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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

As Igrejas Rupestres de Ivanovo

 
 
 


Exemplo de uma pujante cultura monástica durante a Idade Média e da elaborada arte da famosa “Escola de Tarnovo, as igrejas rupestres de Ivanovo (em búlgaro: Ивановски скални църкви, Ivanovski skalni tsarkvi), são um grupo de igrejas monolíticas, capelas e monastérios rupestres de rocha sólida, localizado próximo à cidade de Ivanovo, a 20 quilômetros ao Sul de Rousse, nos bancos rochosos de Rusenski Lom, 32 metros acima do rio.

Famosas pelos seus belos e bem preservados afrescos, as cavernas da região foram habitadas pelos primeiros monges eremitas a partir do sec. XIII, quando foram encontradas pelo futuro Patriarca da Bulgária, Yoakim (Joaquim), que as ampliou, dando origem a uma colónia de conventos, bem no alto dos rochedos, relativamente a salvo de “visitantes indesejados.

A comunidade cresceu rapidamente, devido sobretudo às doações financeiras dos czares búlgaros (principalmente Ivan Assen II (1218-41), e Ivan Alexander (1331-71), e de grande parte da nobreza, sendo por isso possível que durante os sec. XIII e XIV, grandes artistas, de que infelizmente a tradição não conservou os nomes, pintassem as inúmeras igrejas e capelas, deixando para a posteridade um exemplo magnífico da pintura búlgara medieval.

Grande parte das pinturas murais estão hoje destruídas ou extremamente degradadas, mas ainda podem ser observadas em 5 igrejas, como a Capela do Arcanjo Miguel, o Batistério, a Igreja de Gospodev (Vale do Senhor), a Igreja de São Teodoro e a igreja principal.

Apesar da irregularidade das superfícies, os artistas da igreja de Ivanovo, a quem os locais chamam simplesmente “a Igreja”, e onde se encontram algumas das pinturas mais significativas, conseguiram criar uma certa vivacidade nas figuras ali representadas, dotando-as de uma gestualidade própria e específica, mais próprias da chamada “escola de pintura de Tarnovo”, do que da pintura bizantina então dominante.

A “igreja” que mede cerca de 12 metros de comprimento, foi cuidadosamente talhada na rocha e compõe-se de três partes: o corpo central (nave), o pórtico (nártex) e a capela, estando as suas paredes, antigamente, completamente revestidas de pinturas murais, podendo apreciar-se numa delas, o czar Ivan Alexander fazendo a entrega simbólica da igreja a Maria, Mãe de Deus. 

Abundam também motivos da Antiguidade, entre os quais se contam cariátides nuas, colunas apoiadas em corpos de leões e máscaras. O mesmo se passa nas pinturas murais da antiga capital, Tarnovo, e na igreja de Bojana.

Nas celas dos monges, que no seu apogeu, chegaram a ser 300, ainda se conservam muitas das inscrições seculares gravadas na pedra, incluindo as do monge Ivo Gramatik que datam de 1308 e 1309.

Por uma destas inscrições, ficamos a saber que o czar Ivan Terter (1279-1292), ali passou o resto da sua vida e ali foi enterrado.

As igrejas rupestres de Ivanovo foram classificadas como Património da Humanidade pela UNESCO, em 1979.

 
 

Além deste conjunto de igrejas, a Bulgária tem mais 8 locais aprovados pela Unesco: Igreja de Boyana, Cavaleiro de Madara, Túmulo Trácio de Kazanlak, Mosteiro de Rila, Cidade Antiga de Nessebar, Reserva Natural de Srebarna, Parque Nacional Pirin e Túmulo Trácio de Sveshtari.
 Fontes : www.wikipedia.org
Jornal O Público – Tesouros da Humanidade e da Natureza
Imagens: www.wikipedia.org
 


