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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Juramento dos Horácios

O Juramento dos Horácios – Jacques-Louis David (1784)

Le Serment des Horace (O Juramento dos Horácios) de Jacques-Louis David (Paris, 30 de Agosto de 1748 - Bruxelas, 29 de Dezembro de 1825), é uma pintura a óleo concluída em 1784, de 3,3 por 4,25 metros, e encontra-se no Museu do Louvre, em Paris.
A intenção do pintor era fazer deste quadro uma arma de propaganda mas nem mesmo ele podia prever o sucesso que teria. A obra mostra uma cena da história romana, onde os cidadãos republicanos, na qualidade de homens livres, pegam em armas para decidirem eles o destino do Estado. Neste caso não são portanto reis ou condes que tomam as decisões, mas sim cidadãos que se empenham responsavelmente pelo bem da nação.
Quando foi pintado, tinha David 27 anos, o antigo regime da monarquia francesa com base no direito divino dos reis, tinha apenas mais 4 anos de vida. Em 1789, a Revolução Francesa, que David apoiava desde o início, sendo amigo de Robespierre e membro do Grupo dos Jacobinos, implantou uma nova ordem política, o Estado nação republicano, com os seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.
Ironicamente, este quadro foi encomendado pelo rei Luís XVI, que morreria na guilhotina em 1793, sendo um dos votos favoráveis à sua execução do próprio David.
Heróico, autoritário e de composição impecável, o quadro personifica o novo sonho político em que a França se encontrava mergulhada e tem por base um episódio passado na Antiga Roma.
Verdadeira ou lendária a luta entre Horácios e Curiácios foi registada, no século I a. C., pelo escritor latino Tito Lívio na obra "Ab Urbe Condita" e séculos mais tarde recuperada pelo dramaturgo francês Pierre Corneille (1606-1684) na tragédia "Horace".
Reza a história que no Lácio, o país dos Latinos, havia diversas cidades, sendo Alba Longa a mais antiga e Roma a mais recente. Por volta do ano 669 a.C., Roma teve um rei belicoso na pessoa de Tullus Hostilius que, um dia resolveu entrar em guerra com a sua metrópole. Os exércitos das duas cidades já estavam dispostos em ordem de batalha, prontos a lançarem-se uns sobre os outros, mas hesitando em cometer um acto tão ímpio dado os estreitos laços que os uniam.
Decidiram então que a querela seria resolvida por um duelo. Havia justamente nas fileiras de cada um dos exércitos três irmãos, os três Horácios no lado romano e os três Curiácios no de Alba Longa. Foram eles os escolhidos para travarem o combate decisivo, tendo ficado estipulado que a pátria dos vencedores reinaria sobre a dos vencidos.
A um sinal combinado, os seis jovens lançarem-se uns sobre os outros, até que, dois dos romanos caíram feridos de morte. Os três Curiácios estavam feridos, mas agora eram três contra um. Já as aclamações dos Albanos soavam, quando o Horácio sobrevivente se pôs em fuga. Ao irem atrás dele, os Curiácios separaram-se e astuciosamente, o romano foi eliminando um de cada vez.
