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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

D. Dulce de Aragão

(vinheta da CVP de 1939)
Aldonça, Dulcia, Doce ou Dulce (versões do mesmo nome em documentos administrativos), a segunda rainha de Portugal, casou em 1174, aos 14 anos de idade, com o então infante D. Sancho, futuro D. Sancho I, de vinte anos, num casamento de conveniência política, como eram todos, negociado entre o pai do noivo, o rei português D. Afonso Henriques e o conde Raimundo Berenguer IV, de Barcelona, pai da noiva, o Dominador ou Protector do Reino de Aragão.
A sua mãe, a rainha Petronilha, única herdeira do reino de Aragão, foi dada com apenas um ou dois anos de idade em casamento ao conde-rei Raimundo de Barcelona, que contava cerca de 24 ou 27 anos e um dos mais bravos cavaleiros do seu tempo, com a condição deste proteger a herança da sua pequenina esposa, sendo-lhe outorgado o título de Protector do Reino de Aragão, estipulando-se no contrato de casamento que o futuro filho de ambos herdaria o reino, ou no caso de não haver descendência, seria o próprio Raimundo o herdeiro. Na altura em que D. Dulce nasceu, por volta de 1159, já existia o seu irmão Raimundo Berengário, que ao tornar-se príncipe herdeiro depois da morte de um irmão mais velho, Pedro,mudará o nome para Afonso, subindo ao trono de Aragão como Afonso II, tal como fez o noivo de D. Dulce, o príncipe D. Sancho, nascido Martinho, após a morte do irmão mais velho, Henrique.
Nesta altura, o reino de Portugal ainda não tinha sido reconhecido como tal pelo Papa, por isso ter como esposa uma filha de rainha e irmã de um rei que beneficiara do privilégio de ser ungido pelo Papa aquando da sua emancipação só podia trazer uma boa ajuda ao monarca português e a união com uma princesa da linhagem real de Aragão, cujo estatuto de reino independente já tinha sido reconhecido em 1095, só prestigiava a própria linhagem de D. Sancho que urgia fazer reconhecer como régia.
Não sabemos também se ela amou o homem de “meã estatura, mui dobrado de membros, rosto grande, boca grossa e grande, olhos pretos e grandes, cabello castanho mui tirante a preto”, que gostava de caça, de correr touros e dos serões da corte onde não faltavam jograis e trovadores de que ele fazia parte, poemas e vinho, mas que D. Dulce agradou ao marido atesta-o os cerca de 15 filhos que os cronistas lhe apontam, embora só se conheçam onze, e o facto de apenas se conhecerem filhos bastardos ao rei ou depois da morte da rainha, como apontam alguns historiadores, ou já nos seus últimos anos de vida, como referem outros. D. Sancho I apenas sobe ao trono em 1185, pelo que a primeira década do casamento da rainha é passada em Coimbra, sendo que depois provavelmente acompanhará a normal itinerância da corte.
Nada se sabe sobre o dote que trouxe ou das arras que lhe foram concedidas, e do seu séquito sabe-se que, entre outros, trouxe Martim de Aragão que aqui se estabeleceu e casou com D. Maria Reimondo ou Reimondes e uma aia, D. Toda Palazim, talvez filha de D. Palazim, cavaleiro aragonês e tenente de Saragoça, que a acompanhou toda a vida e que depois da morte da rainha ajudou a criar os filhos mais pequenos, sendo-lhe feita por D. Sancho I a doação do reguengo de Entre Ambos-os-Rios.
Segundo Luciano Cordeiro, a rainha "Formosa e excellente senhora, tranquilla e modesta, condizente no carácter com o nome", gostava de administrar e acrescentar a sua casa, conservando-se indiferente à política. Suportou as ausências do marido constantemente em batalha contra os mouros para expansão do reino, os surtos de fome e as epidemias que o reino atravessou e que prejudicaram a saúde do seu herdeiro Afonso, o futuro rei leproso. Aguentou também o feitio inconstante do rei e os seus ciúmes. Diz o Conde de Sabugosa no seu livro “Donas de Tempos Idos”:
Conta-se que induzido pelos murmúrios pérfidos de algumas vozes de invejosos, picados pelo valimento de algum mimoso da côrte, valente e galenteador. O Rei chegou a suspeitar da fidelidade de sua mulher. A Regina Dulcia, e a manifestar a intenção de castigá-la e ao suposto cúmplice. Ficou porém inconsolável pela sua suspeita ao reconhecer a inocência dos dois, e pesaroso por ter dado ouvidos a perversos caluniadores.
Dulce de Aragão estava inocente, e não consta mesmo que, usando dos seus encantos, quisesse vingar-se das empresas amorosas do marido”.
Se não há a certeza que a Rainha D. Mafalda, esposa de D. Afonso Henriques possuísse bens em Portugal, não acontece o mesmo em relação à sua nora, pois em testamento feito em 1188, quando tencionava visitar a Palestina, D. Sancho I deixa a sua mulher os rendimentos de Alenquer, terras do Vouga, de Santa Maria e do Porto; ignora-se se a rainha gozou os rendimentos de todos estes bens, mas enquanto a Alenquer, junto a um lugar chamado Marinha fez a rainha muitas aquisições de terras e courelas que comprou a diversos, sendo de facto, senhora de Alenquer. Comprou também várias terras na Beira, adquiriu Ervedel, que doou à albergaria de Poiares, perto de Coimbra, comprou dezanove casais em Travanca (de Lagos) e as herdades de Sameice e de Seia, pelo que se pode depreender que no tempo de D. Sancho I, as rainhas de Portugal já tinham Casa.
Por mandato do rei outorga algumas cartas e entre elas, em 1192, o foral aos povoadores de Mortágua.
Era também uma princesa muito beneficente e piedosa que frequentemente vestia o hábito da Ordem Terceira, no entanto não fundou nem igreja nem mosteiro algum, provavelmente porque a relação de D. Sancho I com o clero foi sempre conflituosa, tendo sido excomungado por várias vezes. Nos primeiros anos do seu reinado doou um cálice de prata dourada e pedras preciosas ao Mosteiro de Alcobaça para serviço no altar-mor conforme consta na inscrição, e outro mais pequeno para servir nos altares laterais. Juntamente com o marido, em 1187,ofereceu também um outro cálice ao Mosteiro de Santa Marinha da Costa, em honra de sua sogra, a rainha D. Mafalda, considerada a fundadora do mosteiro. Na sacristia do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra conservava-se um anel com uma esmeralda, que se diz ter pertencido a D. Dulce.
Conhecida como a “Rainha Fecunda” devido à sua extensa prole, o seu primeiro herdeiro varão só nasceu ao fim de quase doze anos de casamento e quando já toda a corte desesperava, apesar das três infantas já nascidas. Três das suas filhas foram beatificadas, outras foram rainhas, mas apenas assistiu ao casamento de uma delas, a sua primeira filha, D. Teresa, rainha de Leão, pois em 1138, o seu corpo enfraquecido por tantos partos, alguns deles múltiplos, não resistiu ao últimos deles e à peste que então grassava no país, tendo falecido, a 26 de Agosto de 1198.
Tanto D. Sancho como D. Dulce foram sepultado em Santa Cruz de Coimbra, em sepultura rasa. O rei D. Manuel I mandou levantar o rico mausoléu que hoje contém os restos do segundo rei de Portugal e supõe-se que o corpo da rainha se encontre dentro dele, tal como aconteceu com D. Mafalda.

