para celebrar o nascimento do príncipe herdeiro que receberia o nome de Baltazar Carlos e que era filho de Filipe IV de Espanha e III de Portugal. Foi nesse ambiente que se propagava a notícia do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia, que ficava perto do Convento de Santa Clara.
Incrível a comoção que causou este atroz sacrilégio, lançando-se logo pregões que nenhuma pessoa, sem nova ordem, saísse de sua casa e sem dilação decorreram por toda a cidade os ministros da justiça inquirindo com exactas diligências, que pessoas haviam saído fora na noite precedente e em que haviam estado. Achou-se que um homem ordinário, chamado Simão Pires Solis, havia estado fora e sendo perguntado onde, não respondeu a propósito, antes com grande turbação; ajuntaram-se outros indícios que caíram sobre ser homem turbulento e cristão-novo e por eles foi condenado a ser queimado vivo, cortando-lhe primeiro as mãos. A muitos pareceu acelerada e rigorosa esta sentença visto que não havia prova concludente, nem confissão do reo, mas, todavia, se executou na forma sobredita.”
Simão Solis nunca confessou o crime de que o acusavam, embora tivesse sido com toda a certeza, sujeito a tratos durante o interrogatório; antes proclamou sempre a sua inocência, sem no entanto revelar o que tinha feito naquela noite.
Soube-se depois, que Simão nessa noite rondava o Convento de Santa Clara para namorar uma religiosa chamada Violante, encerrada no convento pelo pai fidalgo, que não aceitava aquele amor. Para a não comprometer, o seu enamorado preferiu aceitar uma morte horrível.
Efectivamente, a 3 de Fevereiro de 1631, Simão foi conduzido em procissão ao Campo de Santa Clara, onde no próprio lugar do crime lhe foram decepadas ambas as mãos, sendo depois queimado vivo.
Como quem conta um conto, acrescenta um ponto, logo a imaginação popular fortemente emocionada tanto pelo roubo como pela execução, passou a misturar ficção e realidade, e assim diz-se que a caminho do suplício, o jovem Simão gritou: “Tão certo é eu estar inocente que as obras de Santa Engrácia nunca mais terminarão”.
Anos mais tarde, a freira Violante foi chamada a assistir aos últimos momentos de um ladrão que tinha pedido a sua presença. Revelou-lhe que tinha sido ele a roubar as relíquias e sabendo da relação secreta dos jovens, tinha incriminado Simão. Pedia-lhe pois que o perdoasse para poder morrer em paz.
Por maldição ou por uma série de azares, o Panteão de Santa Engrácia demorou cerca de 334 anos para ser concluído…