Voltando a Roma triunfante, à frente do seu exército e sob os aplausos da população que o aclamava como herói, Horácio tem à sua espera as mulheres da família, entre as quais Sabina, irmã dos Curiácios e mulher de um dos Horácios e a sua irmã Camila, que estava noiva de um dos Curiácios e se desfaz em prantos ao ver o manto do seu amado entre os troféus que o irmão exibia. Irritado, Horácio arremete contra a irmã e trespassa-a com a sua espada exclamando: “Que morra assim todo o romano que chore a morte de um inimigo!”.
Este acto do vencedor fez calar todos os aplausos e, apesar do imenso serviço que ele tinha prestado à sua cidade, Horácio foi levado perante o tribunal e condenado à morte. Mas o povo acedeu ao pedido do seu velho pai, que suplicou lhe deixassem o seu último filho.
O cenário arquitectural do quadro é nitidamente romano, com três arcos dóricos sustentados por colunas também dóricas que correspondem ao agrupamento das figuras. Cada grupo ou indivíduo está emoldurado por um dos arcos, sugerindo o seu isolamento e os laços que os unem. A austera coluna dórica, caracterizada pela ausência de base, era considerada de carácter masculino e militar.
A lança, que mal se nota na arcada escura, é o único ornamento deste espaço nú e desprovido de qualquer luxo doméstico e serve também para equilibrar o ângulo do corpo do pai, quase ao centro da tela.
Os três irmãos são apresentados como modelos do soldado ideal. Os rostos amargos e determinados e a sua linguagem corporal transmitem a mensagem de que o dever e a disciplina são a virtude suprema e se necessário morrerão por elas.
No centro da pintura verifica-se a acção principal : O ritual do juramento. A pose heróica do pai acentua a nobreza do seu sacrifício. Nas suas mãos segura as três espadas para onde se estendem as mãos dos seus filhos no momento de prestarem o seu juramento, iluminadas pela viva luz do sol. O pai olha para os céus, em direcção aos deuses, os filhos têm as pernas firmemente assentes no solo e o soldado mais próximo é agarrado pelo irmão com toda a força em volta da cintura.
As togas foram fielmente copiadas de exemplares romanos, tal como os elmos e as espadas. O pintor assegurou-se de que cada pormenor fosse o mais preciso possível e até os narizes dos homens, são do feitio conhecido por “nariz romano”.
A cor dominante neste grupo masculino é o vermelho-vivo, a cor da paixão, que se iria tornar na cor tradicional da Revolução.
No entanto, todo este grupo masculino projecta a sua sombra escura sobre o canto onde duas crianças se abrigam sob o manto protector da avó, a mãe dos Horácios. A criança mais velha, embora assustada, afasta a mão da velha senhora e olha para as espadas com os olhos muito abertos. A sombra indica que até crianças inocentes devem estar dispostas a pagar o preço exigido pela lealdade ao Estado.
Também a atitude firme e determinada dos homens contrasta com a posição desfalecida das duas outras mulheres sentadas que assistem à cena e cujas mãos pendem inertes e passivas. Também elas iluminadas pela luz do sol, são a personificação da tragédia e da angústia. A mulher de branco é Sabina, irmã dos Curiácios e mulher de um dos Horácios que prestam juramento. Encosta-se à cunhada Camila, noiva de um dos Curiácios e que será morta por um dos seus irmãos.
Com esta obra Jacques-Louis David pretendeu mostrar que o cumprimento do dever está acima de qualquer sentimento pessoal, o Estado acima do indivíduo.


