Descendência
D.Teresa (1176-1250), casou com Afonso IX de Leão, fundou o Mosteiro feminino de Lorvão e foi beatificada em 1705.
D. Sancha (1177/1180-1229), fundou o Mosteiro de Celas, em Coimbra e foi beatificada em 1705.
D. Constança (1182-1186?) morreu em criança
D. Afonso (1186- 1223) futuro D. Afonso II de Portugal.
D. Pedro (1187-1258),chamado de Henrique durante o seu primeiro ano de vida, casou com Arumbaix, condessa de Urgel, foi senhor feudal de Maiorca.
D. Fernando (1188-1233), casou com Joana de Constantinopla, condessa da Flandres e de Hainaut.
D. Henrique (1190-1191), morreu em criança.
Uma filha? (1192-?)
D. Raimundo(1195-1196?), morreu em criança.
D. Mafalda (1196-1257), casou com Henrique I de Castela, reestruturou o Mosteiro de Arouca e o de Bouças e foi beatificada em 1705.
D. Branca (1198-1240), monja e senhora de Guadalajara, fundou com a irmã Teresa o Mosteiro de S. Domingos e está sepultada em St. Cruz de Coimbra.
D. Berengária (1198-1220), casou com o rei Valdemar II da Dinamarca.
Talvez mais dois ou três filhos provavelmente mortos à nascença, ou gravidezes que não chegaram ao fim, mas não há registos.


As Primeiras Rainhas - Colecção Rainhas de Portugal do Circulo de Leitores
Oliveira, Ana Rodrigues – Rainhas Medievais de Portugal
Benevides, Francisco da Fonseca – Rainhas de Portugal








