Mostrar mensagens com a etiqueta Semana Santa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Semana Santa. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de abril de 2015

PÁSCOA 2015


Domingo de Ressurreição

Páscoa ou Domingo da Ressurreição é uma festividade religiosa que celebra a ressurreição de Jesus ocorrida três dias depois da sua crucificação no Calvário, conforme o relato do Novo Testamento. É a principal celebração do ano litúrgico cristão e também a mais antiga e importante festa cristã. A data da Páscoa determina todas as demais datas das festas móveis cristãs, exceto as relacionadas ao Advento. O domingo de Páscoa marca o ápice da Paixão de Cristo e é precedido pela Quaresma, um período de quarenta dias de jejum, orações e penitências e seguido por um período de cinquenta dias chamado Época da Páscoa que se estende até o Domingo de Pentecostes.
O termo "Páscoa" que significa passagem deriva, através do latim Pascha e do grego bíblico Πάσχα Paskha, do hebraico פֶּסַח (Pesaḥ ou Pesach), a Páscoa judaica.
É também uma festa móvel, o que significa que sua data não é fixa em relação ao calendário civil. O Primeiro Concílio de Niceia (325) estabeleceu a data da Páscoa como sendo o primeiro domingo depois da lua cheia após o início do equinócio vernal (a chamada lua cheia pascal). Do ponto de vista eclesiástico, o equinócio vernal acontece em 21 de março (embora ocorra no dia 20 de março na maioria dos anos do ponto de vista astronómico) e a "lua cheia" não ocorre necessariamente na data correta astronómica. Por isso, a data da Páscoa varia entre 22 de março e 25 de abril (inclusive). Os cristãos orientais baseiam seus cálculos no calendário juliano, cuja data de 21 de março corresponde, no século XXI, ao dia 3 de abril no calendário gregoriano utilizado no ocidente. Por conseguinte, a Páscoa no oriente varia entre 4 de abril e 8 de maio inclusive.
A Páscoa já era comemorada antes da época de Jesus Cristo. Tratava-se da comemoração do povo judeu por terem sido libertados da escravidão no Egito, que durou cerca de 400 anos. Essa libertação coincidiu com a Primavera, que ocorria no mês hebraico (nissan) que corresponde mais ou menos aos últimos dias de Março e meados de Abril, quando na bacia do Mediterrâneo começava a Primavera.
Os costumes pascais variam bastante entre os cristãos do mundo inteiro e incluem missas matinais, a troca do cumprimento pascal e de ovos de Páscoa, que eram, originalmente, um símbolo do túmulo vazio. Muitos outros costumes passaram a ser associados à Páscoa e são observados por cristãos e não-cristãos, como a caça aos ovos, o coelho da Páscoa e a Parada da Páscoa. Há também uma grande quantidade de pratos típicos ligados à Pascoa e que variam de região para região.
A produção de imagens ancoradas na temática hierática e, sobretudo, na emblemática figura do Cristo, remonta às representações artísticas da Alta Idade Média, documentadas a partir do século III. No período paleocristão, a concepção iconográfica de Jesus encontra-se representada quase que exclusivamente na figura do Cristo como o “Bom Pastor”. O enriquecimento da cultura iconográfica cristã após a promulgação do Édito de Milão permitiu a ampliação dos ciclos narrativos.
Na Baixa Idade Média, a predominância da figura de Cristo como “bom pastor” foi sendo progressivamente substituída pela do “cordeiro em sacrifício”, abrindo espaço para as representações do episódio da ressurreição. A fonte primária do tema é o Evangelho de João (capítulos 20 e 21), em que se narra de forma concisa o fenómeno da ressurreição e da aparição de Jesus a Maria Madalena.
A cena do Cristo ressuscitado, ostentando o estandarte da ressurreição, e elevando-se sobre o sarcófago na presença dos soldados – alternativamente retratados inconscientes, fascinados ou espantados diante do fenômeno que observam –, tornou-se relativamente frequente na cultura pictórica do Renascimento. Artistas como Perugino e Piero della Francesca dedicaram-se ao tema, que, ademais, encontra ressonâncias para além das fronteiras italianas, nomeadamente na Alemanha, em obras de Matthias Grünewald e Albrecht Altdorfer.



A Ressurreição de Cristo – Piero della Francesca

A Ressurreição é uma pintura do grande mestre renascentista italiano Piero della Francesca, terminada por volta de 1460. Aldous Huxley referiu-se a ela como ‘a pintura mais bela do mundo’. Pode ser vista no Museo Civico de Sansepolcro (Toscânia), cidade natal do artista. O tema da imagem faz alusão ao nome da cidade (que significa "Santo Sepulcro"), derivada da presença de duas relíquias do Santo Sepulcro, realizado por dois peregrinos no século IX. Cristo está também presente no brasão da cidade.
Jesus está no centro da composição em forma piramidal, retratado no momento de sua ressurreição, como sugerido pela posição do pé no parapeito. A Sua figura, retratada com uma fixidez icónica e abstracta (e descrita por Aldous Huxley como "atlético"), paira sobre quatro soldados dormindo, o que representa a diferença entre o humano e o divino (ou a morte, derrotada pela luz de Cristo). A paisagem, imersa na luz do amanhecer, também tem um valor simbólico: o contraste entre as árvores florescendo na direita e os descalços na esquerda alude para a renovação dos homens através da luz da ressurreição.
Segundo a tradição, o soldado dormindo na armadura esverdeada à direita de Cristo é um auto-retrato de Piero. O contacto entre a sua cabeça e a haste da bandeira Guelfo transportada por Cristo é suposto representar o contacto do artista com a divindade. Outra curiosidade é que aparentemente o soldado com o escudo não tem pernas
Sansepolcro escapou ao fogo de artilharia durante a 2ª Guerra Mundial, porque Anthony Clarke, o capitão britânico encarregado da tarefa, havia lido o artigo já mencionado, de Aldous Huxley, sobre esta obra. O capitão nunca tinha visto a pintura, mas no último momento (os bombardeamentos já tinha começado) lembrou-se onde tinha ouvido falar de Sansepolcro e ordenou aos seus homens para parar. Uma mensagem recebida mais tarde informou que os alemães já se tinham retirado da área - o bombardeamento não foi necessário. A cidade, juntamente com o seu famoso quadro, sobreviveu e Clarke entrou na cidade à procura da pintura encontrando-a intacta. Saudado como um herói local tem em Sansepolcro uma rua com o seu nome.

