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domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Tratado das Terçarias de Moura



Simultâneamente e para servir de base ao acordo de paz alcançado pelo Tratado das Alcáçovas, essencialmente político, redigiu-se o chamado Tratado das Terçerias ou Terçarias de Moura, em que se definiam as questões referentes à crise dinástica castelhana, além de registar as garantias de paz dadas por cada uma das partes.
”Terçaria” significa caução ou depósito à guarda de outrem, neste caso “o depósito” seriam crianças, quase como se fossem reféns.
As condições eram um tanto duras para qualquer dos lados, mas principalmente para D. Joana de Trastâmara, a quem os castelhanos chamavam de “empecilho” e que, através deste acordo era definitivamente arredada da linha sucessória ao trono castelhano.
Vale a pena realçar que estes acordos foram elaborados, nas suas linhas gerais, por duas das mulheres mais poderosas do seu tempo que, apercebendo-se da indecisão em acabar com um conflito que arruinava economicamente os dois reinos, se sentaram frente a frente e levaram a bom termo as negociações que culminariam numa paz honrosa e na satisfação das ambições pessoais dos soberanos castelhanos e do futuro rei de Portugal, D. João II.
Pelo lado português, a infanta D. Beatriz, duquesa de Viseu, cunhada de D. Afonso V e ao mesmo tempo, tia e sogra do príncipe herdeiro português; pelo lado espanhol, sua sobrinha, a própria rainha de Castela, Dona Isabel, filha da irmã mais velha de D. Beatriz, a infanta Isabel de Portugal, 2ª esposa do rei D. João II, de Castela.
(A “Excelente Senhora”, embora também sua sobrinha. era filha de D. Joana, cunhada da duquesa de Viseu”).
Em todo este processo, D. Afonso V nem sequer foi ouvido. A 15 de Abril de 1479, delega todos os poderes do reino em seu filho e herdeiro, excepto o cargo de protector da Universidade que reserva para si, retirando-se assim não só da vida activa, como de qualquer participação no futuro da sua jovem esposa.
Como primeira condição, sem a qual não haveria qualquer negociação, Isabel de Castela exigia que “la muchacha”, ou seja, D. Joana, renunciasse a todo e qualquer título real (infanta, princesa, rainha), uma vez que não a considerava filha de rei, nem que o casamento de seus pais tivesse sido canonicamente válido. Tudo o resto era passível de acordo.
Assim, ficou consignado que:
D. Afonso, primogénito (e único filho sobrevivente, 1475-1491) de D. João, príncipe herdeiro de D. Afonso V (e futuro D. João II, 1481-1495) casaria com D. Isabel, filha mais velha dos Reis Católicos de Espanha. Do seu dote metade do valor revertia para indemnizações do montante gasto por D. Afonso V nas guerras com Castela, ficando a verba restante passível da sua restituição aos Reis Católicos caso não se cumprisse o estipulado no acordo preliminar.
A Excelente Senhora, então com 17 anos de idade, casaria com o filho varão mais velho dos Reis Católicos, D. João (apesar deste ainda ter apenas 1 ano de idade), quando este atingisse os 14 anos (e ela então 31…), passando a partir deste matrimónio a poder intitular-se "princesa" e recebendo uma avultada verba como direitos senhoriais.
Se D. João, filho dos Reis Católicos, recusasse desposar D. Joana, era-lhe levantada a terçaria e receberia de Espanha uma indemnização.
Caso o príncipe morresse antes do casamento se realizar e houvesse outro filho varão, D. Joana casaria então com este, caso ela, na altura, não excedesse os vinte anos de idade.
Poderia renunciar a este casamento, mas perderia então o direito ao dote e às arras prometidas, e seria obrigada a ficar em terçaria ou entrar para um convento.
A partir do momento em que entrasse em terçaria, a Excelente Senhora renunciaria a todos os títulos que reclamava para si, ou que lhe tivessem sido dados pelo rei de Portugal.
Caso ela preferisse, poderia optar de imediato pela vida religiosa – nomeando-se os conventos que a deveriam receber – comprometendo-se a não interferir nos assuntos castelhanos. Se resolvesse quebrar a clausura, reentrava imediatamente em terçaria. A sua deslocação só seria permitida em caso de peste ou de algum perigo que ameaçasse a sua vida, mas teria de ser dada imediata informação oficial aos Reis Católicos.
Neste regime foi estipulado que ficariam também D. Afonso (o filho de D. João II) e D. Isabel (filha dos Reis Católicos), até que todas as cláusulas do Tratado de Alcáçovas fossem cumpridas.
Os três ficariam sob a vigilância e educação da Infanta D. Beatriz de Viseu. Como garantia, esta infanta entregaria à guarda dos Reis Católicos o seu filho mais velho, D. Diogo, Duque de Viseu. Como este adoeceu, em seu lugar foi enviado o seu irmão mais novo, o infante D. Manuel, até que D. Diogo se restabelecesse.
Em regime de terçaria, conforme estipulado no Tratado, nenhum dos três infantes podia ser vez alguma visitado nem por D. Afonso V, nem pelo príncipe D. João ou pelos Reis Católicos. Para este efeito foi escolhida a vila raiana de Moura, propriedade da duquesa de Viseu.
Joana optou pela vida monástica em 1480, ingressando nas Clarissas, recusando assim, novamente, a redução a terçaria. Dois anos depois, em 1482, abandonou o estado claustral, com D. João II, já rei, que lhe deu estatuto de rainha e casa senhorial com título e direitos, que manteve durante os reinados seguintes de D. Manuel I, que muito a estimava, e de D. João III, a quem nomeou como seu herdeiro, ao falecer.
Apesar de os reis de Castela obrigarem em 1483 D. João II a jurar que não deixaria que D. Joana contraísse matrimónio, saísse de Portugal ou abandonasse a vida religiosa, o certo é que vários casamentos lhe foram apresentados e que sempre recusou.
Toda esta liberdade inspirou tal receio aos Reis Católicos que, quando D. Manuel I subiu ao trono, para evitar um possível matrimónio entre ambos e a consequente reclamação do reino castelhano, estes lhe deram em casamento, sucessivamente, duas das suas filhas!
E em 1505, já viúvo de Isabel de Castela, o astucioso Fernando de Aragão, a contas com um complicado sistema de regência e nada interessado em ceder a coroa a sua filha e herdeira Joana, casada com Felipe, o Belo, pede a Excelente Senhora em casamento, para, em seu nome, assegurar a sucessão do mesmo reino de onde, anos atrás, com tanta dureza e crueldade a tinham afastado…

Fontes: Gomes, Saúl António – D. Afonso V
Oliveira, Ana Rodrigues – Rainhas Medievais de Portugal
www.infopedia.org

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Tratado das Alcáçovas


Ainda a “Excelente Senhora”

A participação activa de D. Afonso V na Guerra da Sucessão de Castela, em apoio de sua sobrinha D. Joana, que desposou, e intitulando-se Rei de Castela, veio reabrir os diferendos ainda não totalmente sanados entre os dois países, após o desfecho da batalha de Aljubarrota em 1385.