quarta-feira, 2 de setembro de 2015

D. Mafalda



Mafalda, Matilde, Mahault ou Mahalda, da vida da primeira rainha de Portugal, como aliás de algumas outras, sabe-se muito pouco.
Filha de Amadeu III, conde de Sabóia, Maurienne e Piemonte e da condessa Mafalda de Albón, ignora-se ao certo o ano e o dia do seu nascimento, supondo-se que tivesse sido entre 1125 e 1130, pelo que teria entre 16 ou 20 anos quando se casou em 1146 com D. Afonso Henriques, que rondaria então os 37 anos de idade, pois a partir desse ano o seu nome figura, embora como Mahalda, em todos os documentos públicos do seu tempo, juntamente com o nome do rei. Seu pai tinha participado na 2ª Cruzada, sendo considerado um príncipe muito piedoso e um fiel Defensor do Papa, e além de D. Mafalda tinha mais 9 filhos. Pelo lado materno era sobrinha do rei Luís VII, de França, visto sua mãe ser irmã da rainha Adelaide, esposa deste soberano. Um seu tio-avô tinha sido Papa entre 1119 e 1124, com o nome de Calisto II e era também bisneta de Berta, imperatriz da Alemanha, casada com o imperador Henrique IV.
Como todas as princesas da sua época deveria possuir uma cuidada formação moral e religiosa influenciada pela Ordem de Cister, mas a noiva do nosso primeiro rei deve ter trazido também, juntamente com as suas aias e validos, alguma coisa da galantaria e do requinte que se verificava entre a alta aristocracia tanto de além Pirenéus como de além Alpes já muito mais sujeita à influência trovadoresca da França, que em Portugal ainda dava os primeiros passos.
As razões para este consórcio também não estão muito bem esclarecidas, mas além da Casa de Sabóia ter fortes ligações com a Casa de Borgonha de que D. Afonso descendia, o rei ganharia um excelente aliado para a expulsão dos mouros do território português. Roma também era favorável a esta união e o facto do monarca se unir matrimonialmente com a filha de um vassalo do imperador romano-germânico não só o distanciava do imperador hispânico, como o prestigiava e favorecia a legitimação do reino junto da Santa Sé.
Mas enquanto decorriam as escolhas e as negociações para o matrimónio do rei, em 1138 ou talvez antes, D. Afonso apaixonou-se por D. Flâmula ou Chamoa Gomes, sobrinha de Fernão Peres de Trava e filha de Gomes Nunes de Pombeiro, antigo conde de Toroño. Tinha sido casada com Paio Soares da Maia, com quem teve 3 filhos. O mais velho, Pedro Pais foi alferes – mor de D.Afonso entre 1147 e 1169. Após enviuvar, D. Chamoa entrou para o Mosteiro de Vairão, mas ainda teve uma relação com D. Mem Rodrigues de Tougues, de quem teve também um filho. É depois destes acontecimentos que D. Afonso estabelece com ela uma relação sentimental da qual nasceram 2 filhos e que só acaba com o casamento do Rei. Chamoa foi o grande amor da vida do monarca português que tudo tentou para casar com ela, mas dado que era “devota, isto é deo vota, votada a Deus”, nem a Santa Sé teria poder para a desligar dos votos monásticos. Por outro lado, D. Afonso teria também a oposição dos barões portugueses que, de maneira nenhuma, quereriam ver uma sobrinha do conde Fernão Peres de Trava, sentada no trono de Portugal…
Atendendo a todas estas razões e porque era imperioso garantir a sucessão do trono, D. Afonso Henriques aceita o casamento com D. Mafalda e Chamoa Gomes retira-se para o convento de Grijó, onde ainda sobreviveu ao rei. Seria um casamento de conveniência, como era normal na época, mas os cronistas dizem que era “mui formosa e dotada de muitas bondades.” Dizem também que tinha mau génio, que a união não seria muito pacífica, e que a presença da rainha no reino não estivera isenta de conflitos.
O mais célebre deu-se com S. Teotónio, prior do Mosteiro de St. Cruz, de quem se dizia que D. Afonso quando o via, descia do cavalo para lhe beijar a mão. Diz a tradição que D. Mafalda era de partos difíceis; assim achando-se uma vez às portas da morte, por ocasião de estar no último período de gravidez, sem poder nem ter forças para parir, diz a lenda que mandara chamar S. Teotónio, o qual deitando-lhe a benção, logo a rainha dera à luz o menino com toda a facilidade. Um quadro foi mandado fazer, em 1627, pelo prior geral D. Miguel de Santos Agostinho, para a capela de S. Teotónio na igreja de Santa Cruz, representando aquele milagre.
A Rainha foi depois ao Mosteiro em acção de graças, pela recuperação do parto, e pretendeu de todos os modos, ver o claustro interior. S. Teotónio guardava-se das mulheres como se fossem inimigos e nunca falava com uma sem ter testemunhas, recusou-lhe terminantemente a entrada por “nem ser coisa de ordem nem de louvável costume, mulher alguma entrar na morada dos que fugiam ao mundo, senão por ventura fosse morta nem ser ofício de rainha, nem por Deus lhe seria reputado a glória fazer tal cousa.” - Em Vida de S. Teotónio, 1968 p.164. Acrescenta Fonseca Benevides, que muitas foram as desavenças entre a rainha e o prior, a quem perseguiu com o seu ódio e muitas vexações.
De qualquer modo, D. Mafalda cumpriu em pleno o seu papel de procriadora, dando à luz em 12 anos de casada, sete filhos. O primogénito herdeiro, a quem foi dado o nome de Henrique, nasceu a 5 de Março de 1147, fruto de um parto difícil e complicado, como foram todos os seis seguintes. Sucederam-se Urraca (1148), Teresa (1151), Mafalda (1153), Martinho, futuro Sancho I (1154), João (1156) e Sancha, nascida em 1157 a quem não chegou a ver pois morreu dez dias após o seu nascimento.
Não se conhece qualquer interferência da rainha na vida política do país. Dedicou-se à educação dos seus filhos e dos bastardos do rei, que como era uso na altura eram criados juntos e passou pelo desgosto de ver morrer o seu primogénito. Às mortes do outros três filhos que morreram jovens, Mafalda, João e Sancha , já não assistiu, pois já não era deste mundo.
Quanto ao seu casamento, é certo que durante os doze anos que durou, não se conheceram quaisquer ligações amorosas ao rei, mas dado o feitio colérico de D. Afonso, sujeito a excessos, violências e brutalidades e as suas constantes ausências da corte devido aos combates que teve de travar para a expansão e consolidação do reino, não deve ter primado pela felicidade...
Segundo as poucas notícias que temos dela, são-lhe atribuídas algumas obras sociais, como a fundação de uma igreja em Marco de Canaveses juntamente com uma albergaria para peregrinos e pobres “e com boas portas fechadas porque os peregrinos que ali albergarem não recebam algum desaguisado. E estarão aí camas boas e limpas em que se possam bem albergar nove desses peregrinos, aos quais serão dadas rações de entrada ou de saída e lume e água e sal quanto lhe fizer mester. E finando-se algum desses peregrinos seja enterrado com três missas. E com pano e cera.” – La Figaniére, 1859,p.222.
Fundou também o Mosteiro da Costa, sobranceiro a Guimarães. Atribui-se-lhe o estabelecimento do serviço de dois barcos em Moledo e Porto de Rei, de modo a proporcionar a travessia do rio Douro, perto de Lamego. Os barqueiros recebiam pelo serviço as rendas de algumas propriedades locais pertencentes à rainha e estavam proibidos de cobrar o que quer que fosse aos passageiros, sob pena de multa ou prisão. Mandou também construir uma ponte sobre o rio Tâmega e outra sobre o Douro, em Mesão Frio.
Morreu a 3 de Dezembro de 1157/1158, provavelmente de complicações do último parto, com cerca de 32 anos e jaz sepultada na Igreja de St. Cruz, no mesmo mausoléu do seu marido, que lhe sobreviveu 27 anos.