Fontes e Imagem:www.wikipedia.org

Para todos os votos de uma Páscoa Feliz!




quinta-feira, 2 de abril de 2015

A ÚLTIMA CEIA

Última Ceia – Ícone de Teófanes, o Cretense
Enquanto comiam, tomou um pão e, depois de pronunciar a benção, partiu-o e entregou-o aos discípulos, dizendo: - Tomai, isto é o Meu corpo. - Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: - Isto é o Meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos. Em verdade vos digo: Não beberei do produto da videira até àquele dia em que o hei-de beber de novo no reino de Deus”.Marcos (14,22-25).
A Última Ceia ou a Santa Ceia, é o nome dado à última refeição que, de acordo com os cristãos, Jesus tomou com os seus apóstolos em Jerusalém antes da sua crucificação.
O relato mais antigo provém do Evangelho de Marcos, que foi produzido por volta do ano 70 d.C., seguido do de Mateus, por volta dos anos 70 a 90 d.C., Lucas em 90 d.C., e, por fim, o de João, escrito entre os anos 100 e 110 d.C. Além disso, é também mencionada na Epístola de S. Paulo aos Coríntios (I Coríntios 11,23, 26-3), e é comemorada na chamada Quinta-Feira Santa.
Em Marcos (14,12-25), o relato da Ultima Ceia dá-se no primeiro dia dos Ázimos, numa “sala arrumada com almofadas”, onde, durante a refeição, Jesus anuncia que um de seus discípulos o irá trair.
O Evangelho de Mateus (26,17-29) ilustra o cenário de uma forma um pouco diferente, pois não há menção sobre o lugar em que decorre a Santa Ceia. O anúncio feito por Jesus de sua iminente traição segue como descrito em Marcos. Apenas há o detalhe adicional de que Judas pergunta a Jesus se será ele o traidor, o que confere uma maior dramatismo à cena. A ceia termina com o ritual do pão e do vinho, embora com algumas diferenças da versão feita por Marcos.
No Evangelho de Lucas (22,7-23), diferentemente dos de Marcos e Mateus, encontramos a informação de que a traição a Jesus teria ocorrido porque “Satanás entrou em Judas”. Outra diferença está na menção de que os discípulos foram enviados por Jesus à casa em que ocorreu a última ceia: João e Pedro (em Marcos, vemos apenas Jesus ordenando dois de seus discípulos que fossem a uma casa; e em Mateus, a dois discípulos se apresentam para procurar um lugar para a ceia). Aqui, tal como em Marcos, já há detalhes sobre a casa e o lugar em que Jesus e seus discípulos realizaram a ceia.
O acto é encerrado com as palavras rituais que são similares àquelas vistas em Mateus, com o diferencial de que Lucas deixa claro que o ritual do pão e do vinho deve ser repetido até que o reino de Deus seja instaurado. Essa mudança é significativa quando posta em comparação com os dois evangelhos anteriores, já que tanto em Marcos quanto em Mateus, Jesus não deixa claro se o reino foi ou não instituído. O que o Nazareno diz é apenas que ele e seus discípulos beberão um novo vinho no reino de Deus.

Jesus lavando os pés dos discípulos – Mosaico do Mosteiro de Osias Lucas, na Beócia
No evangelho de João (13,1-30) não temos a Última Ceia, mas a cena do lava-pés aos discípulos em que Jesus lhes dá um novo mandamento: "Amai os outros como eu vos amei" e chamando os apóstolos que seguiam seus ensinamentos de "amigos e não servos". Apesar disso, é possível traçar paralelos com o material sinóptico (como são chamados os textos de Mateus, Marcos e Lucas, por poderem ser lidos em forma justaposta). Essa substituição da ceia pelo lava-pés é um dado significativo, ao sinalizar que, no século II d.C. (considerando que o evangelho de João foi escrito por volta do ano 110), não havia ainda consenso entre os primeiros cristãos sobre os eventos da última semana de vida de Jesus. Tanto o pão e o vinho como a água eram elementos empregados pelas comunidades paleocristãs (seguidores de Jesus, até o século IV, quando se institucionaliza a religião cristã) para manterem uma conexão espiritual com seu mestre
A Última Ceia, sendo um dos temas mais populares da arte cristã, foi objecto de múltiplos estudos e interpretações artísticas ao longo dos séculos.
As suas primeiras representações remontam ao cristianismo primitivo e podem ser vistas nas Catacumbas de Roma. Artistas bizantinos frequentemente pintavam os apóstolos recebendo a comunhão ao invés de figuras reclinadas ceando. Na época do Renascimento, tornou-se um tópico favorito da arte italiana.
Há três grandes temas nas representações artísticas da Última Ceia. O primeiro é a dramática e dinâmica cena em Jesus anuncia que será traído. O segundo é o momento da instituição da Eucaristia, e o terceiro é o Discurso do Adeus, no qual Judas Iscariotes já não se encontra presente, mas onde se sente a tristeza pela eminente partida do Senhor.

Discurso do Adeus, por Duccio
Talvez a mais conhecida destas obras seja a de Leonardo da Vinci, pintada em 1497 numa das paredes do refeitório dos monges do Convento de Santa Maria Delle Grazie em Milão, e onde pode ser admirada, apesar deste mosteiro ter sido bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial.
Pela primeira vez as figuras não apresentam as auréolas de santidade, na mesa há vários alimentos, pão, laranjas, peixe, vinho, sal e água, mas não se vê carne e também não existe nenhum cálice (o Santo Graal) em frente a Jesus, mas apenas copos de vidro.
Desde que a pintura de Leonardo da Vinci se tornou famosa, houve estudos sobre as técnicas ali usadas, sobre as tintas e sobre a complexa interacção entre Jesus e os discípulos evidenciada na imagem.
Como esta pintura já é por demais conhecida, apresento aqui a obra que foi pintada por Jacopo Tintoretto, que pela sua energia fenomenal em pintar, foi chamado Il Furioso, e a sua dramática utilização da perspectiva e dos efeitos da luz fez dele um dos precursores do Barroco.