sexta-feira, 28 de junho de 2013

A Heroína de Beauvais

Estátua de bronze de Jeanne Hachette, em Beauvais, da autoria de Gabriel-Vital Dubray

 Nascida na bonita cidade de Beauvais a 14 de Novembro de 1456 Jeanne Laisné, também conhecida como Jeanne Fourquet, apelido de seu pai, era uma jovem de 16 anos quando na Primavera de 1472, o duque da Borgonha, Carlos o Temerário, veio cercar a sua cidade natal.
O duque, na sua constante luta contra o rei de França, Luís XI pelo controle do reino, já se tinha apoderado de várias pequenas cidades, entre as quais Nesle, cuja população depois de se ter rendido, foi massacrada sem piedade pelos homens de Carlos, apesar de se terem refugiado na igreja local.
A 27 de Junho de 1472, o duque à frente do seu exército chegou junto das muralhas de Beauvais, cuja pequena guarnição de apenas 300 homens de armas comandados por Louis de Baligny era manifestamente insuficiente para fazer face aos seus homens. As zonas periféricas foram rápida e facilmente ocupadas, mas a população sabendo o que lhe estava reservado caso se rendesse, defendeu ferozmente o centro da cidade até à chegada dos reforços que tinham sido pedidos.
No mais encarniçado da luta, as mulheres com Jeanne à frente, atiravam pedras e azeite a ferver sobre os adversários que pretendiam escalar as muralhas. Um deles, mais afoito, preparava-se para hastear aí a bandeira borgonhesa quando Jeanne ao vê-lo se atirou a ele munida de uma machada (hachette), derrubando-o com um golpe certeiro e apoderando-se do estandarte.
Vendo que não conseguia tomar a cidade, Carlos levantou o cerco retirando-se.
Em agradecimento a estas bravas mulheres o rei Luís XI instituiu a “Procissão do Assalto”, no dia de Santa Agadrème, padroeira da cidade, concedendo-lhes o direito de aí precederem os homens, e casou Joana com o seu namorado Colin Pilon, cumulando-os de favores.
Considerada uma heroína pela população, Jeanne ficaria conhecida através dos séculos pela alcunha de Jeanne Hachette, e a sua estátua de bronze ainda se ergue na velha praça do mercado.