Descendência:

D. Henrique (1147 – 1155) presumível herdeiro do trono, falecido aos 8 anos de idade.
D.Urraca ( 1148 – 1211?) casada com Fernando II, de Leão e cujo casamento foi anulado pelo Papa ao fim de onze anos de casamento, por falta de dispensa de parentesco.
D. Teresa (1151 – 1218) também conhecida por Matilde, casou em primeiras núpcias com o conde Filipe da Flandres em 1184, e depois com o duque Odo III da Borgonha, de quem se separou, tendo-se tornado condessa regente da Flandres.
D. Mafalda (1153 – 1162) noiva de Afonso II de Aragão, morreu jovem.
D. Martinho, futuro Sancho I (1154-1211) herdeiro do trono de Portugal, depois da morte do seu irmão Henrique, altura em que lhe trocaram o nome para Sancho por ser um nome mais usual entre os monarcas leoneses.
D. João (1156 – 1163) falecido ainda criança.
D. Sancha (1157 – 1167) faleceu aos dez anos.
Fontes:
Domingues, Mário – D. Afonso Henriques
Freitas do Amaral, Diogo – D. Afonso Henriques
Benevides, Francisco da Fonseca – Rainhas de Portugal
Oliveira, Ana Rodrigues – Rainhas Medievais de Portugal
Imagem: Purl,pt

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Tratado das Terçarias de Moura



Simultâneamente e para servir de base ao acordo de paz alcançado pelo Tratado das Alcáçovas, essencialmente político, redigiu-se o chamado Tratado das Terçerias ou Terçarias de Moura, em que se definiam as questões referentes à crise dinástica castelhana, além de registar as garantias de paz dadas por cada uma das partes.
”Terçaria” significa caução ou depósito à guarda de outrem, neste caso “o depósito” seriam crianças, quase como se fossem reféns.
As condições eram um tanto duras para qualquer dos lados, mas principalmente para D. Joana de Trastâmara, a quem os castelhanos chamavam de “empecilho” e que, através deste acordo era definitivamente arredada da linha sucessória ao trono castelhano.
Vale a pena realçar que estes acordos foram elaborados, nas suas linhas gerais, por duas das mulheres mais poderosas do seu tempo que, apercebendo-se da indecisão em acabar com um conflito que arruinava economicamente os dois reinos, se sentaram frente a frente e levaram a bom termo as negociações que culminariam numa paz honrosa e na satisfação das ambições pessoais dos soberanos castelhanos e do futuro rei de Portugal, D. João II.
Pelo lado português, a infanta D. Beatriz, duquesa de Viseu, cunhada de D. Afonso V e ao mesmo tempo, tia e sogra do príncipe herdeiro português; pelo lado espanhol, sua sobrinha, a própria rainha de Castela, Dona Isabel, filha da irmã mais velha de D. Beatriz, a infanta Isabel de Portugal, 2ª esposa do rei D. João II, de Castela.
(A “Excelente Senhora”, embora também sua sobrinha. era filha de D. Joana, cunhada da duquesa de Viseu”).
Em todo este processo, D. Afonso V nem sequer foi ouvido. A 15 de Abril de 1479, delega todos os poderes do reino em seu filho e herdeiro, excepto o cargo de protector da Universidade que reserva para si, retirando-se assim não só da vida activa, como de qualquer participação no futuro da sua jovem esposa.
Como primeira condição, sem a qual não haveria qualquer negociação, Isabel de Castela exigia que “la muchacha”, ou seja, D. Joana, renunciasse a todo e qualquer título real (infanta, princesa, rainha), uma vez que não a considerava filha de rei, nem que o casamento de seus pais tivesse sido canonicamente válido. Tudo o resto era passível de acordo.
Assim, ficou consignado que:
D. Afonso, primogénito (e único filho sobrevivente, 1475-1491) de D. João, príncipe herdeiro de D. Afonso V (e futuro D. João II, 1481-1495) casaria com D. Isabel, filha mais velha dos Reis Católicos de Espanha. Do seu dote metade do valor revertia para indemnizações do montante gasto por D. Afonso V nas guerras com Castela, ficando a verba restante passível da sua restituição aos Reis Católicos caso não se cumprisse o estipulado no acordo preliminar.
A Excelente Senhora, então com 17 anos de idade, casaria com o filho varão mais velho dos Reis Católicos, D. João (apesar deste ainda ter apenas 1 ano de idade), quando este atingisse os 14 anos (e ela então 31…), passando a partir deste matrimónio a poder intitular-se "princesa" e recebendo uma avultada verba como direitos senhoriais.
Se D. João, filho dos Reis Católicos, recusasse desposar D. Joana, era-lhe levantada a terçaria e receberia de Espanha uma indemnização.
Caso o príncipe morresse antes do casamento se realizar e houvesse outro filho varão, D. Joana casaria então com este, caso ela, na altura, não excedesse os vinte anos de idade.
Poderia renunciar a este casamento, mas perderia então o direito ao dote e às arras prometidas, e seria obrigada a ficar em terçaria ou entrar para um convento.
A partir do momento em que entrasse em terçaria, a Excelente Senhora renunciaria a todos os títulos que reclamava para si, ou que lhe tivessem sido dados pelo rei de Portugal.
Caso ela preferisse, poderia optar de imediato pela vida religiosa – nomeando-se os conventos que a deveriam receber – comprometendo-se a não interferir nos assuntos castelhanos. Se resolvesse quebrar a clausura, reentrava imediatamente em terçaria. A sua deslocação só seria permitida em caso de peste ou de algum perigo que ameaçasse a sua vida, mas teria de ser dada imediata informação oficial aos Reis Católicos.
Neste regime foi estipulado que ficariam também D. Afonso (o filho de D. João II) e D. Isabel (filha dos Reis Católicos), até que todas as cláusulas do Tratado de Alcáçovas fossem cumpridas.
Os três ficariam sob a vigilância e educação da Infanta D. Beatriz de Viseu. Como garantia, esta infanta entregaria à guarda dos Reis Católicos o seu filho mais velho, D. Diogo, Duque de Viseu. Como este adoeceu, em seu lugar foi enviado o seu irmão mais novo, o infante D. Manuel, até que D. Diogo se restabelecesse.
Em regime de terçaria, conforme estipulado no Tratado, nenhum dos três infantes podia ser vez alguma visitado nem por D. Afonso V, nem pelo príncipe D. João ou pelos Reis Católicos. Para este efeito foi escolhida a vila raiana de Moura, propriedade da duquesa de Viseu.
Joana optou pela vida monástica em 1480, ingressando nas Clarissas, recusando assim, novamente, a redução a terçaria. Dois anos depois, em 1482, abandonou o estado claustral, com D. João II, já rei, que lhe deu estatuto de rainha e casa senhorial com título e direitos, que manteve durante os reinados seguintes de D. Manuel I, que muito a estimava, e de D. João III, a quem nomeou como seu herdeiro, ao falecer.
Apesar de os reis de Castela obrigarem em 1483 D. João II a jurar que não deixaria que D. Joana contraísse matrimónio, saísse de Portugal ou abandonasse a vida religiosa, o certo é que vários casamentos lhe foram apresentados e que sempre recusou.
Toda esta liberdade inspirou tal receio aos Reis Católicos que, quando D. Manuel I subiu ao trono, para evitar um possível matrimónio entre ambos e a consequente reclamação do reino castelhano, estes lhe deram em casamento, sucessivamente, duas das suas filhas!
E em 1505, já viúvo de Isabel de Castela, o astucioso Fernando de Aragão, a contas com um complicado sistema de regência e nada interessado em ceder a coroa a sua filha e herdeira Joana, casada com Felipe, o Belo, pede a Excelente Senhora em casamento, para, em seu nome, assegurar a sucessão do mesmo reino de onde, anos atrás, com tanta dureza e crueldade a tinham afastado…