Em retaliação, os Reis Católicos intitularam-se também Reis de Portugal, e as investidas bélicas tanto em terra como no mar foram-se sucedendo, sendo os castelhanos incentivados pelos seus soberanos a explorarem os recursos de pesca e outros principalmente nas zonas da Guiné e Cabo Verde, e premiando a captura das naus portuguesas que sulcavam aqueles mares, com evidente prejuízo para o comércio marítimo de Portugal. Foi assim que perdemos a caravela Boa Vista, cujo quinto foi avaliado em 1477 em 11.200 maravedis.

Todas estas escaramuças tornaram a guerra inevitável e a 2 de Março de 1476 teve lugar a Batalha de Toro, perto da localidade do mesmo nome, na província de Zamora, cujo resultado, embora com vitórias e derrotas de ambos os lados, não foi favorável às pretensões portuguesas.

Depois de uma tentativa falhada de conseguir uma ajuda militar por parte de Luís XI, rei de França, para os seus objectivos, D. Afonso V regressa a Portugal desiludido, e deixa nas mãos de seu filho, o príncipe D. João, os poderes necessários para negociar a paz com Castela.

A 4 de Setembro de 1479 é firmado nos Paços dos Henriques, em Alcáçovas, no Alentejo, pelos representantes de Portugal e Castela um acordo, que ficou conhecido como o Tratado de Alcáçovas, pondo fim à Guerra de Sucessão de Castela (1475-1479).

Este tratado foi ratificado pelo rei de Portugal em 8 de setembro de 1479, confirmado por Isabel I na cidade de Trujillo, a 27 do mesmo mês (Fernando de Aragão estava ausente do reino devido à morte do seu pai), e ratificado pelos Reis Católicos em 6 de março de 1480, na cidade de Toledo, pelo que também ficou conhecido como Tratado das Alcáçovas-Toledo.

Além de formalizar o fim das hostilidades (pelo qual Joana, a Beltraneja, ou A Excelente Senhora, e seu tio e marido Afonso V de Portugal, desistiam para sempre das suas pretensões ao trono de Castela), e reconhecer os dois reinos como entidades independentes, o Tratado continha outras cláusulas concernentes à política de projeção externa de ambos os países, num momento em que os dois reinos competiam pelo domínio do Oceano Atlântico e das terras até então descobertas na costa africana.

Por essas cláusulas, Portugal obtinha o reconhecimento do seu domínio sobre os Arquipélagos da Madeira, dos Açores, de Cabo Verde, do senhorio da costa da Guiné com o ouro da Mina, e a exclusividade sobre a conquista do reino de Fez.

Castela ficava com a soberania sobre as ilhas Canárias (pondo fim a um diferendo que se arrastava desde o reinado de D. Afonso IV), renunciando a navegar ao Sul do cabo Bojador, ou seja, do Paralelo 27 no qual se encontravam as próprias ilhas, e a exclusividade da conquista do reino islâmico de Granada.

Acordava-se também na mútua devolução de povoações e territórios, bem como na dos prisioneiros de ambos os países e a restituição de bens e mercês àqueles a quem haviam sido confiscados. Fixavam-se as indemnizações devidas pelas destruições feitas durante a guerra e a destruição de fortalezas entretanto construídas para o efeito.

O Tratado foi o primeiro do género, que regulamentava a posse de terras ainda não descobertas. Reflectia o interesse de Portugal em garantir os seus direitos sobre a costa da Mina e o Golfo da Guiné, assim como o prosseguimento da sua exploração da costa africana, na premissa de que por aquela via se conseguiria a esperada passagem para as Índias.

Em paralelo ao tratado das Alcáçovas negociaram-se as chamadas Tercerias de Moura, que resolviam a questão dinástica castelhana e o destino a dar à ex-rainha de Castela e Portugal, a infeliz Joana de Trastâmara, denominada pelos castelhanos de “A Beltraneja”, e pelos portugueses como “ A Excelente Senhora”.

 

Gomes, Saul António – D. Afonso V, ed. Temas e Debates, col. Reis de Portugal.
Ramos, Rui – Monteiro, Nuno Gonçalo – Sousa, Bernardo Vasconcelos e – História de Portugal, vol.2 – ed. Expresso.

 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A Excelente Senhora – IV


… “deixou o título de rainha, e tomou o nome de D. Joana, e despiu o seu corpo dos brocados e sedas que trazia, e vestiram-na com os hábitos pardos de Santa Clara. Tiraram-lhe da cabeça a Coroa Real de Castela e Portugal de que era intitulada, cortaram-lhe os seus cabelos como a uma pobre donzela, e por maior agravo e mágoa, não lhe deixaram os servidores de seu gosto e vontade, nem nada que tivesse imagem d’estado”.

Foi assim que Rui de Pina, nas suas Crónicas, se refere à entrada de D. Joana, a 6 de Outubro de 1479, no Convento de Santa Clara de Santarém, dando início ao estipulado nos acordos assinados em Alcáçovas. Por duas vezes é deslocada para outros conventos devido aos surtos de peste que assolaram o país, até que no verão de 1480 é conduzida pelo príncipe D. João para Santa Clara de Coimbra onde, a 15 de Novembro desse mesmo ano, acabado o noviciado, pronuncia os votos solenes na presença do príncipe herdeiro português e dos embaixadores castelhanos enviados pelos Reis Católicos.

Não foi sem uma certa revolta que a infanta se resolveu a professar, mas D.João, para quem a razão do Estado justificava este sacrifício, pressionou-a “com esperanças de futuro bem e com palavras assy brandas e prudentes”. Confiando no príncipe, D. Joana acedeu.