sábado, 29 de setembro de 2012

Património Mundial e Cultural da Humanidade


Fundada em Novembro de 1945, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), tem como objectivo contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações.
Uma das suas atividades iniciais no campo da cultura foi a Campanha da Núbia, lançada em 1960 com o objectivo de salvaguardar o Grande Templo de Abu Simbel e vários outros complexos arquitectónicos no Egipto, da destruição inevitável que a construção da Barragem de Assuão lhes causaria.
O trabalho da Organização sobre o Património levou à adopção, em 1972, da Convenção sobre a Protecção do Património Mundial Cultural e Natural, através de um tratado internacional que envolve mais de 150 países. O Comité do Património Mundial foi criado em 1976 e as primeiras classificações inscritas na Lista do Património Mundial em 1978.
O programa de classificação visa catalogar e preservar locais de excepcional importância cultural ou natural, obras incontornáveis e recantos do Globo onde a natureza ou a mão humana geraram paisagens e obras que fazem parte da nossa herança colectiva.
Os locais da lista podem obter fundos do World Heritage Fund sob determinadas condições.
A conservação do património mundial é um processo contínuo. Se um país não protege os locais inscritos, corre o risco de que esses locais sejam retirados da Lista do Património Mundial. Os países devem informar periodicamente o Comité do Património Mundial sobre o seu estado de conservação.
Se o comité do Património Mundial é avisado sobre possíveis perigos para um sítio, ele é incluído na Lista do Património Mundial em Perigo, com o fim de chamar a atenção mundial sobre as condições, naturais ou criadas pelo homem, que ameaçam as características pelas quais inicialmente se inscreveu o lugar na Lista do Património Mundial
Em 2011, faziam parte desta lista cerca de 936 lugares, sendo 725 culturais, 183 naturais e 28 mistos, em 153 países diferentes.
Fazendo, portanto, parte da nossa História ao longo dos séculos, incluirei alguns destes locais nas minhas próximas mensagens, dentro da rubrica “Lugares com História”, começando pelas Igrejas Rupestres de Ivanovo, na Bulgária, onde se pode apreciar a pintura búlgara medieval no seu melhor.
Fontes e imagem: www.wikipedia.org

domingo, 25 de setembro de 2011

Lalibela, ou a Nova Jerusalém


Nas montanhas escuras de Wallo, no norte da Etiópia, ergue-se uma obra-prima de pedra viva. Onze igrejas monolíticas escavadas nas rochas de basalto vermelho dos montes de Amhara por volta do ano de 1200, construídas com a intenção de representarem a Terra Santa. Divididas em dois grupos, estão separadas por um canal simbolizando o Rio Jordão, mas unidas entre si por redes de trincheiras e túneis, decoradas internamente com deslumbrantes pinturas na parede.
Ainda hoje lugares de peregrinação e de culto assinalam o ponto culminante da arte aksumita.


O reino de Aksum ou Axum, situado na costa meridional do Mar Vermelho, foi cristianizado por volta do sec. IV, quando o rei Ezana se deixou baptizar por S. Frumêncio, seu perceptor e fundador da Igreja Copta da Etiópia.
Com a invasão muçulmana no sec. VII, o reino ficou isolado do mundo bizantino, mas manteve a sua ligação com Alexandria conservando-se fiel à sua religião.
Em 1187, com a conquista de Jerusalém por Saladino, as peregrinações dos etíopes tornam-se difíceis. Nos princípios do sec. XIII, governava em Aksum o rei Lalibela (1190-1225), da dinastia Zagwe, que, segundo uma lenda concebeu o plano de construir uma nova cidade santa depois de Cristo lhe ter aparecido em sonhos. Uma grande quantidade de anjos e querubins desceu dos céus para ajudarem na construção das onze igrejas monolíticas escavadas na rocha, por volta do ano de 1200. Por este motivo uma das igrejas está dedicada aos arcanjos Gabriel e Rafael. S. Jorge, patrono do reino, foi quem dirigiu os trabalhos de escavação para edificação dos templos, tendo-os dotado de um eficiente sistema de drenagem à sua volta. A sua igreja, Bet Giyorgis, escavada de cima para baixo, é a única em forma de cruz.