Fontes: Gomes, Saúl António – D. Afonso V
Oliveira, Ana Rodrigues – Rainhas Medievais de Portugal
www.infopedia.org

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A Excelente Senhora – IV


… “deixou o título de rainha, e tomou o nome de D. Joana, e despiu o seu corpo dos brocados e sedas que trazia, e vestiram-na com os hábitos pardos de Santa Clara. Tiraram-lhe da cabeça a Coroa Real de Castela e Portugal de que era intitulada, cortaram-lhe os seus cabelos como a uma pobre donzela, e por maior agravo e mágoa, não lhe deixaram os servidores de seu gosto e vontade, nem nada que tivesse imagem d’estado”.

Foi assim que Rui de Pina, nas suas Crónicas, se refere à entrada de D. Joana, a 6 de Outubro de 1479, no Convento de Santa Clara de Santarém, dando início ao estipulado nos acordos assinados em Alcáçovas. Por duas vezes é deslocada para outros conventos devido aos surtos de peste que assolaram o país, até que no verão de 1480 é conduzida pelo príncipe D. João para Santa Clara de Coimbra onde, a 15 de Novembro desse mesmo ano, acabado o noviciado, pronuncia os votos solenes na presença do príncipe herdeiro português e dos embaixadores castelhanos enviados pelos Reis Católicos.

Não foi sem uma certa revolta que a infanta se resolveu a professar, mas D.João, para quem a razão do Estado justificava este sacrifício, pressionou-a “com esperanças de futuro bem e com palavras assy brandas e prudentes”. Confiando no príncipe, D. Joana acedeu.

D. Afonso V esteve sempre afastado deste processo, mas a 21 de Outubro desse ano, contrariamente ao acordado em Alcáçovas, resolve restituir o título de infanta a D. Joana:

“A nós praz que a muito excelente Senhora Dona Joana, minha muito prezada e amada sobrinha, haja daqui em diante e goze de todas as honras, privilégios, liberdades e franquezas que sempre houveram e de que sempre gozaram as infantas, filhas dos reis destes reinos”. Apenas o título de “Excelente Senhora” lhe foi concedido.

Em 1481 morre de peste D. Afonso V no palácio de Sintra, no mesmo quarto onde nascera quarenta e nove anos antes. Sobe ao trono seu filho, o rei D. João II e nesse mesmo ano já a Excelente Senhora se não encontrava no convento, tendo regressado a Abrantes, para grande inquietação dos Reis Católicos que em 1483 pediram ao Papa a emissão de uma bula que a proibisse sair do convento. Como D. João II não fizesse caso da bula papal, foi redigido outro acordo em como este jurava que não lhe permitiria casar, sair de Portugal ou abandonar a vida religiosa.

Durante toda a sua longa vida, D. Joana constitui sempre um perigo para os reis de Espanha e um trunfo para os reis portugueses que lhe proporcionaram, como diz Damião de Góis, Casa e estado de rainha, recusando sempre entregá-la a Castela.

Em 1505, depois da morte de Isabel, a Católica, o seu viúvo Fernando de Aragão propôs casamento a D. Joana, que recusou.

Atravessou os reinados de D. João II, de D. Manuel I, que a mandou vir de Abrantes para Lisboa, onde viveu nos Paços da Alcáçova, e a quem os Reis Católicos com receio de um possível enlace entre eles, ofereceram ao rei português a mão da sua filha mais velha, Isabel, e após a morte desta, a mão da segunda. Em 1522, reinando já D. João III, e por achar que já não estava em idade para casar e ter filhos, nomeou-o herdeiro dos seus direitos, assinando o documento como: Yo, La Reina.