Última Ceia – Jacopo Tintoretto

Fontes e Imagens: www.wikipedia.org
Entre a História e os evangelhos” - Revista História Viva n. 137
www.snpcultura.org



domingo, 8 de abril de 2012

Via Sacra – III

Estamos no domingo de Páscoa, e, embora a Via Sacra termine na 14ª estação com a deposição de Jesus no túmulo, acrescenta-se, por vezes, uma 15ª, lembrando a Ressurreição de Cristo e com a qual vou terminar as mensagens da Semana Santa.
Na mensagem anterior terminei com12ª estação -A Morte de Jesus na Cruz - por isso, para a 13ª estação - Jesus é descido da Cruz – apresento a obra de um artista português, António Nogueira, pintor maneirista da segunda metade do sec. XVI, falecido em Évora no ano de 1575. A obra em questão,
“A Descida da Cruz”, pertence ao Museu Regional de Beja.
A Descida da Cruz – António Nogueira

Para a 14ª estação – Jesus é depositado no túmulo – escolho “A Lamentação sobre Cristo Morto”, uma das mais famosas pinturas de Andrea Mantegna, uma têmpera sobre tela (68x81cm), pintada provavelmente entre 1475 e 1478, que faz parte do acervo da Pinacoteca de Brera, em Milão.
A pintura é famosíssima pela figura do corpo de Jesus Cristo deitado, que tem a particularidade de seguir e olhar quem olha para os seus pés. É, provavelmente, uma das obras mais conhecidas do Renascimento.

Lamentação sobre Cristo Morto – Andrea Mantegna

Para o final, e porque a Ressurreição de Cristo, embora não faça parte da Sua Paixão, é o ponto fundamental de toda a religião cristã, apresento um dos painéis sobre a Vida de Cristo, pintado por Giotto di Bondone, para a Capela degli Scrovegni, em Pádua, também conhecida como a Capela Arena, mostrando a Ressurreição de Cristo.
Giotto di Bondone mais conhecido simplesmente por Giotto, (Colle Vespignano, 1266 — Florença, 1337) foi um pintor e arquiteto italiano.
É considerado por Bocaccio o precursor da pintura renascentista, o elo entre o renascimento e as pinturas medieval e bizantina.
A característica principal do seu trabalho é a identificação da figura dos santos como seres humanos de aparência comum.

Giotto - A Ressurreição de Cristo

sábado, 7 de abril de 2012

A Via Sacra – II

A Verónica limpando a face de Jesus – sec. XIX

Continuando as representações da Via Sacra, apresento hoje, mais algumas, entre elas, a 6ª estação “A Verónica limpando o rosto de Jesus”.
Embora seja uma das que foi retirada pelo Papa João Paulo II, por ser apenas de tradição oral, achei por bem incluí-la, contando a lenda que lhe deu origem:
Eusébio conta como em Cesareia de Filipe, vivia uma mulher a quem Cristo havia curado de um problema de hemorragia (Mateus 9:20-22). A lenda não demorou em dar-lhe um nome. No ocidente, ela foi identificada com Marta de Betânia. No oriente, ela foi chamada de Berenike, ou Beronike, o nome aparecendo em obras tão antigas quanto os "Atos de Pilatos", cuja primeira versão é do século IV d.C. É interessante notar que a divertida derivação do nome Verônica das palavras Vera e Icon (eikon) "verdadeira imagem" também é antiga e aparece em "Otia Imperialia" (III, 25) de Gervásio de Tilbury (fl. 1211), que diz:
"Est ergo Veronica pictura Domini vera." - História Eclesiástica (VII,18), Eusébio de Cesareia.
Não há referência à história de Santa Verônica e seu véu nos Evangelhos canônicos. A história que chega mais perto é o milagre já relatado sobre a mulher que foi curada de uma hemorragia em Mateus 9:20-22 e Lucas 8:43-48. O seu nome foi identificado como sendo Verônica nos Atos de Pilatos, uma obra apócrifa do século IV d.C. A história foi depois mais elaborada com a adição da história de Cristo dando-lhe um auto-retrato num tecido com o qual a Santa posteriormente curou o imperador romano Tibério (Cura de Tibério). A ligação disto com Jesus carregando a cruz na Paixão e a aparição milagrosa da imagem só ocorreu por volta de 1380, num livro internacionalmente famoso na época chamado de "Meditações sobre a vida de Cristo".
De acordo com a Enciclopédia Católica, o Véu de Verônica era considerado nos tempos medievais como a imagem verdadeira, a representação de Jesus anterior ao Sudário de Turim.
Santa Verônica foi mencionada nas visões de Jesus pela irmã Maria de São Pedro, uma freira carmelita que viveu em Tours, na França, e iniciou a devoção da Santa Face de Jesus. Em 1844, a irmã Maria relatou que numa visão, ela viu Santa Verônica limpando o cuspo e a poeira da face de Jesus com seu véu no caminho do Calvário.
A devoção à Santa Face de Jesus foi eventualmente aprovada pelo Papa Leão XIII em 1885. Santa Verônica é comemorada na "Terça-feira gorda", a terça-feira antes da quarta-feira de cinzas, o mesmo dia da comemoração da Santa Face.
www.wikipedia.org.
A 10ª e a 11ª, Jesus é pregado na cruz e Jesus morre na cruz, estão muito bem representados neste tríptico do sec. XIV, pertencente ao museu de Évora, e do qual transcrevo o artigo de Celso Mangucci:


Tríptico da Paixão de Cristo (det.) Início do séc. XVI. Léonard Nardon Pénicaud.