Esta cidade, então chamada Roha, passou a designar-se Lalibela em homenagem aos trabalhos realizados pelo rei. Embora haja mais destes templos espalhados pelo interior da província, não se podem comparar com os de Lalibela em ornamentação e acabamentos.
O padre português Francisco Álvares, o primeiro europeu a visitar a Abissínia e que por lá ficou entre 1520 e 1526, ao descrever mais tarde aqueles monumentos, disse que em mais nenhuma parte do Mundo existiam igrejas assim! A descrição continua válida…
Construídas no estilo bizantino com as naves e as três entradas rituais, calcula-se que tiveram de ser retiradas da rocha a escopro cerca de 100.000mts. cúbicos de pedra, estando quatro das capelas totalmente separadas da encosta.
Segundo a Kebra Negast ou Nagast (uma epopeia gloriosa escrita em ge’ez por volta do sec. XIV que conta a história dos soberanos etíopes), a dinastia reinante era também herdeira da tradição israelita, pois o imperador Menelik I, sendo filho de Salomão e da Rainha de Sabá, descendia pela linha paterna da Casa de David. Além de que, no retorno da única visita que fez ao reino de Israel para conhecer o seu pai, trouxera consigo a Arca da Aliança onde se encontravam guardadas as Tábuas da Lei dadas por Deus a Moisés. Estas relíquias da Cristandade foram encerradas na Igreja de Santa Maria de Sião, em Axum, onde, segundo a tradição ainda se mantêm.


chegada da Arca da Aliança (fresco)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A Catedral de S. Basílio


“Alegra-te, ó muito piedoso czar! Pela tua coragem e boa sorte alcançámos a vitória e Kazan é nossa. Que ordenas tu agora?”
E Ivan, o Terrível respondeu ao seu comandante-chefe, príncipe Miguel Vorotinski, que acabava de lhe ganhar a batalha contra os Tártaros: “Confiemos a glória ao Altíssimo”.
Na tarde de 2 de Outubro de 1552, a cidade de Kazan caía na posse dos russos, e em acção de graças pela tomada da cidade e pela vitória de Astrakhan, que afastaram o perigo mongol, o czar Ivan IV mandou construir em 1555, o monumento mais original da antiga Rússia, a Catedral de S. Basílio.
Obra de Barma e Postnik, foi terminada em 1560, sendo formada pelo agrupamento de nove capelas votivas, em estilo bizantino. As suas oito cúpulas em forma de bolbos para deixar escorrer a chuva e a neve, gravitam em torno de uma pirâmide central com 57 metros de altura, também ela coroada com um desses fantásticos bolbos. Todas estão cobertas de relevos abstractos e cores diferentes, assemelhando-se a flores mágicas de um jardim de sonho.
O revestimento a folhas de metal inicial foi substituído por uma decoração em mosaicos policromados com relevos e ocres multicolores.
Originalmente conhecida como Igreja da Trindade, foi consagrada a 12 de Julho de 1561, faz hoje 450 anos, e logo depois elevada à categoria de catedral. Cada capela votiva é dedicada a um santo, à excepção do santuário central que é dedicado à Intercessão de Maria e dos de leste (dedicado à Trindade) e oeste (Entrada de Jerusalém).
Em 1588, o czar Fiodor Ivanovich mandou construir uma nova capela sobre a tumba de S. Basílio, pelo que a catedral ficou popularmente conhecida por esse nome.
Diz a lenda que Ivan, o Terrível, mandou vazar os olhos ao arquitecto da basílica, para que não pudesse construir outra tão bela!
Símbolo terreno da Jerusalém Celeste, marca o centro geométrico da cidade de Moscovo, e sobreviveu ao ataque de Napoleão Bonaparte que ordenou a sua destruição.
Dessacralizada em 1929, é considerada desde 1990, juntamente com o Kremlin e a Praça Vermelha, Património Mundial da Unesco.