Faleceu a 28 de Julho de 1530, aos 68 anos de idade, nos Paços da Alcáçova e foi sepultada no Mosteiro de Santa Clara de Lisboa, num jazigo junto à sala capitular, embora no seu testamento tivesse pedido para a sepultarem no Convento de Santo António do Varatojo, com o hábito de S. Francisco. Os reis portugueses puseram luto em sua homenagem e em 1545, a rainha D. Catarina mandar-lhe-ia construir um túmulo mais adequado à sua condição de “Rainha de Castela e Leão”.

Mas porque Deos nom padece engano por castigo, a infeliz Beltraneja pôde assistir em vida ao ruir das ambições dinásticas dos que tanto mal lhe fizeram. D. João II viu morrer o seu único filho, D. Afonso, logo após o tão ambicionado casamento com a infanta Isabel de Espanha, sem deixar herdeiros, ficando o trono para um ramo colateral. Isabel, a Católica, viu morrer também o seu único filho varão sem descendência, depois as outras duas filhas e um neto, ficando o trono de Castela para a sua filha mais nova, Joana, cuja demência fez com que a encerrassem ainda jovem, no castelo de Tordesilhas para o resto da sua também longa vida.

 Fontes: Gomes, António Saul – D. Afonso V
Serrano, Joana Bouza – As Avis
Oliveira, Ana Rodrigues – Rainhas Medievais de Portugal
Arteaga, Almudena de – A Beltraneja
Cassotti, Marsílio – A Rainha Adúltera
Crónicas de Rui de Pina
www.wikipedia.org

 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Excelente Senhora – III


“D. Joana, pela graça de Deus, rainha de Castela, de Leão, de Portugal, de Toledo, de Sevilha, de Córdova, de Múrcia, de Jaén, do Algarve, de Algeciras, de Gibraltar, Senhora de Viscaya e de Molina”.

Contando com o apoio dos nobres castelhanos partidários de Joana, e com promessas de auxílio de Luís XI, rei de França, D. Afonso V entra em Castela com o seu exército, tendo-se entretanto efectuado o casamento por procuração no Castelo de Trujillo, pertencente ao marquês de Vilhena, tutor da infanta. Findo este, foi a princesa conduzida a Palência, em cuja catedral se celebrou solenemente o matrimónio e onde pela primeira vez D. Joana, com apenas 13 anos de idade, se encontrou com o seu tio e marido, 40 anos mais velho…

Embora D. Afonso V se tenha casado com a sobrinha ao abrigo de uma dispensa papal expedida por Pio II, que lhe permitia fazê-lo “com mulher livre, solteira e não raptada”, e legitimando os filhos que viessem a nascer, imediatamente se enviou um pedido ao papa Sisto IV, para que fosse passada outra mais específica, dados os laços de consanguinidade que uniam os nubentes.

Apesar de o matrimónio não poder ser consumado devido à pouca idade da noiva, procedeu-se à entronização dos cônjuges como Reis de Castela e Leão, após o que os seus adversários, Isabel e Fernando de Aragão, se passaram a intitular Reis de Portugal.

Com Castela dividida entre duas rainhas, uma apoiada por Aragão e a outra auxiliada por Portugal, depressa se chegou ao confronto armado. Em 1476, a batalha de Toro, perto de Zamora, pôs fim às ilusões de Joana…D. Afonso V, apesar de ter jurado nunca a retirar dos seus reinos, prometendo-lhe conquistá-los e pacificá-los, entendeu por bem abandonar Castela e regressar a Portugal com a sua jovem mulher para preparar uma nova invasão.

A nova rainha de Portugal é escoltada até Abrantes pelo príncipe D. João, onde fica completamente afastada da corte e do rei, que entretanto se deslocara a França em busca de auxílio militar, tanto de Luís XI como do duque da Borgonha, Carlos o Temerário, filho de sua tia Isabel, assim como da intercessão destes junto do papa para que a bula requerida para a consumação do matrimónio fosse expedida. Mas o caracter fraco e indeciso do rei de Portugal assim como a sua boa-fé foram aproveitados pelo monarca francês para se livrar do seu principal inimigo, o duque da Borgonha, assinando depois um acordo com Isabel e Fernando de Aragão, retirando o seu apoio ao rei português.

Por sua vez Sisto IV, pressionado pelos reis castelhanos, não envia a bula requerida, e o monarca português, velho, gasto e cansado, resolve abdicar do trono, mandando que seu filho seja o rei, partindo para Jerusalém com a intenção de consagrar a sua vida a Deus!

E a jovem D. Joana? Duas vezes rainha, por nascimento e por matrimónio, esbulhada do seu reino de Castela ao qual nunca mais voltaria, a sua situação em Portugal era bastante incómoda. Rainha consorte ainda à espera da legitimação e consumação do matrimónio, afastada de uma corte que não a queria, abandonada pelo marido vivia em Aveiro junto de sua prima e enteada, também chamada Joana, à espera que o seu destino se decidisse…

E a sua sorte não melhorou com o regresso de D. Afonso V ao reino. Instado pelo filho aceitou de novo a coroa, mas deixou que se entabulassem conversações com Castela tendo em vista a reconciliação entre os dois reinos e o que fazer de D. Joana. Por Portugal, foi a infanta D. Beatriz, cunhada do rei português e tia da jovem rainha que conduziu as negociações junto da representante de Castela, a outra tia da infanta, a própria rainha D. Isabel.