Fontes:
Oliveira, Américo Lopes de – Dicionário de Mulheres Célebres
Marsh, W.B. e Bruce Carrick – 365 Grandes Histórias






terça-feira, 18 de junho de 2013

A Fogueira de Ruão – II



 

Símbolo da resistência francesa à ocupação inglesa durante a Guerra dos Cem Anos, Joana, a antiga pastora de Domrémy que se tinha autoproclamado “a enviada de Deus”, conseguiu o impensável: Derrotar o poderoso exército inglês de Henrique VI, rei de França e de Inglaterra, e fazer coroar em Reims o delfim Carlos, conde de Ponthieu, filho de Carlos VI de França, o pobre rei louco, e de Isabel da Baviera, que não hesitou em afastá-lo (há quem o considere bastardo dado os vários amantes atribuídos à rainha), para conjuntamente com a mão da sua bela filha Catarina, oferecer o trono de França ao então rei de Inglaterra, Henrique V, o vencedor de Azincourt, nomeando-o como regente e herdeiro do infeliz rei francês, conforme o acordado no Tratado de Troyes.
Tanto Carlos VI como Henrique V já tinham falecido, e os seus descendentes, o hesitante delfim apoiado pela sua enérgica sogra, Yolanda de Aragão, e o seu sobrinho Henrique VI, de apenas 10 anos de idade, tendo como regente seu tio, o Duque de Beaufort, estavam em guerra desde então.
Nesta época, Carlos tinha a sua corte na cidade de Burges, no coração da França, sendo reconhecido como rei nas poucas províncias do centro do país que permaneceram fieis aos Armanhaques, de quem o delfim era o chefe, sendo por isso chamado de “rei de Burges”.
No Outono de 1428 os Ingleses cercaram a cidade de Orleães, que constituía a via de acesso ao sul da França.
Quando tudo parecia perdido para o Delfim, eis que Joana se apresenta em seu socorro, apresentando-se como enviada por Deus para o fazer sagrar em Reims. Dirige-se depois a Orleães à frente do exército real, chefiando comandantes como o duque de Alençon, Dunois, o Bastardo de Orleães, o almirante Louis de Culan ou Gilles de Rais, futuro marechal de França obrigando os ingleses a levantar o apertado cerco à cidade. O caminho para Saint-Rémy fica então livre, e em Julho, ao entrar na cidade ao lado do soberano, envergando uma armadura brilhante e de viseira levantada, no meio dos gritos de alegria dos seus soldados, Joana viveu o momento mais emocionante da sua curta vida.
A 17 de Julho de 1429, o arcebispo de Reims depois de o ter ungido com os santos óleos, colocou a coroa na cabeça de Carlos VII, sagrando-o como legítimo rei de França.
Os ingleses cometeram um erro grave ao não terem feito o mesmo ao jovem rei Henrique, e quando o fizeram em 1431 na Catedral de Notre-Dame, em Paris, era tarde demais. A França já tinha o seu rei legítimo
Em reconhecimento por este feito, Carlos VII eleva Joana e a sua família à nobreza em Dezembro desse mesmo ano, mas a partir daí a sua simpatia por ela começa a esfriar.
Agora que já tem uma base segura de onde pode prosseguir as suas operações, Carlos VII quer ser ele mesmo a comandar as suas actuações e não tem qualquer intuito de andar às ordens de uma mulher... Por outro lado, a popularidade e simpatia de que a Donzela goza junto do povo e do seu próprio exército não agradam ao seu caracter taciturno e desconfiado, e muito menos ao círculo dos seus conselheiros que lutam pelas suas próprias conveniências pessoais!
À impaciência de Joana para conquistar Paris, o rei opõe a apatia habitual e à sua revelia inicia uma série de conversações com o duque da Borgonha, Filipe o Bom, aliado dos Ingleses, para a obtenção da paz.
Pode, por isso, imaginar-se a alegria dos ingleses quando a 24 de Maio de 1430, numa surtida após ter conquistado Compiègne, a Donzela de Orleães foi capturada pelos borguinhões, partidários do rei inglês. Vendida por estes aos seus aliados, Joana teve de suportar um processo atroz e iníquo que durou meses, acabando os seus dias na fogueira, em Ruão, a capital inglesa do reino de França.
Carlos VII continua a reconquista e em 1450 ao retomar Ruão, o rei faz a sua entrada com um fausto extraordinário na cidade onde vinte anos antes tinha perecido aquela que havia jurado restituir-lhe a coroa e a quem ele tinha pago com o mais completo abandono!
No dia seguinte, a 15 de Fevereiro, o soberano evoca oficialmente, pela primeira vez, o caso de Joana d’Arc, mandando proceder à abertura de um inquérito para revisão do seu processo. Mas só a 11 de Junho de 1455, o Papa Calisto III, que sucedera a Nicolau V, ordenou essa revisão, que culminará na sua absolvição em 1456, sendo as actas do julgamento de 1431 solenemente destruídas. O seu antecessor sempre se tinha recusado a fazê-lo, apesar dos insistentes pedidos do rei francês.
Em 1869, o bispo de Orleães juntamente com os restantes bispos franceses pedem ao Papa Pio IX a beatificação da Donzela, o que só acontece a 18 de Abril de 1909, durante o papado de Pio X. A 9 de Maio de 1920, cerca de 500 anos depois da sua morte, Joana d'Arc é finalmente canonizada pelo Papa Bento XV, e em 1922 é declarada a Padroeira de França. 