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Jovem Esquartejada – II




…Quando um jovem, saindo da multidão, avançou para o vizir e assim lhe falou:
“Ó refúgio dos pobres, tu serás salvo na tua aflição, porque fui eu quem matou a mulher encontrada no cofre. Que me crucifiquem, pois, e que a justiça siga o seu curso”.
E ao califa, contou a sua história: “ Sabei senhor, que esta mulher era a minha esposa e mãe dos meus filhos. Amava-me e servia-me com dedicação. Um dia, caiu doente e pediu-me maçãs para comer (fruto muito raro em Bagdade). Levei-lhe 3 destes frutos e, encontrava-me na minha loja a atender os fregueses, quando vi passar um escravo negro atirando uma das maçãs ao ar. Perguntei-lhe onde a tinha arranjado e ele respondeu-me a rir: “Deu-ma a minha senhora. Havia muito tempo que a não via e quando voltei a encontrá-la, estava na cama doente e tinha 3 maçãs junto dela. E disse-me: O cornudo do meu marido teve muito trabalho para me arranjar estas maçãs. Comi e bebi com ela e, trouxe uma das três maçãs”.
Quando ouvi isto, ó comendador dos crentes, vi tudo escuro à minha frente. Fechei a loja e corri a casa, cego de cólera. Entrei no quarto, e, quando vi apenas duas maçãs, perguntei a minha mulher pela terceira. Cansada, ela respondeu que não sabia. Isto foi para mim a prova de que o escravo dissera a verdade. Agarrei numa faca, coloquei-me atrás dela e cortei-lhe a garganta. Depois cortei o seu corpo em pedaços, que guardei num cofre, atirando-o ao Tigre. Quando cheguei a casa, encontrei o meu filho mais velho a chorar.
- Porque choras tu rapaz? Perguntei-lhe
- Porque tirei uma das maçãs que a mãe tinha ao pé dela e levei-a para a rua para brincar com os meus irmãos. Então apareceu um escravo negro que ma tirou, perguntando-me onde a tinha arranjado. Respondi que o meu pai tinha tido muito trabalho para arranjar três maças para a minha mãe que estava doente, e pedi-lhe que ma devolvesse, mas ele empurrou-me e fugiu… Como tinha medo que a mãe me ralhasse, só agora voltei para casa.
Quando acabei de ouvir o meu filho, vi que aquele vil escravo tinha caluniado ignobilmente a minha mulher e que eu a tinha morto injustamente. Há quatro dias que a choro dia e noite, peço-te que me mandes executar imediatamente, porque não lhe quero sobreviver”.
Por Alá! – exclamou o califa – Que este jovem seja perdoado e encontrem-me esse maldito escravo…
Voltando-se para o vizir, deu-lhe novamente três dias para o encontrar, senão seria ele a morrer.
O pobre Giafar pensava com os seus botões: “Já por duas vezes fui ameaçado de morte – tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia quebra!”.
Na manhã do quarto dia, o vizir preparou-se para morrer; fez testamento e despediu-se da família. Ao abraçar a mais nova das suas filhas, sentiu qualquer coisa redonda na algibeira, e perguntou-lhe: “Filhinha, que tens aqui?” “Ó pai, é uma maçã que me deu há quatro dias o nosso escravo Rihan” respondeu a garota.
Este foi imediatamente agarrado e interrogado, confessando que roubara a maçã a uma criança, numa ruela. Giafar não cabia em si de espanto ao ver surgirem todas estas complicações que haviam causado a morte da jovem, por culpa de um escravo seu. Depois regozijou-se por ele próprio ter escapado de uma morte certa e recitou estes versos:
“Se os teus males são por culpa do teu escravo, porque não pensas em desembaraçar-te dele?
Não sabes que os escravos pululam, mas que a tua alma é apenas uma e não pode ser substituída?”
Mas reconsiderando, levou o escravo consigo á presença do califa, a quem contou a história.
E Harun ficou tão maravilhado, que a mandou registar nos anais, para servir de lição aos vindouros. Deu ao jovem viúvo uma das suas escravas e, quanto ao escravo, a pedido do vizir acabou por lhe perdoar o seu acto insensato…
Fontes: adaptação de um conto de “O Livro das Mil e Uma Noites”