D. Afonso V esteve sempre afastado deste processo, mas a 21 de Outubro desse ano, contrariamente ao acordado em Alcáçovas, resolve restituir o título de infanta a D. Joana:

“A nós praz que a muito excelente Senhora Dona Joana, minha muito prezada e amada sobrinha, haja daqui em diante e goze de todas as honras, privilégios, liberdades e franquezas que sempre houveram e de que sempre gozaram as infantas, filhas dos reis destes reinos”. Apenas o título de “Excelente Senhora” lhe foi concedido.

Em 1481 morre de peste D. Afonso V no palácio de Sintra, no mesmo quarto onde nascera quarenta e nove anos antes. Sobe ao trono seu filho, o rei D. João II e nesse mesmo ano já a Excelente Senhora se não encontrava no convento, tendo regressado a Abrantes, para grande inquietação dos Reis Católicos que em 1483 pediram ao Papa a emissão de uma bula que a proibisse sair do convento. Como D. João II não fizesse caso da bula papal, foi redigido outro acordo em como este jurava que não lhe permitiria casar, sair de Portugal ou abandonar a vida religiosa.

Durante toda a sua longa vida, D. Joana constitui sempre um perigo para os reis de Espanha e um trunfo para os reis portugueses que lhe proporcionaram, como diz Damião de Góis, Casa e estado de rainha, recusando sempre entregá-la a Castela.

Em 1505, depois da morte de Isabel, a Católica, o seu viúvo Fernando de Aragão propôs casamento a D. Joana, que recusou.

Atravessou os reinados de D. João II, de D. Manuel I, que a mandou vir de Abrantes para Lisboa, onde viveu nos Paços da Alcáçova, e a quem os Reis Católicos com receio de um possível enlace entre eles, ofereceram ao rei português a mão da sua filha mais velha, Isabel, e após a morte desta, a mão da segunda. Em 1522, reinando já D. João III, e por achar que já não estava em idade para casar e ter filhos, nomeou-o herdeiro dos seus direitos, assinando o documento como: Yo, La Reina.

Faleceu a 28 de Julho de 1530, aos 68 anos de idade, nos Paços da Alcáçova e foi sepultada no Mosteiro de Santa Clara de Lisboa, num jazigo junto à sala capitular, embora no seu testamento tivesse pedido para a sepultarem no Convento de Santo António do Varatojo, com o hábito de S. Francisco. Os reis portugueses puseram luto em sua homenagem e em 1545, a rainha D. Catarina mandar-lhe-ia construir um túmulo mais adequado à sua condição de “Rainha de Castela e Leão”.

Mas porque Deos nom padece engano por castigo, a infeliz Beltraneja pôde assistir em vida ao ruir das ambições dinásticas dos que tanto mal lhe fizeram. D. João II viu morrer o seu único filho, D. Afonso, logo após o tão ambicionado casamento com a infanta Isabel de Espanha, sem deixar herdeiros, ficando o trono para um ramo colateral. Isabel, a Católica, viu morrer também o seu único filho varão sem descendência, depois as outras duas filhas e um neto, ficando o trono de Castela para a sua filha mais nova, Joana, cuja demência fez com que a encerrassem ainda jovem, no castelo de Tordesilhas para o resto da sua também longa vida.

 Fontes: Gomes, António Saul – D. Afonso V
Serrano, Joana Bouza – As Avis
Oliveira, Ana Rodrigues – Rainhas Medievais de Portugal
Arteaga, Almudena de – A Beltraneja
Cassotti, Marsílio – A Rainha Adúltera
Crónicas de Rui de Pina
www.wikipedia.org

 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Excelente Senhora – III


“D. Joana, pela graça de Deus, rainha de Castela, de Leão, de Portugal, de Toledo, de Sevilha, de Córdova, de Múrcia, de Jaén, do Algarve, de Algeciras, de Gibraltar, Senhora de Viscaya e de Molina”.

Contando com o apoio dos nobres castelhanos partidários de Joana, e com promessas de auxílio de Luís XI, rei de França, D. Afonso V entra em Castela com o seu exército, tendo-se entretanto efectuado o casamento por procuração no Castelo de Trujillo, pertencente ao marquês de Vilhena, tutor da infanta. Findo este, foi a princesa conduzida a Palência, em cuja catedral se celebrou solenemente o matrimónio e onde pela primeira vez D. Joana, com apenas 13 anos de idade, se encontrou com o seu tio e marido, 40 anos mais velho…

Embora D. Afonso V se tenha casado com a sobrinha ao abrigo de uma dispensa papal expedida por Pio II, que lhe permitia fazê-lo “com mulher livre, solteira e não raptada”, e legitimando os filhos que viessem a nascer, imediatamente se enviou um pedido ao papa Sisto IV, para que fosse passada outra mais específica, dados os laços de consanguinidade que uniam os nubentes.

Apesar de o matrimónio não poder ser consumado devido à pouca idade da noiva, procedeu-se à entronização dos cônjuges como Reis de Castela e Leão, após o que os seus adversários, Isabel e Fernando de Aragão, se passaram a intitular Reis de Portugal.

Com Castela dividida entre duas rainhas, uma apoiada por Aragão e a outra auxiliada por Portugal, depressa se chegou ao confronto armado. Em 1476, a batalha de Toro, perto de Zamora, pôs fim às ilusões de Joana…D. Afonso V, apesar de ter jurado nunca a retirar dos seus reinos, prometendo-lhe conquistá-los e pacificá-los, entendeu por bem abandonar Castela e regressar a Portugal com a sua jovem mulher para preparar uma nova invasão.

A nova rainha de Portugal é escoltada até Abrantes pelo príncipe D. João, onde fica completamente afastada da corte e do rei, que entretanto se deslocara a França em busca de auxílio militar, tanto de Luís XI como do duque da Borgonha, Carlos o Temerário, filho de sua tia Isabel, assim como da intercessão destes junto do papa para que a bula requerida para a consumação do matrimónio fosse expedida. Mas o caracter fraco e indeciso do rei de Portugal assim como a sua boa-fé foram aproveitados pelo monarca francês para se livrar do seu principal inimigo, o duque da Borgonha, assinando depois um acordo com Isabel e Fernando de Aragão, retirando o seu apoio ao rei português.

Por sua vez Sisto IV, pressionado pelos reis castelhanos, não envia a bula requerida, e o monarca português, velho, gasto e cansado, resolve abdicar do trono, mandando que seu filho seja o rei, partindo para Jerusalém com a intenção de consagrar a sua vida a Deus!