Fontes: Graham, Stephen – Ivan, o Terrível
pt.wikipedia.org
www.infopedia.pt

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Desacato de Santa Engrácia


A Maldição de Simon Solis

O Desacato de Santa Engrácia encontra fundamento nos relatos históricos da paróquia de Santa Engrácia, em cujos anais ficou registado um incidente ocorrido na noite de 15 de Janeiro do ano de 1630.
“Lisboa preparava-se em grandes festejos para celebrar o nascimento do príncipe herdeiro que receberia o nome de Baltazar Carlos e que era filho de Filipe IV de Espanha e III de Portugal. Foi nesse ambiente que se propagava a notícia do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia, que ficava perto do Convento de Santa Clara.
Incrível a comoção que causou este atroz sacrilégio, lançando-se logo pregões que nenhuma pessoa, sem nova ordem, saísse de sua casa e sem dilação decorreram por toda a cidade os ministros da justiça inquirindo com exactas diligências, que pessoas haviam saído fora na noite precedente e em que haviam estado. Achou-se que um homem ordinário, chamado Simão Pires Solis, havia estado fora e sendo perguntado onde, não respondeu a propósito, antes com grande turbação; ajuntaram-se outros indícios que caíram sobre ser homem turbulento e cristão-novo e por eles foi condenado a ser queimado vivo, cortando-lhe primeiro as mãos. A muitos pareceu acelerada e rigorosa esta sentença visto que não havia prova concludente, nem confissão do reo, mas, todavia, se executou na forma sobredita.”
Simão Solis nunca confessou o crime de que o acusavam, embora tivesse sido com toda a certeza, sujeito a tratos durante o interrogatório; antes proclamou sempre a sua inocência, sem no entanto revelar o que tinha feito naquela noite.
Soube-se depois, que Simão nessa noite rondava o Convento de Santa Clara para namorar uma religiosa chamada Violante, encerrada no convento pelo pai fidalgo, que não aceitava aquele amor. Para a não comprometer, o seu enamorado preferiu aceitar uma morte horrível.
Efectivamente, a 3 de Fevereiro de 1631, Simão foi conduzido em procissão ao Campo de Santa Clara, onde no próprio lugar do crime lhe foram decepadas ambas as mãos, sendo depois queimado vivo.
Como quem conta um conto, acrescenta um ponto, logo a imaginação popular fortemente emocionada tanto pelo roubo como pela execução, passou a misturar ficção e realidade, e assim diz-se que a caminho do suplício, o jovem Simão gritou: “Tão certo é eu estar inocente que as obras de Santa Engrácia nunca mais terminarão”.
Anos mais tarde, a freira Violante foi chamada a assistir aos últimos momentos de um ladrão que tinha pedido a sua presença. Revelou-lhe que tinha sido ele a roubar as relíquias e sabendo da relação secreta dos jovens, tinha incriminado Simão. Pedia-lhe pois que o perdoasse para poder morrer em paz.
Por maldição ou por uma série de azares, o Panteão de Santa Engrácia demorou cerca de 334 anos para ser concluído…