Fontes: Pernoud, Régine e Marie-Veronique Clin – Joana D’Arc
Imagens: Wikipédia

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A Fogueira de Ruão- I

 Gravura de 1505


“Eu vim à terra para cumprir a vontade de Deus”

Um sol resplandecente inunda a  cidade de Ruão nessa manhã de 30 de Maio de 1431, prometendo um magnífico dia de Primavera. Para as cerca de 10.000 pessoas que inundam a praça do Vieux-Marché, o dia doce e quente permitir-lhes-á apreciar em pleno o espectáculo que se avizinha.
Um raio desse mesmo sol invade a sombria câmara do Castelo de Bouvrenil onde Joana d’Arc, a Donzela de Orleães, aguarda a sua sentença. Quando os dois monges dominicanos enviados pelo implacável Bispo de Beauvais chegam, os três guardas que permanentemente vigiam a prisioneira, saem da cela.
O irmão Martin Ladvenu e o irmão Jean Tout-Mouillé informam Joana que irá ser purificada pelo fogo, morrendo na fogueira como uma bruxa. Até aí serena e calma, a jovem tem uma crise nervosa. Chora, grita, arrepela-se, apela a Deus pela injustiça de que irá ser vítima. Os monges tentam acalmá-la, mas em vão
Por fim, esgotada, Joana cede e pede para se confessar e comungar. Os dominicanos aceitam ouvi-la em confissão mas não têm nenhumas instruções quanto à comunhão. Mandam o meirinho Jean Massieu pedi-las ao bispo, que envia um padre com uma hóstia.
Pouco depois, o próprio bispo entra na cela e Joana ao vê-lo exclama:
- Bispo, morro por vossa causa!
Depois da comunhão, saem todos menos os dois monges e o meirinho. Depois de vestir o traje que a Inquisição reserva para os seus condenados, o meirinho e o irmão Martin Ladvenu sobem com ela para a carroça que os levará do castelo ao local do suplício. São nove horas da manhã.
Mantém-se de pé na carroça, escoltada por oitocentos soldados ingleses que afastam a multidão que desde a alvorada se comprime pelas ruas para a ver passar.
Rezam e choram ouvindo os gritos que Joana lança da carroça:
- Ruão, Ruão, é então aqui que devo morrer?
Os ingleses estão nervosos, tudo pode acontecer. Nicolas de Houppeville, que se tinha recusado a continuar no julgamento, ouve-a lançar este grito, possivelmente para agitar a multidão.
Na praça, três estrados estão montados; no primeiro, destinado à Igreja, encontram-se o cardeal Winchester, os bispos de Beauvais, de Noyon e de Norwick, os cónegos, os doutores, uma mancha de púrpura, violeta e arminho; no segundo, destinado aos representantes do poder público estão o bailio de Ruão e os seus colaboradores; no terceiro, sentar-se-ão a Donzela para escutar a sentença e um pregador, Nicolas Midi.
Um pouco mais afastada, está a fogueira, colocada num nível superior, graças a um pedestal de gesso, onde assentam os molhos de lenha e o poste, para que todos possam verificar a morte da Donzela, sem que fiquem margem para dúvidas… A encimar o poste, uma inscrição em grandes letras:
“Joana, que se fez conhecer pela Donzela, mentirosa, perniciosa, abusadora do povo, blasfemadora de Deus, dissoluta, apóstata, cismática, idólatra, invocadora de diabos e herética”.
O pregador, durante mais de uma hora, falou sobre o tema da palavra de S. Paulo: ”Se um membro sofre, todos os membros sofrem”. O bispo Cauchon dirige-se pela última vez a Joana, dizendo-lhe:
- Todas as vezes que o vírus pérfido da heresia se pega a um dos membros da Igreja e o transforma em servidor de Satanás…….
……Nós te declaramos herética e relapsa…Deves ser banida da Igreja, deves ser entregue ao poder secular…Pedimos a esse poder secular que seja moderado contigo na sua sentença…
Lêem-lhe então a sentença de relapsa, proferida contra ela no dia 24de Maio, mas os Ingleses começam a ficar impacientes.
- Eh, padre, vai fazer-nos jantar aqui? – grita um soldado inglês para Jean Massieu.
A um gesto, dois ingleses agarram Joana e arrastam-na para a fogueira, ao mesmo tempo que os prelados abandonam o seu estrado. É amarrada ao poste e sobre a cabeça colocam-lhe uma espécie de mitra, tipo orelhas de burro, onde está escrito “herética, relapsa, apóstata, idólatra”, mas contra o que é habitual não foi amordaçada. O carrasco pega então fogo à palha e aos molhos de lenha colocados na base da fogueira. Um fumo acre rodeia a condenada que pede ao padre Ladvenu que ainda está junto dela, para que desça. Segura uma cruz de madeira que um soldado inglês lhe deu, movido pela compaixão. Um padre segura uma cruz alta diante do rosto de Joana, que reza invocando os seus santos.
As chamas e o fumo escondem-na dos olhos da multidão que apenas ouve as suas orações, mas a sua agonia é lenta e terrível, porque o carrasco, devido à altura a que está o poste, não a pode “piedosamente” estrangular como era costume fazer-se aos que morriam na fogueira reconciliados com Deus.
Por fim, de entre as labaredas que rodeiam o poste, ouve-se um grito “Jesus!” e o silêncio cai.
Logo que Joana solta o seu último suspiro, o fogo foi abrandado para que os assistentes a possam ver morta,
“Apareceu então, direita e escura (carbonizada). Foi vista por todo o povo completamente nua e mostrando tudo o que pode haver de secreto numa mulher, para com isso tirarem todas as dúvidas ao povo”. Depois do que, “o carrasco voltou a lançar o fogo ao seu pobre cadáver, que depressa foi completamente consumido e, ossos e carne, tudo foi reduzido a cinzas”.
As cinzas foram recolhidas e por ordem dos Ingleses, deitadas ao Sena, de cima da ponte Mathilde.
Assim morreu aos 19 anos de idade, Joana, a doce pastora da Lorena, a quem um rei ficou a dever a coroa.  

Fontes: O processo de Joana d’Arc – colecção Grandes Julgamentos da História.
Imagens: www.wikipedia.org
  


Joana d’Arc é queimada viva – Jules-Eugène Lenepveu.