E a jovem D. Joana? Duas vezes rainha, por nascimento e por matrimónio, esbulhada do seu reino de Castela ao qual nunca mais voltaria, a sua situação em Portugal era bastante incómoda. Rainha consorte ainda à espera da legitimação e consumação do matrimónio, afastada de uma corte que não a queria, abandonada pelo marido vivia em Aveiro junto de sua prima e enteada, também chamada Joana, à espera que o seu destino se decidisse…

E a sua sorte não melhorou com o regresso de D. Afonso V ao reino. Instado pelo filho aceitou de novo a coroa, mas deixou que se entabulassem conversações com Castela tendo em vista a reconciliação entre os dois reinos e o que fazer de D. Joana. Por Portugal, foi a infanta D. Beatriz, cunhada do rei português e tia da jovem rainha que conduziu as negociações junto da representante de Castela, a outra tia da infanta, a própria rainha D. Isabel.

O Tratado de Alcáçovas, também chamado de Alcáçovas-Toledo, ou Paz das Alcáçovas assinado a 4 de Setembro de 1479, ratificado pelo rei de Portugal em Setembro do mesmo ano e pelos futuros Reis Católicos em Março de 1489, em Toledo, seguido das chamadas “Tercerias de Moura”, de que falaremos a seguir, põe fim a todas as ilusões que a infeliz D. Joana pudesse albergar…

Depois de pedida a anulação do seu casamento, sacrificada pela própria família aos interesses de Estado, prefere aceitar a entrada num convento do que sujeitar-se às humilhações que os tratados lhe impõem…

 

 

 

sábado, 17 de novembro de 2012

A Excelente Senhora – II


Para acabar com esses rumores, o rei permitiu um parto público, pelo que, no momento do nascimento da pequena infanta, a quem foi dado o mesmo nome da mãe, encontravam-se, além do Rei e do arcebispo de Toledo, vários senhores da grande nobreza castelhana, certificando com a sua presença conforme os costumes da época, que não havia troca de crianças e se tratava realmente do filho do rei e da rainha.

Apesar disso, e de se constar muito em segredo que a rainha teria engravidado através de fecundação assistida praticada pelo médico judeu da corte com processos rudimentares (a primeira de que se tem conhecimento), a pedido do próprio Henrique IV para quem o nascimento de um herdeiro era absolutamente vital, os boatos sobre a infidelidade da rainha aumentaram quando se soube que oito dias antes do nascimento da princesa, o rei tinha elevado D. Béltran de la Cueva a conde de Ledesma!

A partir daí, a pequena Joana passou a ser apelidada de “a Beltraneja” pela forte facção dos nobres que se opunham ao rei, o que não impediu que fosse reconhecida como herdeira do trono nas Cortes de Toledo, reunidas nesse mesmo ano.

Dois anos depois do nascimento de Joana, o monarca, incapaz de resistir às pressões dos seus opositores e para evitar maiores confrontos, aceitou nomear o seu meio-irmão Afonso, de onze anos de idade, como seu sucessor, na condição de que este casasse com a sobrinha. Desta maneira, o próprio pai reconhecia publicamente a bastardia da filha!

 Como mesmo assim as intrigas palacianas e a contestação não abrandassem, Henrique IV procurou apoio militar em Portugal, oferecendo ao rei D. Afonso V, seu cunhado e viúvo há vários anos, a mão da sua meia-irmã Isabel, negociando também o casamento do príncipe herdeiro português, João, com a sua filha Joana.

A oferta era excelente para Portugal, mas o rei português apesar de ter assinado os capítulos do contracto matrimonial em Setembro de 1465, não se deu a grandes pressas e a oportunidade gorou-se para desgosto do príncipe de Portugal, entusiasmado com esse casamento.

Mas em Castela os anos que se seguiram foram bastante conturbados, ficando a rainha e a princesa “reféns” das mais poderosas famílias que apoiavam, ou melhor, dominavam o rei. A rainha D. Joana foi entregue à guarda do arcebispo de Sevilha, acabando por se apaixonar por um sobrinho deste, de quem teve dois filhos, o que não obstou a que até ao fim da sua vida lutasse pelos direitos sucessórios da filha. Ao contrário do marido, fraco e indeciso, a rainha de Castela tinha um caracter forte e enérgico que até os seus adversários reconheciam…Contudo, esta paixão foi funesta para a sua reputação e em nada beneficiou a filha.

Em 1468 morre em Castela o infante D. Afonso vitimado pela peste, e as forças contrárias ao rei através do pacto de Toros de Guisando, impõem a infanta Isabel como herdeira do trono castelhano, ao que Henrique IV, velho e cansado, mais uma vez acedeu, com a condição de que a infanta se não poderia casar sem o seu consentimento. Novamente Joana era humilhantemente preterida, desta vez em favor da sua tia e madrinha, apenas o tutor da pequena princesa protestou junto do papa contra a exclusão da legítima herdeira. Neste pacto, o rei concordou também em separar-se da rainha, devido ao seu adultério.

Quando em 1469, o Papa Paulo II envia a bula de dispensa de impedimento de casamento devido à proximidade de parentesco, Isabel quebrou o acordo e à revelia do irmão casou-se com o príncipe herdeiro de Aragão. Furioso, Henrique IV revoga o pacto anterior e Joana volta novamente a ser declarada a legítima sucessora do trono castelhano, depois de sua mãe ter jurado de que ela era verdadeiramente filha legítima do rei, primogénita e única herdeira do reino, juramento esse feito publicamente durante uma missa celebrada para o efeito, assistida pelo rei e parte da nobreza, sendo esse juramento sacramentado pela comunhão, após o que a rainha se recolheu ao Convento de S. Francisco de Madrid.

Em Outubro de 1470 é proclamada Princesa das Astúrias e outro noivo se perfila no horizonte…Desta vez a escolha recaiu sobre Carlos, duque de Guyenne e Berry, irmão de Luís XI de França, tendo-se realizado os esponsais por procuração. Mas como diz o velho ditado – Quando a sorte é adversa nada vale ao infeliz – ainda não foi desta vez que a pequena princesa de oito anos conheceu o noivo. Em 1472 o duque morre e a dança matrimonial continua…

As atenções voltam-se novamente para Portugal, mas como o príncipe João entretanto se tinha casado com sua prima Leonor, a mão de Joana foi oferecida ao rei D. Afonso V. Enquanto as negociações decorriam, o monarca castelhano que já se encontrava doente morre em 1474, ao regressar de uma caçada, e seis meses depois morria a rainha Joana, deixando a jovem princesa entregue aos cuidados dos seus tutores, o cardeal de Espanha, o duque de Arévalo, o marquês de Vilhena, o condestável de Castela e o conde de Benavente.