O tríptico de esmalte com cenas da Paixão de Cristo - uma das mais famosas aquisições de Frei Manuel do Cenáculo – esteve inicialmente exposto acompanhado por uma folha impressa em latim, com uma tão elaborada quanto lendária história da sua origem.
Segundo o escrito, o esmalte seria proveniente do saque de Constantinopla em 1203, e teria sido uma doação ao Templo de Santa Sofia do próprio Constantino Magno, o primeiro imperador romano a converter-se ao Cristianismo. Essa proveniência justificaria também o precioso trabalho de embutidos da tampa do estojo de madeira, com uma imbricada composição formada pela multiplicação da estrela de seis pontas, num trabalho com a tradição turco-muçulmana, mas provavelmente realizado nos séculos XVII-XVIII.
Depois de trazida pelos cruzados franceses para o Ocidente, num acidentado percurso, a peça esteve em posse do rei de França, Francisco I, passando para o imperador Carlos V e posteriormente para a posse de Isabel de Áustria que o teria feito colocar no altar de uma capela do palácio em Mântua.
Provavelmente um oratório portátil, o tríptico é dividido em três partes, uma central e maior, e duas laterais que se podem dobrar sobre a primeira, facilitando o seu transporte. A lâmina central representa a crucificação de Cristo com o bom e o mal ladrão e, mais precisamente, como bem notou Gabriel Pereira (1948: II, 281), o momento no qual um soldado romano cego, guiado pela mão de um centurião, lanceia o peito de Jesus Cristo para confirmar a sua morte. Sublinhando o carácter piedoso do acto, Maria Madalena segura a maça com que o centurião romano, postado do lado oposto, montado num belo cavalo ajaezado, pretendia partir as pernas dos crucificados, antecipando brutalmente a morte. São Longuinho, segundo a tradição, seria curado milagrosamente da sua cegueira por uma gota de sangue de Jesus.
Cada uma das abas laterais se divide em dois quadros. A da esquerda apresenta dois momentos cronológicos anteriores à crucificação com a decisão do procurador Pôncio Pilatos em condenar Jesus (Lava mãos) e o Caminho ao Calvário, com Cristo carregando a Cruz. À direita, dois momentos posteriores à Ressurreição: à Descida ao Limbo e o Aparecimento de Cristo à Virgem.
museudevora.imc-ip.pt
No fim do séc. X, o príncipe Vladimir de Kiev recebe o baptismo e toda a Rússia se converte ao cristianismo oriundo de Bizâncio.
Desde então, os imensos territórios que se estendem desde o Leste da Europa, entre o Mar Báltico, o Mar Negro e o Mar Cáspio acolhem a expansão da civilização e arte bizantinas. É desta forma que começa a história milenária da Rússia cristã.
Em Março de 2010, o Museu do Louvre apresentou uma exposição, denominada “Santa Rússia”, onde foram exibidas peças da história e arte russas, desde o sec. X até à ascensão ao poder de Pedro, o Grande, no final do sec. XVII.
De entre os artigos expostos no site do Secretariado nacional da pastoral para a cultura, escolhi um, que representa Jesus já descido da cruz.
Epitaphios (tecido litúrgico utilizado na Semana Santa, especialmente na Sexta-feira da Paixão).
www.snpcultura.org/tvb_santa_russia_louvre.html


Clicar nos quadros para abrir

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Via Sacra – I

A Via Sacra, ou Via Crucis (caminho da cruz, em latim), é uma das principais cerimónias da Semana Santa, relembrando o caminho percorrido por Jesus, desde a casa de Pilatos, após a sua condenação à morte, até ao monte Gólgota, onde foi crucificado, acompanhando assim o Seu sofrimento e meditando na sua Paixão.
Esta devoção, que se deve provavelmente aos primeiros fiéis que então percorriam a Terra Santa para orarem nos lugares sagrados da Paixão de Cristo, tornou-se, a partir do sec. IV, numa romagem que qualquer peregrino deveria cumprir.
Há, no entanto, uma lenda que diz que a Virgem Maria, depois da morte de Jesus, percorria várias vezes este caminho, a que se deu o nome de Via Dolorosa, começando depois a juntarem-se pessoas que a acompanhavam nesta piedosa jornada.
Foi para garantir a segurança dos peregrinos e dos cristãos do Oriente, após a tomada de Jerusalém pelos turcos seljúcidas, que a 27 de Janeiro de 1095, durante o concílio de Clermont, o Papa Urbano II exortou os reis cristãos a libertar a Terra Santa e retomar Jerusalém, dando-se assim início às diversas expedições militares que ficaram conhecidas como as Cruzadas, e que durante cerca de duzentos anos mantiveram um certo controlo sobre a Palestina.
Com a queda de S. João de Acre em 1291, todo o território ficou novamente nas mãos dos muçulmanos, e como as peregrinações se tornaram demasiado perigosas, para já não falar da distância a percorrer, a devoção da Via Sacra foi retomada no Ocidente, depressa se estendendo a todas as comunidades cristãs espalhadas pelo mundo.
A Via Sacra tornou-se então um exercício de meditação sobre os últimos dias de Jesus na terra, sendo os momentos principais representados por uma série de imagens chamadas de “Estações”. O seu número era variável, até que no sec. XVIII, o Papa Bento XVI as fixou em 14.
São elas:

1. Jesus é condenado à morte.
2. Jesus carrega com a cruz.
3. Jesus cai pela primeira vez.
4. Jesus encontra sua Mãe.
5. Simão de Cirene ajuda Jesus a carregar a cruz.
6. A Verónica limpa o rosto de Jesus.
7. Jesus cai pela segunda vez.
8. As mulheres de Jerusalém choram por Jesus.
9. Jesus cai pela terceira vez.
10. Jesus é despojado de suas vestes.
11. Jesus é pregado na cruz.
12. Jesus morre na cruz.
13. O corpo de Jesus é retirado da cruz.
14. O corpo de Jesus é colocado no sepulcro.
Por vezes, acrescenta-se uma 15ª, relembrando a Ressurreição de Cristo.
Algumas destas representações têm origem em lendas, como as quedas de Jesus, e dos Seus encontros com a Verónica ou com a Sua Mãe, pelo que o Papa João Paulo II as mudou para outros quadros narrados nos Evangelhos, não estando essa medida ainda em vigor.
Embora possa ser rezada durante todo o ano, é durante a Quaresma que atinge o seu máximo espiritual, principalmente na Sexta-Feira Santa, em que em Roma é o próprio Papa a dirigi-la.
É geralmente rezada dentro das Igrejas, mas também pode ser feita no exterior, em procissão, desde que tenha uma cruz à frente. É o caso, por exemplo, da Procissão do Senhor dos Passos, também chamada “Do Encontro” (devido ao encontro entre Jesus e Sua Mãe, representada pela imagem de Nossa Senhora das Dores), em que durante o percurso se rezam as diversas estações, aqui denominadas de “Passos”.
Dada a necessidade de se representarem as imagens, esta devoção deu origem a uma rica iconografia religiosa, desde o seu início até aos dias de hoje. Alguns desses trabalhos são autênticas obras de arte, quem não conhece a célebre Pietá, de Miguel Ângelo?
De hoje até domingo darei aqui alguns exemplos dessa iconografia, espalhados pelo mundo.
Jesus é condenado à morte – Estação da via Sacra em gesso patinado da Catedral de Petrópolis.
Jesus carregando a cruz - Barna da Siena de 1330-50
Jesus cai a caminho do Calvário – Rafael Sanzio, 1517