terça-feira, 3 de maio de 2011

Panteão de Santa Engrácia – II


Em Agosto de 1682, o príncipe regente D. Pedro, futuro D. Pedro II, lança a primeira pedra de uma nova igreja para ser edificada de raiz, com projecto da autoria do mestre pedreiro João Antunes, um dos grandes mestres do barroco português de Setecentos, que dirige as obras, até à sua morte em 1712.
O risco de João Antunes tira partido da desafogada situação paisagística do sítio, a meio da encosta defronte do Tejo, e constitui a primeira obra do barroco em Portugal. A planta é de um círculo inscrito num quadrado, ou seja, um círculo com quatro torres angulares quadradas, O seu interior em cruz grega com quatro braços de igual comprimento, terminados em semicírculos é banhado em luz, graças às janelas na base da cúpula e à clarabóia que iluminam os embutidos de mármore colorido que revestem paredes, capelas e o chão. A amplidão do espaço é valorizada pelos efeitos contrastantes do claro / escuro barroco. Embora nunca chegasse a abrir ao culto, conserva, sob a cúpula moderna, o espaço majestoso da nave, exibindo ainda um bonito órgão de tubos vindo da Sé Patriarcal e onde se pode apreciar a sumptuosidade joanina da sua talha dourada
A entrada faz-se através de um pórtico situado na fachada principal concebido pelo escultor barroco Claude Laprade e o exterior é marcado pela ondulação dos alçados com curvas e contracurvas e alternância de frontões que acentua o dinamismo exterior da massa arquitectónica. Decoram o edifício colunas de ordem dórica, jónica e compósita.
No reinado de D. João V, com o rei completamente ocupado com a construção do Convento de Mafra, as obras ficam praticamente paradas e a Confraria decide cobrir a igreja com uma cúpula de madeira que aí se manteve até ao sec. XX.
Com todas estas demoras, a imagem de Santa Engrácia foi levada para a Igreja do Paraíso, onde se celebrava o seu culto.
O terramoto de 1755 reduz a ruínas a Igreja do Paraíso e danifica também a de Santa Engrácia. Com toda uma cidade para reconstruir, estas obras ficam esquecidas, e o culto à Santa passa para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Porciúncula, na Calçada dos Barbadinhos, onde ainda hoje se celebra e que por isso também é conhecida como a Igreja de Santa Engrácia.
Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834, a Igreja é entregue ao Exército, que a utiliza como quartel, depósito de material de guerra e fábrica de calçado e fecha a cúpula com uma tampa de ferro.
Com a queda da monarquia e implantação da Republica era necessário um panteão para albergar os túmulos dos Chefes de Estado, e o Governo lembrou-se de Santa Engrácia. Deram-lhe um arranjo e em 1916 foi declarada Panteão Nacional, por uma lei de 29 de Abril.
Já com o Estado Novo, Duarte Pacheco, o então Ministro das Obras Públicas resolve pôr termo à maldição, e em 1956 são aprovadas as novas obras de restauração, que lhe acrescentam uma abóbada com lanternim. De 1962 a 1966 são concluídas com o assentamento da cúpula projectada pelo arquitecto Amoroso Lopes e com a execução das estátuas de Santa Isabel e São Teotónio ladeando Santa Engrácia no pórtico da entrada, e as de Nuno Álvares Pereira, S. João de Brito, S. João de Deus e Santo António no interior do templo, da autoria de António Duarte.
A 7 de Dezembro de 1966 é finalmente inaugurado como Panteão Nacional, para o que aí trabalharam assiduamente 150 operários e técnicos a cargo do arquitecto Vaz Martins, responsável pelas obras, chegando a incorporar-se mais 30 homens para que terminassem no prazo estipulado. Era ponto de honra que fosse inaugurado no mesmo ano da Ponte sobre o Tejo, ex-António de Oliveira Salazar e hoje Ponte 25 de Abril.
Na nave encontram-se os cenotáfios de Luís de Camões, Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, Infante D. Henrique e Pedro Álvares Cabral.
Os túmulos de João de Deus, Almeida Garrett, Guerra Junqueiro e Aquilino Ribeiro (este com alguma contestação, por estar alegadamente ligado ao regicídio) encontram-se na Sala dos Escritores, os dos Presidentes da República Manuel de Arriaga, Teófilo de Braga, Óscar Carmona, Craveiro Lopes, na Sala dos Presidentes, o do general Humberto Delgado sozinho numa outra sala, e o túmulo do presidente Sidónio Pais no mesmo espaço que fadista Amália Rodrigues (Sala da Língua Portuguesa), a única mulher até hoje a merecer esta honra e para quem a Assembleia da República decidiu encurtar para dois anos o prazo de quatro após a morte, para a transladação.
Com a lenda da maldição de Simão Solis terminarei a história do Panteão Nacional.

Fontes: www.monumentos.pt
www.igespar.pt
wikipedia.pt
Dias, Marina Tavares – Lisboa Misteriosa
Saraiva, José Hermano – Lugares Históricos de Portugal
Imagens: internet