Com apenas doze anos de idade, Joana encontrava-se órfã de pai e de mãe, à espera de um marido que defendesse os seus direitos à Coroa castelhana, pois assim que o rei morreu, a infanta Isabel proclamou-se como a legal sucessora ao trono, com base no testamento do seu pai, o rei João II, e na ilegitimidade da “Beltraneja”, fazendo-se jurar como rainha de Castela.

E aí o rei português acordou! Ao ver tão ao seu alcance a Coroa de Castela, o último rei cavaleiro da Idade Média em Portugal, pôs de lado o seu longo celibato de vinte e três anos e correu em socorro da sua pequena dama…

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A Excelente Senhora – I



Nascida para reinar, nunca a coroa de rainha que lhe estava destinada pousou na sua cabeça…Noiva várias vezes e depois casada, o seu matrimónio nunca foi consumado…E a sua juventude sumiu-se aos 18 anos de idade, por detrás das grades de um convento

Filha única do rei Henrique IV de Castela e da sua segunda esposa, a princesa D. Joana, irmã do rei D. Afonso V de Portugal, nasceu a 28 de Fevereiro de 1462, ao fim de sete anos de matrimónio, sendo-lhe posto o nome de sua mãe, Joana. A sua madrinha de baptismo foi a meia-irmã de seu pai, a infanta Isabel, mais tarde conhecida como “Isabel, a Católica”, que num futuro próximo lhe tomaria a coroa sem nenhum remorso.

Jurada herdeira da coroa castelhana no mesmo ano em que nasceu, é o seu próprio pai, que em 1464 lhe passa um atestado de ilegitimidade, quando, cedendo a pressões internas, nomeia herdeiro do trono a seu meio-irmão Afonso, na condição de que ele case com a sobrinha!

Tão pouca idade e já tão maus pronúncios… Mas porquê?

Recuemos um pouco no tempo…

Henrique IV, então apenas o herdeiro do trono de Castela, tinha casado aos 16 anos com Branca de Navarra, da qual se separou 13 anos mais tarde, já rei, e sem, ao que parece, conseguir consumar o matrimónio. Os rumores de impotência do rei espalharam-se pelas diversas cortes, mas isso não impediu que D. Afonso V, de Portugal, lhe cedesse a sua jovem e bela irmã em casamento. A esterilidade era sempre atribuída às mulheres,

além de que, havia prostitutas que garantiam a virilidade do monarca castelhano…e a paz com Castela era muito mais importante!

E assim, depois de obtida a dispensa papal para o casamento, visto serem primos, o matrimónio realizou-se em Maio de 1455. Mas Henrique IV proibiu que na manhã seguinte à noite de núpcias fosse exibido, como era costume, o lençol manchado de sangue atestando a virgindade da rainha e a virilidade do rei, Da virgindade da rainha, com apenas 16 anos de idade, ninguém duvidava, mas os rumores de impotência do rei foram aumentando de tom, conforme os anos passavam sem que o esperado herdeiro aparecesse.

Por sua vez, o comportamento frívolo da rainha e das suas damas não eram de molde a pacificar os rumores, pelo contrário. A rápida ascensão na corte de um jovem e atraente fidalgo chamado Beltrán de la Cueva, que tinha conquistado as simpatias do casal real, e junto de quem a rainha se divertia em saraus e torneios, assim como a deterioração das relações do rei com o seu valido, o marquês de Villena, levaram a que em breve se falasse na homossexualidade do monarca e nos amores da rainha com o novo favorito.

Henrique IV assumiu então de forma escandalosa duas relações públicas, uma delas com uma das damas da rainha, provavelmente para provar a falta de fundamentos dessas acusações, mas nenhuma delas deu “frutos”.

Quando em 1462, ao fim de sete anos de casamento, a rainha ficou finalmente grávida, foram muitos os que duvidaram da verdadeira paternidade da criança…