domingo, 30 de janeiro de 2011

Contos árabes - II


História da Jovem Esquartejada - I

Harun-al-Raschid (aquele que segue um caminho recto), o célebre califa de Bagdade, tinha o costume de deambular pelas ruas da cidade acompanhado pelo seu fiel vizir, Giafar Al-Barmaki, para conhecer as necessidades dos seus súbditos e melhor poder administrar a justiça.
Ora numa destas noites, passando eles por uma rua miserável, encontraram um velho pescador, que lamentava tristemente a sua sorte:
“Na verdade, que pode ser mais desolador do que o pobre, o estado do pobre, o pão do pobre e a sua vida?
Se é Verão, esgota as forças; se é Inverno, só cinzas tem para se aquecer.
Se se detém, para o escorraçar os cães se precipitam. É um miserável ser, objecto de ofensas e de escárnio. Oh! Quem há por aí que mais miserável seja?
Se não for ele a gritar a sua queixa e a mostrar a sua miséria, quem a lastimará?
Oh! Se é esta a vida do pobre, quem me dera morrer!”.
Quando lhe perguntaram a causa dos seus lamentos, o velho respondeu que tinha trabalhado todo o dia, mas como nada tinha conseguido pescar, não tinha com que sustentar a família. Então o califa disse-lhe para voltar a deitar as redes, que o que quer que nelas viesse, ele lho compraria por cem moedas de ouro.
Satisfeito, o pescador lançou de novo as redes ao rio e quando as puxou encontrou nelas um pesado cofre selado. O califa mandou abrir o cofre e, lá dentro, encontrava-se o corpo de uma linda adolescente, morta e cortada em pedaços. Indignado, Harun-al-Raschid gritou para o seu vizir:
“Que desgraça! Malvado vizir, será necessário que, no meu império, as pessoas sejam assassinadas e lançadas ao rio para que, no dia do Juízo, eu pague por estes factos? Por Alá! esta mulher será vingada e o seu assassino sofrerá a morte mais cruel!”. E acrescentou: “Mandar-te-ei crucificar á porta do meu palácio, a ti e a quarenta membros da tua família, se não me trouxeres o assassino desta mulher para que lhe seja aplicado o seu justo castigo”.
Giafar pediu três dias de prazo para o cumprimento desta missão, mas, como não conseguisse encontrar o criminoso, ao quarto dia apresentou-se ao califa, que mandou apregoar a sua morte por toda a cidade.
Já se encontravam junto ao patíbulo, aguardando o carrasco o sinal do califa para proceder à execução…

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A Lenda das Rosas Vermelhas



Diz uma lenda árabe que, em tempos, todas as rosas eram brancas…Uma noite de Primavera, sob uma Lua Minguante, um rouxinol pousou sobre uma esbelta rosa de uma brancura imaculada e ficou imediatamente apaixonado. Até esse dia, nunca se ouvira um rouxinol cantar, viviam toda a sua vida em silêncio, mas o amor deste por aquela rosa tão especial, era de tal maneira forte, que uma canção de uma beleza espantosa se formou na sua garganta e ele abriu as asas em torno da flor, num abraço apaixonado. Apertou-a com tal paixão, que os espinhos dela o feriram profundamente.
Mesmo assim, o rouxinol não afrouxou o seu amplexo, continuando o seu canto de amor, cheio de maravilhosos trinados, até que, já exangue, o pobre apaixonado tombou sem vida. O sangue que lhe corria das feridas caiu sobre as pétalas brancas da rosa, manchando-as.
E desde então, há rosas que nascem vermelhas… e na Primavera, pela noite dentro, ouvem-se os trinados dos rouxinóis cantando as suas canções de amor!

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Um Conto de Natal


À roda da lareira, aquecidos pelo fogo do “canhoto” que ardia alegremente, a neta perguntou à doce velhinha que, sentada no “escano” aquecia as mãos ao lume:
-Avozinha, quando eras menina, como nós, queimavam-se “canhotos” assim tão grandes?
-Assim grandes e maiores. Ainda me lembro…E o meu pai contava-nos a história do “canhoto”.
-Conta, avozinha, conta lá…
A restante garotada largou nozes e pinhões, juntando-se à volta da avó para ouvirem a história:
-“Quando Jesus, o Deus Menino, nasceu numa noite escura e fria, já a neve branqueava o largo campo de Belém. Os pastores, alertados pelo Anjo, ao chegaram à gruta desabrigada que lhe servia de casa, viram que a Virgem Maria tremia de frio, porque o seu manto velho e puído agasalhava Jesus. Condoído, um dos pastores correu a juntar uns paus secos e restos de lenha, fazendo com eles uma fogueira consoladora que depressa alumiou e aqueceu os que ali estavam. E juntando-se em redor do Menino, os pastores, acompanhados pelos Anjos que tocavam uma música divina cantaram “Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa-vontade”.
Depois de acomodarem os rebanhos, reuniram-se, e para adormecerem o Deus Menino, cantaram-lhe baixinho:
Oh meu Menino Jesus
Oh meu Menino adorado,
Aqui tendes a visita
Dos pobres pastores de gado.