terça-feira, 19 de abril de 2011

Panteão de Santa Engrácia – I


Dominando Lisboa a Oriente, do alto de uma das suas sete colinas, o Panteão é o mais antigo templo barroco do país. Coroado por um zimbório e com o chão pavimentado de mármore colorido, está construído no local onde foi erguida a primitiva igreja de Santa Engrácia, da qual nada resta. As obras desta igreja-panteão começaram em 1631 e só terminaram em 1966, 335 anos depois, o que deu origem à expressão “Obras de Santa Engrácia” para designar algo que nunca mais se acaba, ou será que a “maldição” de Simão Solis, também contribuiu para esta demora?...
O culto a Santa Engrácia, cujo martírio descrevemos na mensagem anterior, deve-se à Infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel I, que tinha uma grande devoção por esta Santa da qual possuía uma relíquia. Pensou assim erguer-lhe uma igreja perto do Mosteiro das Clarissas que ela frequentava, situado no Campo de Santa Clara, e onde hoje se realiza a Feira da Ladra. O Mosteiro edificado em 1294 foi completamente destruído pelo terramoto de 1755.
Para tal, pediu a Infanta autorização ao Papa Pio V, que através de um Breve datado de 30 de Agosto de 1568, criou a Paróquia de Santa Engrácia.
A princesa, uma das mulheres mais rica e cultas do seu tempo, mandou então edificar a igreja fora das muralhas Fernandinas, perto de uma das suas portas de entrada, a Porta de Santa Cruz, pois em Saragoça, onde a Virgem Santa Engrácia tinha sofrido o martírio, a igreja levantada no local da sua morte, também ficava fora das muralhas que cercavam a cidade.
Desta igreja primitiva, construída por Jerónimo de Ruão nada resta. Por ser muito pequena, durante o reinado de Felipe I foi reconstruída pelo arquitecto Nicolau Frias. Em 1630, depois de sofrer obras de restauro na capela-mor, foi alvo de um roubo sacrílego conhecido como “O desacato de Santa Engrácia” cujo desfecho emocionou toda a gente.
Segundo consta, na noite de 15 de Janeiro de 1630 alguém se introduziu na capela, roubando objectos de ouro do culto e profanando o sacrário do altar da Santa. Imediatamente foram feitas todas as diligências para se encontrar o culpado, sendo acusado deste sacrilégio um tal Simão Peres Soles ou Solis, cristão-novo, a quem a Inquisição condenou à morte na fogueira. A 13 de Fevereiro, Simão Solis é levado em procissão até ao Campo de Santa Clara, e no próprio local onde supostamente executou o roubo lhe são decepadas ambas as mãos, sendo depois queimado vivo. Diz a lenda que, antes de morrer, declarou que estava inocente tão certo como as obras de Santa Engrácia nunca terem fim!
Em consequência desta profanação, 100 nobres portugueses fundam a Irmandade dos Escravos do Santíssimo Sacramento, que como forma de desagravo, resolvem mandar construir nova capela-mor, o que levou à destruição da anterior. São também instituídas as Festas do Desagravo a celebrar anualmente em Janeiro e presididas pela Família Real. A nova capela, da autoria de Mateus do Couto (Velho), tem a primeira pedra lançada em 1632, mas numa noite tempestuosa de 1681, a cúpula desaba com grande estrondo derrubando também algumas paredes da antiga igreja quinhentista, facto que impressionou os alfacinhas lembrando-os da maldição de Simão.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Jardim do Príncipe Real