O Tratado de Alcáçovas, também chamado de Alcáçovas-Toledo, ou Paz das Alcáçovas assinado a 4 de Setembro de 1479, ratificado pelo rei de Portugal em Setembro do mesmo ano e pelos futuros Reis Católicos em Março de 1489, em Toledo, seguido das chamadas “Tercerias de Moura”, de que falaremos a seguir, põe fim a todas as ilusões que a infeliz D. Joana pudesse albergar…

Depois de pedida a anulação do seu casamento, sacrificada pela própria família aos interesses de Estado, prefere aceitar a entrada num convento do que sujeitar-se às humilhações que os tratados lhe impõem…

 

 

 

sábado, 17 de novembro de 2012

A Excelente Senhora – II


Para acabar com esses rumores, o rei permitiu um parto público, pelo que, no momento do nascimento da pequena infanta, a quem foi dado o mesmo nome da mãe, encontravam-se, além do Rei e do arcebispo de Toledo, vários senhores da grande nobreza castelhana, certificando com a sua presença conforme os costumes da época, que não havia troca de crianças e se tratava realmente do filho do rei e da rainha.

Apesar disso, e de se constar muito em segredo que a rainha teria engravidado através de fecundação assistida praticada pelo médico judeu da corte com processos rudimentares (a primeira de que se tem conhecimento), a pedido do próprio Henrique IV para quem o nascimento de um herdeiro era absolutamente vital, os boatos sobre a infidelidade da rainha aumentaram quando se soube que oito dias antes do nascimento da princesa, o rei tinha elevado D. Béltran de la Cueva a conde de Ledesma!

A partir daí, a pequena Joana passou a ser apelidada de “a Beltraneja” pela forte facção dos nobres que se opunham ao rei, o que não impediu que fosse reconhecida como herdeira do trono nas Cortes de Toledo, reunidas nesse mesmo ano.

Dois anos depois do nascimento de Joana, o monarca, incapaz de resistir às pressões dos seus opositores e para evitar maiores confrontos, aceitou nomear o seu meio-irmão Afonso, de onze anos de idade, como seu sucessor, na condição de que este casasse com a sobrinha. Desta maneira, o próprio pai reconhecia publicamente a bastardia da filha!

 Como mesmo assim as intrigas palacianas e a contestação não abrandassem, Henrique IV procurou apoio militar em Portugal, oferecendo ao rei D. Afonso V, seu cunhado e viúvo há vários anos, a mão da sua meia-irmã Isabel, negociando também o casamento do príncipe herdeiro português, João, com a sua filha Joana.

A oferta era excelente para Portugal, mas o rei português apesar de ter assinado os capítulos do contracto matrimonial em Setembro de 1465, não se deu a grandes pressas e a oportunidade gorou-se para desgosto do príncipe de Portugal, entusiasmado com esse casamento.

Mas em Castela os anos que se seguiram foram bastante conturbados, ficando a rainha e a princesa “reféns” das mais poderosas famílias que apoiavam, ou melhor, dominavam o rei. A rainha D. Joana foi entregue à guarda do arcebispo de Sevilha, acabando por se apaixonar por um sobrinho deste, de quem teve dois filhos, o que não obstou a que até ao fim da sua vida lutasse pelos direitos sucessórios da filha. Ao contrário do marido, fraco e indeciso, a rainha de Castela tinha um caracter forte e enérgico que até os seus adversários reconheciam…Contudo, esta paixão foi funesta para a sua reputação e em nada beneficiou a filha.

Em 1468 morre em Castela o infante D. Afonso vitimado pela peste, e as forças contrárias ao rei através do pacto de Toros de Guisando, impõem a infanta Isabel como herdeira do trono castelhano, ao que Henrique IV, velho e cansado, mais uma vez acedeu, com a condição de que a infanta se não poderia casar sem o seu consentimento. Novamente Joana era humilhantemente preterida, desta vez em favor da sua tia e madrinha, apenas o tutor da pequena princesa protestou junto do papa contra a exclusão da legítima herdeira. Neste pacto, o rei concordou também em separar-se da rainha, devido ao seu adultério.

Quando em 1469, o Papa Paulo II envia a bula de dispensa de impedimento de casamento devido à proximidade de parentesco, Isabel quebrou o acordo e à revelia do irmão casou-se com o príncipe herdeiro de Aragão. Furioso, Henrique IV revoga o pacto anterior e Joana volta novamente a ser declarada a legítima sucessora do trono castelhano, depois de sua mãe ter jurado de que ela era verdadeiramente filha legítima do rei, primogénita e única herdeira do reino, juramento esse feito publicamente durante uma missa celebrada para o efeito, assistida pelo rei e parte da nobreza, sendo esse juramento sacramentado pela comunhão, após o que a rainha se recolheu ao Convento de S. Francisco de Madrid.

Em Outubro de 1470 é proclamada Princesa das Astúrias e outro noivo se perfila no horizonte…Desta vez a escolha recaiu sobre Carlos, duque de Guyenne e Berry, irmão de Luís XI de França, tendo-se realizado os esponsais por procuração. Mas como diz o velho ditado – Quando a sorte é adversa nada vale ao infeliz – ainda não foi desta vez que a pequena princesa de oito anos conheceu o noivo. Em 1472 o duque morre e a dança matrimonial continua…

As atenções voltam-se novamente para Portugal, mas como o príncipe João entretanto se tinha casado com sua prima Leonor, a mão de Joana foi oferecida ao rei D. Afonso V. Enquanto as negociações decorriam, o monarca castelhano que já se encontrava doente morre em 1474, ao regressar de uma caçada, e seis meses depois morria a rainha Joana, deixando a jovem princesa entregue aos cuidados dos seus tutores, o cardeal de Espanha, o duque de Arévalo, o marquês de Vilhena, o condestável de Castela e o conde de Benavente.

Com apenas doze anos de idade, Joana encontrava-se órfã de pai e de mãe, à espera de um marido que defendesse os seus direitos à Coroa castelhana, pois assim que o rei morreu, a infanta Isabel proclamou-se como a legal sucessora ao trono, com base no testamento do seu pai, o rei João II, e na ilegitimidade da “Beltraneja”, fazendo-se jurar como rainha de Castela.