Ao verem que mesmo com o calor da fogueira, Nossa Senhora ainda tinha frio, um deles tirou vinho da sua cabaça e aqueceu-o no borralho, outro sacou do surrão um favo de mel, louro e cheiroso, que foi misturado ao vinho e dado de beber à Mãe do Redentor.
Assim, através do leite materno, Jesus saboreou, ao nascer, o saboroso vinho da Terra da Promissão e o doce mel das colmeias do Hebron.
E desta maneira nasceram dois costumes de fortes raízes tradicionais, que ainda hoje se mantêm: o fogo alimentado à lareira durante dias pelo “canhoto”, o pedaço de tronco de árvore velha, carcomido pelo tempo, e o confortador vinho quente, que o mel adoça e perfuma, bebido na santa Noite de Natal”.
- Meninos, para a mesa! Chama a mãe.
E alegres como passarinhos, os garotos debandaram…
Muitos séculos passaram, mas a recordação da fogueira acesa para aquecer a Mãe do Senhor, continua! E se a alegre revoada dos Anjos cantou e bailou em Belém à volta das labaredas que aqueciam o ambiente da desmantelada estrebaria, são agora as Almas, que também vêm de revoada a matar saudades dos que lhe são queridos e gozar do agradável calor do lume que, pela noite velha arde mansamente! É o Lume das Almas!
-Alminhas santas! – reza a velhinha, agora só, no canto da preguiceira. – Vindes friinhas das Alturas de Deus! Quentai-vos, está tanta neve a cair! Quentai-vos ao lume do Senhor e fazei-me companhia.
Pela sua enfraquecida memória vêm à recordação as loas que os velhinhos sabiam:

Alminhas benditas chegai-vos
Ao lume santo do lar,
Rogai a Deus que nos guarde
À vossa beira o lugar.

E embalada pelo calor do lume, a boa avó adormeceu…


Fontes: Natal, do Minho ao Algarve Açores e Madeira – Planeta Editora
Conto adaptado do texto “O Natal Minhoto”.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Suave Milagre

Nesse tempo Jesus ainda se não afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do lago de Tiberíade – mas a nova dos seus milagres penetrara já até Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar.
Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do Reino de Deus, curando todos os males humanos. E, enquanto descansava, sentado à beira da Fonte dos Vergéis, contou ainda que esse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo de um decurião romano, só com estender sobre ele a sombra das suas mãos; e que noutra manhã, atravessando numa barca para a terra dos Gerasenos, onde começava a colheita do bálsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem considerável e douto que comentava os livros na sinagoga.
Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento!
Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse Rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão. A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce Rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce Rabi! quantos O desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia, como o sol que até por qualquer velho muro se estende e se goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, só aqueles ditosos que o seu desejo escolhia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, O chamassem com promessas a Enganim; Sétimo, tão soberano, destacara os seus soldados até à costa do mar, para que buscassem Jesus, O conduzissem, por seu mando a Cesareia. Errando esmolando por tantas estradas, ele topara os servos de Obed, depois os legionários de Sétimo. E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.
A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse Rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:
– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do Rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Corazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que O encontrasse, como convenceria eu o Rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?
A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
– Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe, em soluços:
– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes O encontram. O Céu O trouxe, o Céu O levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
– Mãe, eu queria ver Jesus…
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
– Aqui estou.