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ingeborg da Dinamarca

Página do saltério de Ingeborg da Dinamarca de c.1200, Chantilly, Museu Condé

Ingeborg, também chamada de Ingerburga ou Isambur, era filha de Valdemar, O Grande, da Dinamarca, e da sua esposa Sofia de Minsk. Irmã do rei Canuto VI e de Valdemar II, nasceu cerca de 1175 e a 15 de Agosto de 1193 casa com um dos reis mais poderosos da Idade Média, Filipe II, de França, de 28 anos de idade, cognominado “A Dádiva de Deus” e mais tarde de “Augusto”.
Já viúvo de Isabel de Hainaut, Felipe Augusto tinha apenas um filho varão, o futuro Luís VIII, que na altura contava apenas três anos de idade e era de saúde débil. O rei necessitava portanto de um novo casamento que lhe desse mais herdeiros para assegurar a sucessão, e por razões políticas escolhe Ingeborg, pensando que numa possível invasão à Inglaterra poderia contar com o precioso auxílio da frota dos antigos vikingues.
Os cronistas gabam a beleza desta princesa que trouxe como dote 10.000 marcos de prata, e o bispo Estevão de Tournai descreveu-a como” muito gentil, jovem na idade, mas anciã na sabedoria”.
Casam em Amiens, mas após a noite de núpcias o rei tomou por ela tal aversão, que adiando a coroação da rainha, a encerra no mosteiro de Saint-Maur-des-Fossés, repudiando-a e anunciando que queria anular o matrimónio. As razões de tal aversão e repúdio até hoje não estão totalmente esclarecidas, mas tudo aponta para uma trágica incompatibilidade física. Encarregou depois alguns dos seus confidentes de elaboraram uma árvore genealógica em que se provasse que ela ainda seria parenta em quarto grau da sua 1ª mulher, e sem que a rainha fosse sequer ouvida, uma Assembleia dos Notáveis, constituída por bispos e nobres, obedecendo às ordens do monarca, declarou o casamento nulo em Compiégne, a 5 de Novembro de1193.
A rainha não aceita a decisão e apela para Roma. Celestino III tenta ajudá-la e o bispo Guilherme de Paris intervém apresentando uma genealogia dos reis da Dinamarca, provando que o obstáculo da consanguinidade não existia. Filipe Augusto pede ao Papa a anulação do casamento com base na não consumação do mesmo, mas Ingeborg afirma o contrário dizendo-se esposa do rei e rainha por direito.
Em 1196 o monarca francês casa com Inês de Meran, filha do duque da Merânia, Berthold IV, que lhe dará três filhos. Em 1198, sobe ao trono o Papa Inocêncio III, um dos pontífices mais enérgicos da história da Igreja, que pretendendo impor a sua vontade, não reconhece a validade do terceiro casamento do rei e exorta-o a reconduzir Ingeborg, presa entretanto na Torre de Guinette, no castelo de Étampes, à dignidade de rainha. Como o rei não obedecesse, o Papa lança o interdito sobre o reino de França, como castigo dos pecados do rei, em 1200.
O interdito implicava, entre outras medidas, o encerramento das igrejas, a proibição de celebrar missas pelos mortos e de lhes dar sepultura cristã. Não se podiam também realizar casamentos e baptizados.
Contrariado, ao fim de alguns meses, o rei cedeu, afastando Inês, que estava grávida, para o Castelo de Poissy, simulando uma aproximação a Ingeborg, sem no entanto reatar as relações conjugais. Após o levantamento do interdito, ao fim de sete meses, manda novamente encerrá-la na fortaleza e retoma a vida conjugal com Inês, continuando a tratar da anulação do casamento.
Da prisão, a infeliz rainha escreve numa carta ao Papa “ Todos os dias bebo o cálice da amargura. Ajudai-me para que não pereça – não no corpo, mas na alma – porque a morte corporal seria bem-vinda, mísera que sou”. Suplica que não a considerem adúltera por se ver obrigada a ceder – mulher sem defesa – às ameaças ou violências dos seus carcereiros. A entrega dos alimentos era escassa e irregular, e não lhe eram permitidas visitas.
Em 1201, seis meses depois de dar à luz o filho que esperava, Inês de Meran morre. Foi provavelmente a única mulher que Felipe Augusto amou realmente! Em 1207, Ingeborg é forçada pelo marido a professar num convento, mas o Papa não o permite. O rei tenta casar novamente, mas como não obtém apoios, desiste, e finalmente resignado, na Primavera de 1213, durante o casamento de sua filha, em Soissons, espanta toda a gente ao anunciar que retomaria a vida em comum com Ingeborg, de quem está separado há vinte anos. Ou porque reconhecesse que devido aos princípios religiosos da rainha nunca a levaria a fazer concessões, ou porque mantivesse a ideia de atacar a Inglaterra e necessitasse para isso da ajuda dos dinamarqueses, o que é certo é que finalmente a infeliz rainha viu abertas as portas da prisão ao fim de tantos anos de cativeiro e sofrimento… No entanto, a vida conjugal nunca foi retomada!
Retirada em Orleães, recebeu o título de Rainha de Orleães, dado pelos seus contemporâneos, que não sabiam que título lhe atribuir. Após a morte do marido em 1223, retirou-se para o priorado de Saint-Jean-de l’Ile que fundara próximo de Corbeil, onde passa o resto da sua vida e onde foi sepultada.
Morre aos 60 anos, em 29 de Julho de 1236, e nem a sua última vontade é respeitada…No seu testamento pede para ser sepultada na basílica de Saint-Denis, panteão dos reis de França, o que lhe é negado por Luís IX, neto de Filipe Augusto, tanto por respeito pela vontade do seu avô, como pelo facto de nunca ter sido sagrada rainha…
E no entanto, poucas terão sofrido tanto tempo, com tanta persistência e fidelidade!

Fontes: pt.wikipedia.org
Grinberg, Carl – História Universal








sábado, 26 de março de 2011

Branca de Bourbon – II

casamento medieval
A prisão da rainha deu origem a uma crise interna. Os toledanos compadecidos da sua sorte, promovem um motim, a que grande parte da nobreza adere, ao mesmo tempo que o Papa exorta o rei a retomar D. Branca como esposa.
Em 1354, D. João Afonso de Albuquerque é envenenado pelo seu médico, provavelmente a mando do monarca, mas os seus amigos depositam o corpo num ataúde que levam sempre consigo, dizendo ao rei que não o enterrariam enquanto não vencessem a demanda por Dona Branca. Este senhor de Albuquerque ficará para a História, como o “Do Ataúde”.
Obrigado a ceder, o rei acode a Toro onde vive algum tempo quase prisioneiro. Astuciosamente, consegue fugir para Segóvia e entrando em Toledo, manda abater vinte e dois” homens bons do comum” como represália por terem protegido a rainha. Conta-se que entre estes estava um ourives já ancião. O filho, ainda bem moço, pediu ao rei que poupasse o pai e o matasse a ele, ao que o rei acedeu.
Manda conduzir novamente D. Branca de volta a Arévalo, com ordens para que não tivesse nenhuma visita, nem mesmo de sua sogra. A partir daí, até à sua morte, a rainha ficou isolada do mundo. Pretendendo o rei casar-se com D. Joana de Castro, meia-irmã de Inês de Castro, cuja beleza o deslumbrou, obriga os bispos de Ávila e Salamanca a darem por nulo o seu casamento com a rainha, e a recebê-los como marido e mulher. Depois do casamento consumado, abandona para sempre a nova esposa, enviando-a para um convento, a qual, no entanto, lhe dará um filho, e se intitulará sempre como rainha de Castela.
Entretanto a pobre D. Branca é transferida para Jerez de la Frontera, onde pede aos monges do Mosteiro de S. Francisco, que a deixem ali ser sepultada quando morresse. Tempos depois foi enviada para a fortaleza de Medina Sidónia, já não tendo qualquer esperança de ver terminado o seu cativeiro. Com um mínimo de mobiliário, o conforto dentro daquelas paredes grossas era reduzido. Encerrada na torre, tendo por companhia apenas duas aias e o seu capelão, além da oração, apenas a tapeçaria lhe era permitida. Ao fim de tantos anos de prisão, era apenas uma pálida sombra da linda princesa cheia de sonhos, que um dia tinha chegado a Castela!
Em 1359 nasce um filho varão a Maria de Padilla, a quem puseram o nome de seu avô paterno, Afonso. O rei nomeia-o seu sucessor e para o legitimar pretende casar-se com a favorita.
Tinha por fim chegado a hora de se desfazer daquela incómoda cativa… Em 1361, acusando-a de conspiração, envia a Medina Sidónia, o seu melhor arqueiro, Juan Perez de Rebolledo com ordem para a matar, uns dizem que envenenada.
Tinha 25 anos de idade, e nada justificava tão triste sina! Desde o seu casamento, apenas tinha conhecido prisões e sofrimento, tudo aguentando com paciência.
No sec. XVI começaram as demolições do recinto amuralhado da fortaleza e da chamada Torre de D. Branca, onde segundo a tradição a rainha foi morta. Uma lápide lá colocada em 1859 recorda esse facto:


En esta torre estuvo presa
y acabó sus días a manos del ballestero
Juan Pérez de Rebolledo, en el año 1361,
la virtuosa y desventurada reina
doña Blanca de Borbón,
esposa de don Pedro de Castilla.