domingo, 24 de abril de 2011

Domingo de Páscoa

A Páscoa cristã celebra a ressurreição de Jesus Cristo. É o dia santo mais importante da religião cristã. Muitos costumes ligados ao período pascal originam-se dos festivais pagãos da primavera. Outros vêm da celebração do Pessach, ou Passover, a Páscoa judaica, que é uma das mais importantes festas do calendário judaico, celebrada por 8 dias e onde é comemorado o êxodo dos israelitas do Egito, da escravidão para a liberdade. Um ritual de passagem, assim como a "passagem" de Cristo, da morte para a vida.
Passado o Sábado, quando começava a alvorecer para o primeiro da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram visitar o sepulcro.
Nisto, houve um grande terramoto, pois o Anjo do Senhor descendendo do céu, aproximou-se e revolveu a pedra da porta sentando-se sobre ela.
E seu aspecto era como um relâmpago, e seu vestido branco como neve.
E com medo dele ficaram os guardas a tremer e ficaram como mortos.
Mas o Anjo disse às mulheres: Não temais vós outras, porque eu sei que buscais a Jesus crucificado. Não está aqui, porque já ressuscitou, como disse, vinde, vede o lugar aonde jazia. E ide depressa dizer aos seus Discípulos, que já ressuscitou dos mortos; e vai preceder-vos a caminho da Galileia; lá o vereis. Eis o que tinha para vos dizer.
Afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e grande gozo, correram a dar a notícia aos Discípulos. Mateus, 28,1-8




Cristo Ressuscitado - Álvaro Pires de Évora, c. 1430, têmpera sobre madeira106 x 76 cm Szépmüvérzeti MuseumBudapeste, Hungria
Pouco se sabe sobre a vida do pintor Álvaro Pires de Évora, sendo desconhecidas tanto a sua data de nascimento, como a da morte. Conhecido por “Álvaro Pietro di Portugallo´´, tem duas assinaturas conhecidas: Alvarvs Petri de Portogallo, em italiano e Álvaro Pirez Devora, em português (pelo menos num quadro); de onde se pode deduzir que foi para Itália em adulto uma vez que sabia escrever em português. Apresenta como estilo dominante a chamada Pintura Florentina do Primo Quatrocento.
O percurso cultural do pintor moveu-se entre Florença e Siena, de 1411 a 1434, sendo Pisa e Volterra as cidades onde residiu após um período inicial em que teve residência na região de Florença. Os clientes da pintura de Álvaro Pires dividem-se entre as ordens religiosas e a rica burguesia mercantil italiana.
No que respeita às primeiras referências historiográficas a Álvaro Pires, são as seguintes: uma de Giorgio Vasari na obra Le Vite de' più Eccellenti Pittori, Scultori e Architettori, publicada em 1808, em Itália, e a segunda de José da Cunha Taborda, na obra Regras da arte da pintura datada de 1815, em Portugal.
Até há pouco tempo não havia nenhum Álvaro Pires em Portugal - um pintor com cerca de 30 obras, das quais apenas meia dúzia permanece fora dos museus - e autor, afinal, "da primeira pintura feita por um português", nas palavras de Caetano, especialista em pintura antiga. E o que significa ser o primeiro pintor português? "É o primeiro nome que temos na história de arte em Portugal a que podemos ligar pinturas. Álvaro Pires é o primeiro a assinar obras e aos outros nomes que temos documentados não lhes podemos atribuir pinturas. A seguir só temos o Nuno Gonçalves dos 'Painéis de S. Vicente'".