Conto de Eça de Queiroz
Adaptação

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Contos Árabes


O Banho de Minchabe
Disseram a alguém quando estava para morrer:
- Diz, não há outro Deus senão Alá
Mas ele pôs-se a dizer:
-É este o caminho para o banho de Minchabe?
Esta frase tem a sua história. Estava um homem parado diante da sua própria casa cuja porta se assemelhava à de um banho. Passou junto dele uma donzela muito formosa que ia dizendo:
- É este o caminho para o banho de Minchabe?
E o homem disse:
- Este é o banho de Minchabe – e indicou-lhe a sua própria casa.
A donzela entrou na casa e ele entrou atrás dela. Mas mal se viu só com ele dentro de uma casa que não era um banho, compreendeu que a enganara traiçoeiramente. Dando-lhe mostras exteriores de alegria e contentamento por estar junto dele na solidão daquela casa, disse-lhe:
- Conviria que tivéssemos aqui connosco alguma coisa de comer e de beber para passar o tempo agradável e tranquilamente.
Ele respondeu:
- Agora mesmo te vou trazer quanto queiras e te apeteça. – E saiu deixando-a em casa sem a encerrar, livre como estava. E tomando o que julgou conveniente para ambos, regressou, e entrou na casa, e viu que a donzela tinha fugido. E não achando rasto dela, o homem enlouqueceu do amor que por ela sentia. Pensando nela constantemente e dominado pela tristeza e pela impaciência, pôs-se a caminhar pelas ruas e as praças dizendo:
- Ah que se eu encontrasse uma mulher que, tendo-se extraviado, perguntava: é este o caminho para o banho de Minchabe?
Passados meses passava numa rua e ia recitando este mesmo verso, segundo o seu costume, quando de uma janela, eis que uma donzela lhe respondeu dizendo:
- E porque não puseste um amuleto na casa quando a tinhas segura ou um ferrolho na porta para que ta conservasse?
Aumentou com isto a sua excitação e a paixão tornou-se mais intensa. E assim continuou até que por fim lhe aconteceu o que já se disse.
Livre-nos Deus das provas e das tentações.
Abú Mohâmed Abde Alhaque
Natural de Sevilha, viveu de 1116 a 1185. O banho de Minchabe constitui uma versão do conto oriental Os Banhos de Zarieb.
Conto retirado do livro Portugal na Espanha Árabe, vol. 1 de António Borges Coelho, 2ªedição, ed. Caminho SA – 1989

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Os Raminhos de S. João



Há muito, muito tempo, em terras do concelho de Oleiros, existia um par de namorados que amando-se ternamente pretendiam casar. Mas um jovem cavaleiro desconhecido, há cerca de um mês que rondava a porta de Luzia, assim se chamava a moça, com falinhas mansas e o povo já murmurava à sua passagem…
Assegurando ao noivo que o amava e era com ele que se queria casar, Luzia confessou-lhe que embora não gostasse do cavaleiro este exercia sobre ela um poder tão forte que chegava a infundir-lhe um certo terror. Irritado, José exigiu-lhe que se decidisse depressa ou romperia o noivado.
Entretanto, chegara a véspera de S. João e Luzia, desesperada, abandona os folguedos e corre à capela do Santo pedindo-lhe ajuda. Num murmúrio, este diz-lhe para fazer uma cruz de flores do campo e que a ponha à porta de casa.
De manhã, chega o cavaleiro e de mau humor diz-lhe que quer falar com ela, mas desta vez à janela, e que tire as flores da porta. Luzia recusa, discutem e com um estoiro, cavalo e cavaleiro desaparecem para sempre.
Livre do demónio que a perseguia, Luzia corre à igreja a agradecer a intervenção divina e nessa noite, nas festas, alegre e cantando ao desafio ouve o seu José responder:

Alfazema e rosmaninho
Numa cruz teu mal levou.
Foi S. João com carinho,
Que de novo nos juntou


E assim nasceu o costume dos raminhos de S. João…

Fonte: Moutinho, Viale – Lendas de Portugal, Diário de Notícias