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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Dama da Fonte – III

Depois de várias aventuras pelo caminho, o Rei e os seus cavaleiros encontraram finalmente Sir Owein, sendo recebidos por ele com um grande banquete, onde ele apresentou a sua mulher, a Dama da Fonte, ao rei.
Depois de alguns dias de repouso, Artur e a comitiva voltaram para casa, mas antes, o rei convidou o cavaleiro a regressar com ele para tomar parte nas caçadas que se iriam realizar. Contrariada, Laudine deixou-o partir na condição de o marido se apresentar no castelo ao fim de um certo tempo. Owein prometeu cumprir o prazo estabelecido e a Dama da Fonte deu-lhe um anel que o protegeria de todos os ferimentos que pudesse receber.
E o tempo foi passando em festas, torneios, caçadas e aventuras onde o seu manejo das armas lhe trouxe fama e glória. Apenas Sir Gawain, o seu melhor amigo, o conseguia igualar. E Sir Owein, no meio de tudo isto, esqueceu Castelo, Dama da Fonte, a promessa de voltar…E o prazo foi em muito ultrapassado, até que um dia, um mensageiro se chegou ao pé dele e em nome da Dama pediu-lhe de volta o anel, chamando-o de traidor e banindo-lhe para sempre o acesso ao Castelo.
Cheio de vergonha e remorsos, Owein abandonou a Corte, internando-se pelos bosques, onde, num acesso de loucura e vagueando sem rumo, se tornou num homem primitivo. Os cabelos e a barba cresceram tornando-o irreconhecível, as roupas foram apodrecendo, até que faminto, com o corpo nu e imundo, cheio de feridas, se acercou de um castelo, caindo desfalecido no jardim.
Recolhido pela dona do castelo e graças a um unguento maravilhoso que lhe foi administrado, ao fim de algum tempo o cavaleiro achava-se completamente restabelecido. Despedindo-se da castelã, jurou a si mesmo que a sua espada passaria a ser usada não para sua glória pessoal, mas em socorro dos fracos e indefesos, a fim de ganhar de novo o amor da sua Dama.
Passando por uma floresta ouviu uns rugidos medonhos, indicando que um leão se encontrava próximo. Com cautela e a espada desembainhada, o cavaleiro avançou até deparar com um leão que se debatia nos anéis de uma grande cobra. Era ele que soltava aqueles urros ao sentir-se cada vez mais apertado por aquele abraço mortal e do qual não se conseguia libertar. Owein, não hesitou e cortou a cabeça da serpente, mas ficou em guarda aguardando o ataque do leão. Este, depois de sacudir a juba, dirigiu-se mansamente até junto do cavaleiro, deitando-se-lhe aos pés, com que em agradecimento. E a partir daí, a fera acompanhou-o para todo o lado como se fosse um grande cão, correndo ao lado do cavalo durante as viagens, ajudando-o nos combates ou vigiando-lhe o sono durante a noite, protegendo-o de qualquer perigo.
Desde então, Owein passou a ser conhecido como o Cavaleiro do Leão, e as suas aventuras como um paladino da justiça, granjearam-lhe grande fama e reconhecimento. O tempo foi passando e Owein achou que já poderia regressar aos seus domínios. Durante o percurso, ainda conseguiu salvar Lunet de ser queimada e com a sua ajuda entrou no Castelo, onde conseguiu que Laudine o perdoasse e o aceitasse de novo como seu marido e Guardião da Fonte.


Nota: Owein, também conhecido por Ivain, o Cavaleiro do Leão (em francês: Yvain, le Chevalier au Lion) é um poema de Chrétien de Troyes, poeta e trovador francês dos finais do sec. XII e autor de romances de cavalaria, que inspiraram toda a literatura ocidental durante a Idade Média. Foi escrito provavelmente nos anos 1170, sendo o personagem principal, Ivain baseado numa figura histórica, Owain mab Urien.
Este poema inclui o conto da Dama da Fonte, que, por sua vez, é um dos três romances do Mabinogion, colectânea de contos celtas escritos em língua galesa e onde constam as aventuras de Owein ou Yvain. Como quase toda a obra de Chrétien de Troyes gira em volta do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, pôs-se a questão se estes romances não seriam versões galesas dos contos de Chrétien, mas o mais provável é que sejam versões diferentes da mesma história, com origem em tradições célticas bem mais antigas.