Fontes wikipedia.pt
Público, 24 Dezembro de 2001

Sábado

Também chamado de Sábado de Aleluia, é o último dia da Semana Santa.
Em Jerusalém, os sacerdotes, lembrando-se que Cristo tinha dito que ressuscitaria ao terceiro dia e com medo que alguém pudesse roubar o corpo, selaram a pedra tumular e puseram guardas para que ninguém lhe pudesse tocar.
Os cristãos primitivos passavam este dia em descanso e oração silenciosa, guardando jejum absoluto.
No dia de hoje, os altares são desnudados ou despojados, tal como na Sexta-feira Santa, não se celebrando missa. Em alguns lugares, a manhã é dedicada à Celebração das Dores de Maria,
Ao pôr-do-sol, inicia-se a Vigília Pascal, dando início à Páscoa, sendo a celebração mais importante do calendário litúrgico cristão, por ser a primeira celebração oficial da Ressurreição de Jesus. É marcada pela primeira entoação desde o início da Quaresma, do “Glória” e do “Aleluia”, uma característica litúrgica do Tempo Pascal. Na tradição católica romana, a Vigília Pascal consiste de quatro partes:
1)Breve Lucernário
2)Liturgia da Palavra ou Celebração da Palavra
3)Liturgia Batismal ou Celebração da Água
4)Liturgia Eucarística ou Celebração da Eucarístia
A vigília começa após o pôr-do-sol no Sábado Santo fora da igreja, onde o fogo ou fogueira é abençoada pelo celebrante. Este novo fogo simboliza o esplendor do Cristo ressuscitado dissipando as trevas do pecado e da morte. O Círio pascal ou (vela pascal) é abençoado com um rito muito antigo. Esta vela pascal será usada em toda o Tempo Pascal, permanecendo no santuário da igreja e durante todo o ano em baptismos, Crismas e funerais, lembrando a todos que Cristo é a "luz do mundo". Assim que a vela for acesa segue-se o antigo rito do Lucernário, em que a vela é carregada por um sacerdote ou diácono através da nave da igreja, em completa escuridão, parando três vezes e cantando a aclamação: "Lumen Christi" ou Luz de Cristo (em português), ao qual a assembleia responde "Deo Gratias" (Graças a Deus). A vela prossegue através da igreja, e os presentes empunham velas que são acesas no Círio pascal. Como este gesto simbólico representa a "Luz de Cristo" espalhando-se por todos, a escuridão é diminuída. Assim que a vela é colocada num lugar dignamente preparado no santuário, é incensada pelo diácono, que entoa solenemente o canto Exulted, de tradição milenar, conhecido também como Proclamação da Páscoa, ou Pregão Pascal.
Ao findar do canto, apagam-se as velas e inicia-se a Liturgia da Palavra. A Liturgia da Palavra é composta de sete leituras do Antigo Testamento, que são como um resumo de toda a História da Salvação. No fim é cantado o “Glória in Excelsis Deo”, ouvindo-se o toque dos sinos.
Após a celebração da Liturgia da Palavra, segue-se a bênção da água da pia baptismal sendo administrado o baptismo aos que desejam ser iniciados na Igreja.
Depois da oração, a Liturgia Eucarística continua como de costume, sendo tradição a utilização da Oração Eucarística I, ou Cânon Romano, a mais solene de todas. Esta é a primeira missa do dia da Páscoa. Durante a Eucaristia, os recém-baptizados adultos recebem a Sagrada Comunhão pela primeira vez, podendo ou não serem crismados também. Ao amanhecer, as cerimónias terminam para dar lugar à Páscoa. Jesus ressuscita, voltando de novo a Luz ao mundo.



Pietá ou Nossa Senhora da Piedade - Frei Cipriano da Cruz

Nascido em Braga, professou no Mosteiro de Tibães em 1676 e foi o mais notável escultor barroco seiscentista português, entre 1676 e 1713, sendo esta escultura em madeira de castanho, uma das suas melhores obras.
Faleceu em 1716 estando sepultado naquele mosteiro.
“Esta imagem mostra Nossa Senhora, sentada, sustentando o corpo inerte do seu Filho, apoiando-lhe a cabeça com a mão direita e segurando-lhe o braço com a esquerda. Apresenta-se coberta por amplos panejamentos em tons de vermelho, azul e ouro, estofados e com decoração aplicada, formando motivos vegetalistas. Tem túnica muito ampla, touca branca e, sobre ela, um manto que envolve toda a composição.
O rosto é marcado pelos olhos grandes, congestionados, virados para o alto, em gesto de resignação e dramatismo. Cristo, estendido obliquamente no regaço da Mãe, apoia os pés moribundos no solo.”
Ana Alcoforado -mnmachadodecastro.imc-ip.pt

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sexta-feira Santa - II

A crucificação era a forma normal de punição aplicada pelos romanos aos criminosos das classes mais baixas. A soldadesca, por troça, coroa-o de espinhos, põe-lhe nas mãos atadas uma cana em vez de ceptro e uma clâmide nos ombros dizendo-lhe “Salvé Rei dos Judeus”. Tiram-lhe depois a clâmide, vestem-lhe as suas roupas e põem-lhe a cruz às costas.
A caminho do monte Gólgota onde se faziam estas execuções, é ajudado por um tal Simão Cireneu, chamado pelos soldados ao verem que Cristo já não tinha forças para a carregar sozinho. Chegados lá, despem-nO e pregam-nO na cruz, no cimo da qual põem uma tabuleta com a inscrição: “Jesus Rei dos Judeus”.
Situado entre dois ladrões, e tendo prometido a um deles que nessa noite dormiriam no Paraíso, Jesus dá o último suspiro à hora nona (três horas da tarde), depois de uma longa agonia de cerca de três horas.
Aos pés da Cruz, Maria, Sua Mãe, acompanhada do apóstolo João, o Evangelista, de Maria Madalena e de outra Maria, tinha assistido a todo aquele suplício.
Na Judeia, um condenado a morrer no suplício, devia ser sepultado no mesmo dia. No caso da morte de Jesus, a urgência era ainda maior porque ao pôr-do-sol desse dia começava a grande festa da Páscoa dos judeus e no sábado não era permitido fazer praticamente nada.
Por isso, um dos seus seguidores, José de Arimateia, retirou-O da cruz e sepultou-O num túmulo novo que tinha mandado talhar na rocha. Depois rolou uma grande pedra para a porta do túmulo, retirando-se em seguida.
Ali ficaram Maria Madalena e a outra Maria.
Entre os vários pintores que trataram este tema, encontra-se Cristóvão de Figueiredo (Portugal ?- c.1540) um pintor maneirista português.
Foi aluno de Jorge Afonso, e mais tarde trabalhou junto com Francisco Henriques, Garcia Fernandes e Gregório Lopes executando vários retábulos em Lisboa. Entre 1522 e 1533 trabalhou no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra e no Mosteiro de Ferreirim, em Lamego. É dele o quadro intitulado “A Deposição no Túmulo”.