Quem passa pelo Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, provavelmente não imagina a movimentada história que possui, desde os tempos em que no sec. XVI., aqueles terrenos eram chamados de “Chãos da Ferroa”, ou “Alto da Cotovia”, e considerados a lixeira do Bairro Alto.
No sec. XVII, João Gomes da Silva Teles, filho do Marquês de Alegrete, recebe através do seu casamento, o Condado de Tarouca, onde se incluíam os terrenos do Alto da Cotovia. Resolve construir ali um palácio luxuoso, que acaba em ruínas por não ter sido concluído, ficando o local, em 1740, novamente para lixeira.
As terras são depois vendidas á Companhia de Jesus, que mandando limpar o terreno, inicia a construção do Colégio das Missões, completamente destruído mais tarde pelo terramoto de 1755, ficando de novo tudo em escombros, sendo aí montados acampamentos para os regimentos militares a quem o Marquês de Pombal encarregara da limpeza e segurança da cidade, e onde permaneceram por vários anos, tendo ali sido erguida uma das forcas da cidade.
É também ali instalada provisoriamente a Paróquia da Encarnação, e, mais tarde, constrói-se a nova Sede Patriarcal, onde se chega a dizer missa num barracão montado para o efeito, mas em 1769 um violento incêndio criminoso deixa-a em ruínas, passando o local a ser conhecido por “Patriarcal Queimada”. O seu autor foi Alexandre Francisco Vicente, ali empregado, que assim encontrou forma de esconder os roubos praticados, e também de ficar sem as duas mãos, punição que lhe foi aplicada no próprio local por tão sacrílego crime.
Em 1789, resolve-se aproveitar o local para construir o edifício do Real Erário, a Tesouraria Central do Reino, por proposta do Visconde de Vila Nova de Cerveira, ministro da Fazenda no reinado de D. Maria I. Considerada demasiado dispendiosa, apenas são construídas duas fiadas de cantaria acima do terreno, sendo o projecto abandonado, ficando novamente para entulho, até que em 1835 os terrenos são entregues à Câmara Municipal de Lisboa.
Finalmente, em 1856 é projectado o Reservatório de Água da Patriarcal, cujas obras terminam em 1864, sendo em 1859 executada a construção do grande tanque, um projecto da autoria do engenheiro francês Mary. Recebendo inicialmente as águas do Aqueduto das Águas Livres, foi na época o mais importante tanque no sistema de distribuição de água realizada para a baixa da cidade. O reservatório subterrâneo do tanque, com ligações aos chafarizes do Século, do Loreto e de S. Pedro de Alcântara, apresenta 31 pilares com 9,52 m. de altura, sobre os quais assentam os arcos da abóbada que suporta o lago exterior. Faz parte do Museu de Água da EPAL, e pode ser visitado pelo público.
Em homenagem ao herdeiro do reino, o futuro D. Pedro V, dá-se-lhe o nome de Praça ou Largo do “Príncipe Real”.
Dez anos mais tarde, em 1869, passa a dispor de iluminação, sendo também ajardinado segundo o projecto de João Francisco da Silva, que juntamente com Bonnard, o jardineiro do reino contratado pelo rei D. Fernando II, também tinha desenhado o Jardim da Estrela.
É um jardim de traçado romântico inglês, com uma área de 1,2 hectares, apresentando uma planta trapezoidal, com percursos sinuosos entre canteiros de plantas e flores multicores, rodeando um grande tanque octogonal, cujo desenho deriva da forma de uma parte do edifício do Real Erário que nunca chegou a ser construída, tendo ao centro, um repuxo.
Nele se destacam várias espécies de árvores, 6 das quais foram classificadas de interesse público, salientando-se o enorme cedro-do-Buçaco, o ex-libris da praça, com 20 metros de diâmetro.
Com a queda da monarquia, o Jardim passa a chamar-se Praça Rio de Janeiro entre 1911 e 1919, sendo oficialmente designado em 1925 por Jardim França Borges, em homenagem a este jornalista republicano. Mais tarde, o seu antigo nome de “Príncipe Real” volta a ser retomado, e actualmente é conhecido por qualquer destas designações.
De 1950 a 1960 funcionava ali, uma biblioteca municipal móvel, e de 1963 a 1970, durante grande parte do Verão, uma feira.
Além de um parque infantil, possui também mesas de jogos, esplanadas, quiosques, bebedouros, realizando-se ali vários eventos, em que o mercado semanal (aos sábados), de produtos de agricultura biológica é um deles.
Ornamentado por obras de estatuária, podemos apreciar o monumento ao jornalista França Borges, feito por Maximiano Alves, constando de um medalhão de bronze com a efígie do jornalista e a figura da República, um busto do Dr. Sousa Viterbo, da autoria de Francisco dos Santos, e uma escultura em memória do 1º centenário da morte do poeta Antero de Quental, colocada no jardim em 1991, da autoria de Lagoa Henriques.
É também citado, tanto na literatura estrangeira como na nacional, por escritores como John Le Carré, em “A Casa da Rússia”, ou por Eça de Queirós, no seu famoso romance “Os Maias”.