O seu corpo foi depois sepultado segundo o seu desejo, na igreja do Convento Franciscano de Jerez de La Frontera, sem honras nenhumas. Mais tarde, a Rainha Isabel, a Católica, manda restaurar a sua sepultura, pondo uma lápide a assinalá-la. No início do sec. XX, devido a obras de restauração na igreja, a lápide e a tumba foram colocadas na sacristia.
Segundo Lopez de Ayala, nas suas Cronicas de los Reyes de Castilla, conta ele que um dia estando o rei a caçar nas imediações de Medina, onde a rainha estava presa, se acercou um homem junto dele, dizendo-lhe que vinha por ordem de Deus avisá-lo que todo o mal que ele fizesse à rainha, lhe seria cobrado, mas que se a aceitasse como mulher, dela teria filhos que herdariam o reino.
Ficou o rei muito espantado, e mandou prender o homem, pensando que era a rainha que o tinha enviado. Mandou á fortaleza indagar se isto seria verdade, mas responderam-lhe que a rainha estava de tal maneira guardada, que lhe seria impossível enviar alguém. Então todos os que viram e ouviram isto pensaram que era obra de Deus. Soltaram depois o homem, e nunca mais ninguém o viu.


Fontes: Crónicas de Fernão Lopes
Cronicas de los Reyes de Castilla – Pero López de Ayala
Portugal Medievo – António Borges Coelho
Dicionário da História de Espanha, vol.I
www.mundohistoria.org
druta.wordpress.com
imagem:idademedianaescola.blogspot.com

quinta-feira, 24 de março de 2011

Branca de Bourbon – I


Se há princesas que nasceram fadadas para um destino infeliz, Branca de Bourbon foi uma delas.
Nascida em 1338/9, era uma das seis filhas de Pedro I, duque de Bourbon e de Isabel de Valois, sendo neta de Filipe III de França. Alguns historiadores dão-na como irmã gémea de Joana, mais tarde rainha de França pelo seu casamento com Carlos V.
Por volta de 1351, o rei de Castela Pedro I, o Cruel, manda uma embaixada a França, pedindo ao rei João, o Bom, uma das suas sobrinhas para esposa, sendo Branca a escolhida pelos embaixadores que a acharam formosa. Na verdade, este casamento tinha sido arranjado pela rainha-mãe D. Maria, filha de Afonso IV de Portugal, e viúva de Afonso XI, de Castela, e pelo valido João Afonso de Albuquerque, conselheiro do jovem rei.
Este, que contava apenas 16 anos na altura, mostrava já um carácter violento e propenso à astúcia e crueldade, embora inteligente e bem-parecido, pelo que, um casamento com uma jovem bonita e meiga como Branca poderia abrandar-lhe o feitio…
No princípio de 1353, já casada por procuração com o rei de Castela, a nova rainha sai de França, acompanhada pelo seu séquito chefiado pelo visconde de Narbonne, trazendo como dote 300 mil florins de ouro, que parece, nunca chegou a ser totalmente pago. Ao chegar à fronteira com Castela, apenas o senhor de Albuquerque a esperava, do noivo, nem a sombra!
Indignados com este procedimento, os enviados do rei de França exigem uma explicação, a que D. João Afonso responde aludindo a uma indisposição do rei. O que na verdade ele não poderia contar, é que neste intervalo de quase dois anos, o rei se tinha apaixonado loucamente por outra mulher, que já lhe tinha dado uma filha, e encontrava-se nessa altura, com ela, em Sevilha, onde passava a maior parte do tempo…Do casamento nem queria ouvir falar!
A dama em questão chamava-se Maria de Padilla, era pouco mais velha que Branca, e pertencia a uma família nobre. Até à sua morte, de causas naturais, em 1361, deu quatro filhos ao rei e à semelhança de Inês de Castro, também foi declarada rainha depois de morta.
Finalmente, a 3 de Junho, e cedendo apenas por razões de Estado, Pedro I casa com a princesa na catedral de Valhadolid. À saída, debaixo das aclamações do povo, enquanto Branca, radiante de formosura e felicidade, acenava à multidão, o rei mantinha-se distante e silencioso. Depois do banquete, D. Pedro abandona a noiva e volta para os braços de Maria.
A desconsolada rainha fica na companhia da sogra, até que D. João de Albuquerque consegue que o rei volte para uma reconciliação que dura apenas dois dias, findos os quais o rei parte para Olmedo. A rainha-mãe leva-a consigo para Tordesilhas e depois para Medina del Campo, mas por ordem do rei é conduzida à fortaleza de Arévalo, onde fica encerrada, sem que o rei torne a vê-la. Dali, é mais tarde conduzida para o castelo de Toledo.
Os nobres franceses do séquito da rainha voltam para França, onde relatam o sucedido, mas o rei de França, João II, o Bom, tinha sido aprisionado pelos ingleses na batalha de Poitiers, em 1356. Era uma época conturbada esta, vivida em plena Guerra dos Cem Anos, onde os camponeses fartos da sua miséria se revoltavam contra os senhores feudais, e a burguesia, cada vez mais forte, exigia mudanças políticas. O regente francês estava demasiado ocupado a negociar o resgate do pai, e pouco podia fazer por Branca, além de que ainda era devido a Castela o resto do dote…