Deposição no Túmulo - Cristóvão de Figueiredo
Óleo sobre madeira de carvalho
A 182 x L 156 cmMNAA

Em três planos bem definidos se estrutura a encenação desta pintura: túmulo, friso de figuras e paisagem. A marcada horizontalidade é cortada pela diagonal do corpo de Cristo envolto na mortalha, figura principal desta representação fixada no momento exacto em que desce à sepultura. De um lado e doutro convergem as cabeças dos figurantes e João, o discípulo tão amado, reúne no seu rosto a expressão sofrida de Maria e das santas mulheres. Há outros valores essenciais para o entendimento plástico e psicológico desta pintura de Cristóvão de Figueiredo. Um deles é a paisagem clareada, no canto superior esquerdo do quadro, zona de fuga desta dramatização contida e que tem o seu contraponto na figura de Madalena, em primeiro plano, que segura a coroa de espinhos em figurada atitude de apresentação da morte. Outro dos motivos é a representação em plano ligeiramente diferenciado, dos dois personagens de negro trajados que rematam a estrutura compositiva apontada pela colocação do divino corpo. O seu retrato, de expressão absolutamente personalizada, tão diversa das circundantes, testemunha um caminho diferente no tratamento convencional dos rostos, na pintura portuguesa do século XVI.

www.mnarteantiga-ipmuseus.pt

Sexta-feira Santa - I

Celebra-se hoje o dia da Paixão de Cristo, que consiste resumidamente na adoração de Jesus crucificado, precedida por uma liturgia da Palavra e seguida pela comunhão eucarística dos participantes com a Hóstia consagrada no dia anterior. Embora não haja propriamente missa, o sacerdote está paramentado como tal, com vestes de cor vermelha simbolizando o sangue dos mártires.
É aconselhado fazer jejum e abstinência durante este dia, não se devendo comer carne, isto, porque a carne era considerada impura, ao passo que se pensava que o peixe nascia de geração espontânea.
Em quase todo o país celebra-se a procissão do Enterro de Cristo, ou do Senhor Morto, como também é conhecida e à tarde, nas igrejas, é rezada a Via-sacra, acompanhando os passos de Jesus até à Sua morte.
O último dia da vida terrena de Jesus começa muito cedo, quando de madrugada, depois de interrogado pelo Sinédrio, que o considera blasfemo e ordena o seu espancamento, é levado pelos sacerdotes do Templo até junto de Pôncio Pilatos, o governador romano da Judeia, representante do Imperador Tibério. Como não lhe achasse culpa e Jesus era galileu, envia-o a Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, para que o julgasse.
Os romanos não aplicavam a pena de morte a violações da lei judaica, como era a de blasfémia, além de que se conta que a mulher de Pilatos depois de um sonho que teve pediu ao marido para não condenar Jesus. Herodes zomba de Cristo e pondo-lhe uma bonita capa nos ombros envia-o de novo para o governador romano. Daqui vem a expressão “Andar de Herodes para Pilatos”, significando “andar de um lado para o outro para não ser atendido por nenhum”.
Então Caifás, arranjando testemunhas, acusa Jesus de também se ter proclamado como o Messias, o Rei de Israel que os judeus esperavam, o que já era compreendido pelos romanos como um acto de sedição e punível com a pena de morte. Mesmo assim, Pilatos, que continuava a achá-lo inocente, já que era costume libertar-se um prisioneiro por altura da Páscoa Judaica, manda-o flagelar, apresentando-o depois à população, para que escolhessem entre Jesus e Barrabás, um perigoso assassino.
Para sua consternação, o povo escolhe Barrabás, pedindo a crucificação de Jesus. O governador entrega-O então aos soldados para que assim procedessem.



Calvário - Vasco Fernandes, c. 1530, Óleo sobre madeira de castanho, 242.3 x 239.3 cm. Museu Grão Vasco, Viseu
Vasco Fernandes (Viseu, 1475- 1542), mais conhecido por Grão Vasco, é considerado o principal nome da pintura portuguesa quinhentista. Nasceu provavelmente em Viseu e exerceu a sua actividade artística no Norte de Portugal na primeira metade do século XVI.

"No Calvário, Cristo surge crucificado entre o Bom e o Mau Ladrão, acompanhado na dor pela Virgem desfalecida, Madalena, S. João e duas santas mulheres. À multidão de guardas e carrascos, num espectáculo de expressivo dramatismo, acrescem ainda as cenas do transporte da escada, à esquerda, e o enforcamento de Judas, em escala miniatural, à direita, acompanhado de um pequeno diabo que lhe leva a alma"
Dalila Rodrigues - Roteiro do Museu Grão Vasco, pág. 127, Edições Asa, 2004.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Quinta–Feira Santa


O quadro aqui apresentado” A Última Ceia”, foi pintada em 1828 e é da autoria de Manuel da Costa Ataíde, mais conhecido como Mestre Ataíde, nascido no país irmão (Mariana, 18 de Outubro de 1762 – Idem, 2 de Fevereiro de 1830) e que foi um importante pintor do barroco mineiro, além de dourador, entalhador e professor. Esta tela foi a sua única obra de cavalete e encontra-se no Colégio Caraça.
É a visão do pintor sobre como terá sido a última refeição de Jesus com os seus Apóstolos, a quem num gesto de humildade lavou os pés quando se sentaram à mesa, o que é indicado pela bacia de barro com um pano branco semi-torcido mesmo à boca do quadro.
No tempo de Jesus a refeição pascal tinha um rito determinado. Durante o repasto pronunciava-se uma bênção, isto é, um canto de louvor e acção de graças a Javé pelas maravilhas que tinha feito em favor do Seu povo e é nesta altura da ceia, que Jesus introduz o rito novo da Nova Aliança. A antiga Aliança tivera como sinal de contracto a aspersão do sangue de animais. A Nova Aliança baseia-se no sangue de Cristo. Por isso, depois de pronunciar a bênção Ele toma o pão nas Suas mãos, parte-o e diz “Tomai, comei; Isto é o Meu Corpo”, pega depois no cálice, deu graças e disse “Bebei dele, todos, porque este é o Meu Sangue derramado por muitos para remissão dos pecados”.
No fim da refeição depois de cantarem os “hallel”(salmo de acção de graças com que os judeus concluíam a ceia pascal), saíram para o Monte das Oliveiras. Jesus sabia que o Seu fim estava próximo; Judas já tinha negociado a Sua entrega por trinta dinheiros (o preço fixado na lei de Moisés para compensar a perda de um escravo), aos sacerdotes do Templo.
No Horto do Getsemani entrega-se à oração enquanto os discípulos dormem, até chegarem os guardas acompanhados de Judas, que o prendem e o levam para casa de Caifás, o sumo-sacerdote, onde é interrogado e fica detido durante a noite
Por isso, nas igrejas a vigília continua assim como os Ofícios das Trevas. Na Missa, e para festejar o Mistério da Eucaristia, os paramentos dos sacerdotes são brancos, assim como o pano que envolve a Cruz, canta-se o “Glória” durante o qual os sinos tocam, ficando depois silenciosos até ao Sábado de Aleluia. São também abençoados os Santos Óleos dos enfermos e depois o do Crisma e consagradas duas Hóstias, uma das quais servirá para as devoções de sexta-feira santa, uma vez que nesse dia não se celebra missa.
É também hábito o oficiante realizar um Lava-pés a doze pessoas (antigamente eram doze pobres), em memória do que foi efectuado por Jesus. Quando a Missa termina, a Hóstia consagrada para o dia seguinte, é levada para outro altar que foi previamente preparado e a que se dá o nome de santo sepulcro. Procede-se depois à desnudação dos altares, retirando-lhes as toalhas e flores, ficando apenas a Cruz e os castiçais.
Em certas regiões do País é costume fazer-se a procissão do Ecce Homo ou Senhor da Cana Verde, como também é conhecido.