Fontes: França, José Augusto – Lisboa Pombalina e o Iluminismo
Revista Jardins, nº 92
Museutransportesmunicipais.cm-lisboa.pt
Aps-ruasdelisboacomhistoria.blogspot.com
e.cultura.pt
purl.pt

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Basílica dos Mártires e Fernando Pessoa


Quem hoje passa pela Basílica dos Mártires, na Rua Garrett ao Chiado, provavelmente já nem se recorda que aqui foi baptizado um dos nossos maiores poetas, Fernando Pessoa, além do infante D. João, mais tarde D. João V, e Frei Bartolomeu dos Mártires entre outros.
A igreja é a mais antiga da baixa lisboeta, embora fosse trasladada depois do terramoto, para o local onde está actualmente. No início foi apenas uma pequena ermida levantada em 1147 no monte Fragoso, actual Alto de S. Francisco, por voto de D. Afonso Henriques, após a tomada de Lisboa, no local onde foram enterrados os cruzados ingleses, que deram a vida por essa conquista, e onde já existia uma necrópole moçárabe. A imagem da Virgem que o rei doou à ermida, vinha com a expedição dos Cruzados que ajudaram à conquista. O povo começou a chamar-lhes mártires, ficando a padroeira conhecida como Nossa Senhora dos Mártires. Nesta ermida celebrou-se o primeiro baptismo feito depois da conquista.
Com o passar dos anos, foi restaurada três vezes, uma em 1589, a 2ª em 1664, e a 3ª em 1746 que durou até 1750. No final do sec. XIV foi elevada a Basílica pelo Papa Urbano XIV.
Com o terramoto de 1755 tudo ruiu, incluindo o belíssimo tecto pintado por Francisco Vieira Lusitano, salvando-se a imagem da padroeira, a pia baptismal e um ossário em talha dourada, com ossadas de alguns daqueles combatentes, e que agora serve de peanha à estátua de S. Miguel Arcanjo, e pouco mais. Os escombros ficaram nos caboucos da nova basílica, construída em 1769, na actual rua Garrett. Neste lugar existia já a ermida do Bom Jesus do Perdão, que foi incorporada na nova igreja, restando ainda um crucifixo, muito venerado, exposto ao culto.
É uma igreja de estilo barroco tardio, feita de raiz, da autoria do arquitecto Reinaldo Manuel dos Santos. Sobre o pórtico central está um medalhão redondo comemorativo da dedicação do templo primitivo, que representa D. Afonso Henriques dando graças à Virgem, tendo a seu lado Guilherme da Longa Espada chefe dos Cruzados, obra de Francisco Leal Garcia. A pintura do tecto do corpo da igreja, assim como das oito capelas laterais são obra do pintor Pedro Alexandrino.
Diz Mário Costa no seu livro O Chiado pitoresco e elegante: “Foi há 100 anos atrás o local de reunião de “Toda a Lisboa”, que vinha assistir aos actos litúrgicos, conviver e ouvir música. Junto com a igreja da Encarnação e a do Loreto, formam uma trindade sacra numa zona de tertúlias e boémia…”.
Tendo nascido a 13 de Junho de 1888, no Largo de S. Carlos, onde moravam os seus pais, Fernando Pessoa foi nesta igreja baptizado a dia 21 de Julho do mesmo ano. O toque dos sinos do campanário da basílica, embalaram-no até aos 5 anos, altura em que após a morte de seu pai muda de casa, e com o segundo casamento da mãe embarca para a África do Sul, onde tem de dividir o seu afecto com o padrasto e mais quatro irmãos nascidos desse matrimónio.
Após o seu regresso, publica em 1914 o poema “Ó sino da minha aldeia”, um retorno nostálgico aos dias felizes da sua infância, quando morava no largo de S. Carlos, à época em que o pai ainda era vivo, e como filho único era “o menino da sua mãe”. O espaço entre o Largo de S. Carlos e a Igreja dos Mártires é considerado neste poema como a sua “aldeia”, e o “sino” que “lhe soa dentro da alma” recorda-lhe a passagem dolorosa do tempo. Um dos seus percursos habituais era até ao Largo do Chiado para beber um café na “ Brasileira”. Será que é a este percurso que o poeta se refere quando diz “Quando passo sempre errante”?

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto,
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa


Fontes: www.snpcultura.org
Costa, Mário: O Chiado pitoresco e elegante