Fontes: www.wikipedia.org
O Mabinogion





quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Dama da Fonte – II

Tudo aconteceu tal como a jovem dissera, e quando o sentiu junto de si, levou-o para um magnífico aposento onde lhe serviu uma copiosa refeição, indicando-lhe depois um leito luxuosamente ataviado onde o cavaleiro poderia descansar.
Ao romper do dia, um imenso e lamentoso clamor reboou pelo castelo. Abrindo uma janela, Owein observou um grande cortejo de damas, cavaleiros, homens de armas e clérigos acompanhando o féretro do senhor do castelo, que tinha falecido dos ferimentos recebidos. A fechar o cortejo, seguia uma dama cujos lamentos soavam mais alto que os cânticos fúnebres entoados pelos sacerdotes. A sua beleza era tal, que ao vê-la, mesmo no estado desalinhado em que se encontrava, Owein se sentiu perdidamente apaixonado.
Lunet informou-o que se tratava de Laudine, a Dama da Fonte, a viúva do Conde Esclados, o Cavaleiro Negro.
“A Deus eu digo”, exclamou Owein, “que esta é a dama que eu mais amo”.
“Deus também sabe, que a ti ela não ama, nem muito, nem pouco, nem nada”, respondeu-lhe a donzela.
No entanto, prometeu interceder por ele e recomendando-lhe que não abandonasse o quarto, saiu dos aposentos para ir servir a sua senhora.
Laudine, ao vê-la, mostrou-se sentida pela sua ausência no funeral, mas Lunet respondeu-lhe que mais lhe valia pensar em como iria conseguir defender a Fonte e o Castelo, agora que o Cavaleiro tinha morrido.
“Por mim e por Deus te digo”, respondeu a condessa, “que eu jamais poderei recompensar a perda do meu senhor, pondo outro homem no seu lugar!”.
“Pois deverias”, retorquiu a jovem, “ e alguém tão bom ou melhor que ele. Se não puderes defender a Fonte, também não poderás defender os teus domínios, e isso só se consegue pela força das armas. E quanto mais depressa o fizeres melhor para todos. Irei à corte do Rei Artur e trarei um dos seus cavaleiros.”
Repugnada com a ideia, mas sabendo que Lunet estava cheia de razão, a Senhora deixou-a partir.
Voltando para junto de Owen, a jovem ali ficou escondida de todos, o tempo suficiente para a viagem de ida e volta a Camelot. Quando achou que deveria ter chegado ao seu termo, apresentou-se perante Laudine, que lhe perguntou pelo êxito da viagem.
“Trago boas-novas, Senhora, achei o que procurava. Quando quereis ver o cavaleiro que trouxe comigo?”, perguntou Lunet.
“Amanhã pelo meio-dia”, respondeu a Dama da Fonte.
No dia seguinte, à hora marcada, os dois jovens apresentaram-se perante a Senhora do Castelo, que os recebeu com muita gentileza.
“Senhora, apresento-te Sir Owein o cavaleiro do Rei Artur que trouxe comigo”.
A condessa olhou o cavaleiro com muita atenção. Vestido com uma túnica, uma cota de malha e um manto de brocado de seda amarela e calçando uns borzeguins, Owein não tinha aspecto de quem tivesse feito uma grande jornada… Desconfiando da verdade, Laudine perguntou se aquele não teria sido o cavaleiro que lhe tinha morto o marido!
“Melhor para ti, Senhora”, respondeu Lunet, “Se ele não fosse o melhor dos dois, não estaria agora à tua frente. O que está feito, feito está!”.
A condessa mandou reunir os seus vassalos e com a aprovação dos membros do seu Conselho, tomou Sir Owein como marido.
Durante três anos, a felicidade reinou no Castelo de Landuc. Owein, o novo guardião da Fonte, derrubava qualquer cavaleiro que o desafiasse, mantendo-o prisioneiro até receber o seu resgate, distribuindo depois o dinheiro pelos seus vassalos, que retribuíam a sua generosidade com amor e lealdade.
Mas…e há sempre um mas…ao fim deste tempo, o Rei Artur que nada sabia do que poderia ter acontecido ao seu cavaleiro, reuniu os seus companheiros da Távola Redonda e foram no seu encalço…