Neste retábulo de pequenas dimensões, intitulado “Ecce Homo” ou “Senhor da Cana Verde”, hoje propriedade do MNAA, está representado Cristo depois de ter sido flagelado pelos romanos sob as ordens de Pilatos e pronto para a sua apresentação ao povo judeu.
Pelas Suas faces rolam lágrimas e o sangue corre das feridas abertas. Para que a humilhação seja mais dolorosa, os soldados colocaram-lhe na cabeça uma coroa de espinhos, nas mãos atadas uma cana em vez do ceptro e uma simples manta em vez da túnica real.
O seu autor foi Frei Carlos, um dos pintores mais importantes e enigmáticos de origem flamenga da primeira metade do sec. XVI, que em 1517 entrou como frade na Ordem de S. Jerónimo, no Convento do Espinheiro em Évora, identificando-se como “frei Carlos de Lisboa framengo” sendo esta a sua única assinatura conhecida. Foi sepultado no Convento de S. Jerónimo do Mato, em Alenquer.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Quarta-Feira de Trevas

Hoje, quarta-feira Santa encerra-se o período da Quaresma, que começa na Quarta-Feira de Cinzas, o dia seguinte à Terça-Feira de Carnaval, com a imposição das cinzas na testa dos fiéis, lembrando-os que são pó e ao pó irão voltar.
Neste dia, assim como na próxima quinta e sexta-feira celebram-se os Ofícios chamados de Trevas (os Tenebrae) uma tradição medieval, para lembrar os fiéis que a escuridão vai descer sobre a Terra com a morte de Jesus. São salmos cantados no género de cantos gregorianos, de preferência “As lamentações do profeta Jeremias sobre Jerusalém”, efectuados à noite na igreja, onde um candelabro triangular com 15 velas acesas lembrando os 150 salmos da Bíblia, também chamado de Galo de Trevas é colocado. Por cada um deles que se canta, apaga-se uma vela do candelabro e do altar, fazendo também soar as matracas (instrumentos de madeira que produzem um som seco, lúgubre), para lembrar que Jesus caminha para a morte. Quando a última vela é apagada, a igreja fica às escuras e o som seco das matracas anuncia o efémero triunfo das Trevas sobre a Luz, desmentido a seguir pelo ténue brilho de uma vela acesa por trás do altar indicando que através da sua Ressurreição, Cristo triunfa sobre a Morte, derrotando essas mesmas Trevas.
Na missa deste dia lê-se a Paixão segundo S. Lucas e em algumas localidades faz-se a procissão do encontro de Nossa Senhora das Dores com o Senhor dos Passos.
Não nos podemos esquecer do sofrimento da Mãe de Jesus, conhecida nestas celebrações como Nossa Senhora das Dores ou Mater Dolorosa, e que esta pequena estatueta em marfim, um trabalho indo-português do sec. XVII tão bem sabe retratar em todo o seu desalento! A quando da apresentação de Jesus no Templo, o velho Simeão depois de tomar o Menino nos braços profetizou-lhe: “E uma espada trespassará o teu coração”, Lc 2, 35. Os braços caídos da Senhora com as mãos voltadas para fora exprimem a aceitação de todo o sofrimento que Lhe estaria reservado para redenção da Humanidade…
E que maior dor poderá haver para qualquer mãe do que ver morrer o seu filho?

Imagem: mdsleiloes.com

A Semana Santa- I

Dado começaram hoje as celebrações mais conhecidas da Páscoa, vou adiar até segunda-feira as mensagens sobre o Panteão de Santa Engrácia, para poder falar da Semana Santa durante estes dias, começando com o dia de hoje, conhecido como Quarta-Feira de Trevas e continuando com Quinta-Feira de Endoenças, Sexta-Feira de Paixão, Sábado de Aleluia e Domingo de Ressurreição.
As celebrações da Páscoa começaram no Domingo passado, chamado de Domingo de Ramos, pois simboliza a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, para o início da sua Paixão.
Montado num burrinho, seguido pelos Apóstolos e por uma multidão que estendia as suas capas ou cortava ramos de árvores para atapetar o caminho que Jesus seguia, o Nazareno, humilde e sereno sua montada, ouvia os gritos de “Hossana ao filho de David” daquela gente que, passados cinco dias pediriam a sua Morte e a libertação de Barrabás.
Durante este período não devem ser celebrados os sacramentos do Baptismo e da Confirmação, pois a Igreja está de luto, preparando-se para a Morte do Senhor. Os sacerdotes vestem paramentos de cor roxos, suprimem-se alguns cantos de alegria como o “Glória” e o “Aleluia” e as imagens são tapadas com panos.
Na Missa lê-se a narrativa da Paixão segundo S. Mateus, e são benzidos os ramos de palmas, de alecrim ou de outras plantas que depois os fiéis levam para casa.
Segundo a tradição popular, estes ramos e velas trazidas da Missa, afastam os raios. Acendendo a vela benta e queimando o alecrim, desvia-se a tempestade, não esquecendo de orar a Santa Bárbara, padroeira das trovoadas.
O quadro abaixo, representando a Entrada de Jesus em Jerusalém, é da autoria de Jean Hippolyte Flandrin, pintor francês nascido em Lyon em 1803 e falecido em Roma em 1864.
Sempre que possível apresentarei quadros de pintores portugueses.
Para todos, uma Páscoa Feliz.