sábado, 28 de agosto de 2010

D. Constança Manuel

D. Constança

Nascida para reinar, nunca chegou a ser rainha. Foi repudiada pelo primeiro marido, esteve duas vezes sequestrada, e o seu segundo casamento ficou manchado pelo sangue derramado para que pudesse ser libertada. Faleceu onze anos antes de D. Pedro subir ao trono, sem nunca ter sido amada, e traída tanto nos seus sentimentos, como na sua amizade. Quando morreu, depressa foi esquecida e ninguém a chorou. As lágrimas ficaram todas para chorar Pedro e Inês…
Filha de D. João Manuel, príncipe de Vilhena, e duque de Penafiel neto de Fernando III de Castela, e de sua mulher D. Constança, filha do rei Jaime II de Aragão, nasceu entre 1318-1320 e faleceu em 1345. Foi prometida com apenas seis anos de idade, ao senhor da Biscaia, D. João, o Torto, aliado de seu pai na guerra que este pretendia mover contra o rei de Castela, de quem tinha sido tutor e co-regente do reino, durante a sua menoridade.
Afonso XI, ao chegar aos 14 anos de idade, assumiu o trono e o poder, afastando o duque, que ferido no seu orgulho e nas suas ambições se revoltou. Mas o jovem rei era muito mais maquiavélico do que os seus inimigos pensavam, e usando de toda a sua astúcia, fez as pazes com D. João Manuel, pedindo-lhe a filha em casamento. Não podendo resistir a esta oferta, e imaginando-se já como pai da futura rainha, o príncipe concordou, o que levou o Senhor da Biscaia a sentir a sua vida em perigo, abandonando o reino.
E assim, com o primeiro noivado desfeito, D. Constança, em 1325 tem o seu 1º casamento ratificado pelas Cortes de Valladolid, seguindo para os paços reais, onde ficaria até atingir a idade própria para a consumação do casamento.
Mas o rei castelhano, ao sentir-se senhor da situação, resolve casar antes com a infanta D. Maria, filha do rei D. Afonso IV de Portugal e repudia D. Constança fazendo-a prisioneira no Castelo de Toro durante 4 anos, para evitar as represálias do seu pai, sendo enviada de volta à casa paterna, teria já cerca de doze anos.
Humilhada por esta rejeição e sofrendo ainda do desgaste causado pelos anos em que temeu pela própria vida, D. Constança leva uma vida de isolamento, É mais ou menos nesta altura que Inês de Castro entra na sua vida. Filha bastarda de D. Pedro de Castro, o da Guerra, ainda aparentado com D. João Manuel, vai para junto de D. Constança como dama de companhia, tornando-se rapidamente em amiga e confidente.
Em 1336 é-lhe arranjado o casamento com o infante D. Pedro, herdeiro do trono português, mas Afonso XI de Castela, descontente com esta aliança, consente no casamento por procuração, que é realizado em Évora, no Convento de S. Francisco, mas não permite que a noiva saia de Castela. Esta resolução origina uma guerra entre o rei castelhano e D. Afonso IV, que já andava agastado com o genro, devido aos maus tratos que este dava a sua mulher, e que se arrasta até 1339, com derrotas e vitórias para ambos os lados. É para tentar resolver este conflito, que a Rainha Santa Isabel acabada de chegar de uma peregrinação a Santiago de Compostela, se mete novamente a caminho de Castela, mas alquebrada e envelhecida, adoece gravemente e morre no castelo de Estremoz, sem conseguir o que pretendia.
Após várias negociações, o rei castelhano concorda com a saída da nova infanta portuguesa, que finalmente em 1340 casa de facto com o infante D. Pedro, em Lisboa. Inês de Castro fazia parte do seu séquito e durante estes anos tinha-se tornado numa belíssima donzela, de cabelos loiros e olhos verdes. Chamavam-na de “colo de garça”, devido à esbeltez do seu pescoço.
D. Pedro embora fosse gago, era um homem alto, atraente por quem D. Constança, tão falta de afecto, provavelmente se apaixonou. Tinha finalmente um marido, um lar e num futuro próximo, uma coroa de rainha…
Ao princípio tudo corre bem, o infante não ama, mas respeita a mulher cumprindo com os seus deveres conjugais, e em 1342, nasce a primeira filha do casal, a infanta D. Maria. No entanto, depressa D. Constança se apercebe que D. Pedro está apaixonado por Inês de Castro, a sua amiga preferida, e diplomaticamente convida esta para madrinha do seu segundo filho, o pequeno D. Luís, convencendo-se que através deste parentesco religioso, acabaria com aquela paixão nascente.
De acordo com as leis canónicas da altura, qualquer relação amorosa entre compadres, seria considerada incestuosa.
Infelizmente a vida do pequeno infante durou apenas oito dias, e Pedro sente-se livre para assumir a sua paixão por Inês, embora mantendo um relacionamento estável com a esposa. É então que D. Afonso IV intervém e exila a dama galega em Albuquerque, na fronteira, para evitar o escândalo e evitar assim mais sofrimentos à nora. Esta ausência forçada ainda aumenta mais a paixão do infante, que se corresponde secretamente com Inês.
Com este desterro D. Constança tem um pouco mais de tranquilidade, mas sofrendo bastante com os partos e com o ânimo já gasto por tantos desgostos, morre em 1345, com 25 ou 27 anos de iade, depois de dar à luz em Coimbra o infante D. Fernando, em 1345, cumprindo assim a sua obrigação de dar um herdeiro ao trono.
Foi sepultada na igreja de S. Domingos em Santarém, tendo o seu corpo sido mais tarde trasladado para a igreja do Mosteiro de S. Francisco, por ordem de seu filho, o rei D. Fernando, que também lhe mandou fazer uma arca tumular, hoje no Museu do Carmo, mas danificada e vazia.
Luís de Camões dedicou-lhe um triste e lindo soneto:


Chegara a Portugal D. Constança
E com ela a formosa Inês de Castro
De olhos verdes em rosto de alabastro
Gentil colo de garça e loira trança.

É a esposa esquecida e sem tardança
D. Pedro segue, fascinado, esse astro
De amor fatal cujo sangrento rastro
Ficou na História em trágica lembrança.

E não sei qual foi mais desgraçada,
Se a zelosa esposa desdenhada
Se a desditosa e sedutora amante…

Mas Constança, acredito, preferia
Ter a morte de Inês – morte sombria
E ser amada ao menos um instante!

Fontes: Benevides, Francisco Fonseca – Rainhas de Portugal
Wikipédia
Camões, Luís - Sonetos