terça-feira, 11 de outubro de 2011

A Dama da Fonte – I


Owein, filho do rei Urien e um dos Cavaleiros da Távola Redonda, ouviu um dos seus companheiros contar uma aventura que lhe tinha acontecido na Floresta de Brocéliande, onde ao defrontar o Cavaleiro Negro, guardião da Fonte de Barendon, fora derrotado e para sua maior humilhação, o seu adversário nem sequer se tinha dignado aprisioná-lo, apenas lhe tinha ficado com o cavalo.
Resolvido a defrontar ele mesmo o desconhecido Cavaleiro, Owein aprontou o seu cavalo e partiu em direcção a um castelo de que o seu companheiro tinha falado, a fim de se informar do caminho a percorrer. Lá chegado, o dono do castelo convidou-o a entrar. Encontrou na sala vinte e quatro donzelas. Seis delas cuidaram do seu cavalo, outras seis limparam as suas armas, mais seis trouxeram-lhe uma muda de roupa e as restantes seis puseram a mesa. Assim que todos se sentaram, o anfitrião perguntou-lhe qual a finalidade da sua viagem.
“Quero encontrar alguém que me possa vencer, ou eu mesmo triunfar sobre todos.
- Se eu não acreditasse que te aconteceria algum mal, indicar-te-ia o que procuras”.
Vendo a decepção estampada no rosto do seu convidado, o castelão continuou:
“Bem, uma vez que preferes que eu te indique algo desvantajoso para ti, em vez de algo vantajoso, podes dormir aqui esta noite. Levanta-te cedo e toma o caminho do vale até ao primeiro entroncamento à direita. Numa grande clareira, encontrarás um gigante negro no cimo de um outeiro. E descrevendo o homem negro, o dominador dos animais, fácil é reconhecer nele o deus Kernunnos”.
De manhã, o cavaleiro tomou o caminho do vale. No cimo do outeiro, o gigante pareceu-lhe bem maior do que o seu anfitrião dissera e os animais selvagens bem mais numerosos. Para mostrar o poder que detinha sobre eles, o deus bateu com o seu bordão num veado que logo soltou um grande bramido. Logo acorreram milhares de animais aos quais ordenou que fossem pastar. Eles inclinaram a cabeça e obedeceram. Owein perguntou-lhe qual era o caminho. Ele respondeu de mau modo, mas mostrou-lhe um caminho que subia uma colina, dizendo-lhe que quando chegasse ao cimo, avistaria ao fundo do vale, a Fonte de Barenton, com a sua grande árvore verde, a sua laje de mármore e a sua bacia de prata, presa com uma corrente.
Owein chegou lá facilmente e, aos pés da árvore, imagem de vida e traço de união entre o céu e a terra, lembrando-se da conversa do seu companheiro, tirou a água da fonte com a bacia e derramou-a sobre a pedra. Desencadeou-se uma violenta tempestade, depois o sol brilhou e, sobre o carvalho despojado das suas folhas, veio pousar um bando de aves que se puseram a cantar.
Enquanto escutava o seu canto, ouviu gemidos e viu Esclados, o Cavaleiro Negro vir ao longo do vale. Baixaram ambos as suas lanças e atacaram-se furiosamente, de tal maneira que as lanças se quebraram. Desembainharam então as espadas e tão bem se bateram que Owein acabou por desferir tamanho golpe no seu adversário que a lâmina atravessou o elmo atingindo o crânio. Sentindo-se ferido mortalmente, o cavaleiro negro fugiu e Owein foi-lhe no encalço.
O ferido alcançou a entrada de um castelo e desapareceu. Owein quis entrar atrás dele, mas os habitantes baixaram a grade que atingiu a patilha da sua sela e cortou o cavalo ao meio. Ao fecharem também a pesada porta, o nosso herói viu-se prisioneiro entre ela e a grade.
Sem saber como se libertar, o cavaleiro viu uma linda jovem aproximar-se dele estendendo-lhe através da grade um anel ao mesmo tempo que lhe dizia:
“Chamo-me Lunet e sirvo a senhora do Castelo de Lundoc. Daqui a pouco os homens virão buscar-te para te matar pois o Guardião da Fonte com quem combateste pouco mais tempo terá de vida. Quando os vires, põe este anel e ficarás invisível. Como
terão que abrir a grade para te procurar lá fora, entras e vais ter comigo junto àquele muro.”