E aí o rei português acordou! Ao ver tão ao seu alcance a Coroa de Castela, o último rei cavaleiro da Idade Média em Portugal, pôs de lado o seu longo celibato de vinte e três anos e correu em socorro da sua pequena dama…

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A Excelente Senhora – I



Nascida para reinar, nunca a coroa de rainha que lhe estava destinada pousou na sua cabeça…Noiva várias vezes e depois casada, o seu matrimónio nunca foi consumado…E a sua juventude sumiu-se aos 18 anos de idade, por detrás das grades de um convento

Filha única do rei Henrique IV de Castela e da sua segunda esposa, a princesa D. Joana, irmã do rei D. Afonso V de Portugal, nasceu a 28 de Fevereiro de 1462, ao fim de sete anos de matrimónio, sendo-lhe posto o nome de sua mãe, Joana. A sua madrinha de baptismo foi a meia-irmã de seu pai, a infanta Isabel, mais tarde conhecida como “Isabel, a Católica”, que num futuro próximo lhe tomaria a coroa sem nenhum remorso.

Jurada herdeira da coroa castelhana no mesmo ano em que nasceu, é o seu próprio pai, que em 1464 lhe passa um atestado de ilegitimidade, quando, cedendo a pressões internas, nomeia herdeiro do trono a seu meio-irmão Afonso, na condição de que ele case com a sobrinha!

Tão pouca idade e já tão maus pronúncios… Mas porquê?

Recuemos um pouco no tempo…

Henrique IV, então apenas o herdeiro do trono de Castela, tinha casado aos 16 anos com Branca de Navarra, da qual se separou 13 anos mais tarde, já rei, e sem, ao que parece, conseguir consumar o matrimónio. Os rumores de impotência do rei espalharam-se pelas diversas cortes, mas isso não impediu que D. Afonso V, de Portugal, lhe cedesse a sua jovem e bela irmã em casamento. A esterilidade era sempre atribuída às mulheres,

além de que, havia prostitutas que garantiam a virilidade do monarca castelhano…e a paz com Castela era muito mais importante!

E assim, depois de obtida a dispensa papal para o casamento, visto serem primos, o matrimónio realizou-se em Maio de 1455. Mas Henrique IV proibiu que na manhã seguinte à noite de núpcias fosse exibido, como era costume, o lençol manchado de sangue atestando a virgindade da rainha e a virilidade do rei, Da virgindade da rainha, com apenas 16 anos de idade, ninguém duvidava, mas os rumores de impotência do rei foram aumentando de tom, conforme os anos passavam sem que o esperado herdeiro aparecesse.

Por sua vez, o comportamento frívolo da rainha e das suas damas não eram de molde a pacificar os rumores, pelo contrário. A rápida ascensão na corte de um jovem e atraente fidalgo chamado Beltrán de la Cueva, que tinha conquistado as simpatias do casal real, e junto de quem a rainha se divertia em saraus e torneios, assim como a deterioração das relações do rei com o seu valido, o marquês de Villena, levaram a que em breve se falasse na homossexualidade do monarca e nos amores da rainha com o novo favorito.

Henrique IV assumiu então de forma escandalosa duas relações públicas, uma delas com uma das damas da rainha, provavelmente para provar a falta de fundamentos dessas acusações, mas nenhuma delas deu “frutos”.

Quando em 1462, ao fim de sete anos de casamento, a rainha ficou finalmente grávida, foram muitos os que duvidaram da verdadeira paternidade da criança…

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Filipa de Lencastre – III


Dado o agravamento do estado da rainha, e por perigo de contágio, o rei foi aconselhado a ir para Alhos Vedros, até ao seu falecimento.
Conta-se que à hora da morte, a Virgem lhe apareceu:
“ E esta Rainha Dona Filipa, que estando naquele ponto que já ouvistes, lhe apareceu Nossa Senhora, para lhe dar verdadeiro esforço para passagem daquela hora forte. Cá depois destas cousas que já dissemos, ela endereçou seu rosto para cima, tendo seus olhos directamente para o céu, sem nenhum mudamento de contenença.E foi visto em ela um ar todo cheio de graça. O qual todos, visivelmente conheciam que era espiritual, juntando suas mãos, como temos em costume fazer, quando vimos o corpo do Senhor e disse: “Grandes louvoures sejam dados a Vós, minha Senhora, porque vos prouve do alto me virdes visitar. E assim filhou a roupa que tinha sobre si, e a beijou, como se beijasse uma paz.”Idem, pp.161/2.
Como os médicos previssem a sua morte para o dia seguinte, mandou que começassem a rezar a defuntos, acompanhando as orações e corrigindo-as quando não as achava bem, confessou-se comungou e recebeu a extrema-unção. Quando o ofício acabou, levantou os olhos ao céu e segundo diz Zurara “sem nenhum trabalho nem pena, deu a sua alma nas mãos d’ Aquele que a criou, parecendo em sua boca um ar de riso. Cá assim há-de ser, segundo tenção de alguns doutores, que o homem que direitamente há-de viver, venha a este mundo chorando e se parta dele rindo.”Idem pp. 164.
Morreu de peste, tal como sua mãe, a 18 de Julho de 1415, com 55 anos de idade, ficando sepultada em Odivelas. Em 1416, D. João mandou trasladá-la para o Mosteiro da Batalha, mas só em 1434 é que o seu corpo, assim como o do rei, seu marido, foram depostos no duplo túmulo jacente onde hoje os podemos ver. Em 1810, a face oeste do túmulo foi danificada durante as invasões francesas.
A única rainha inglesa que Portugal teve, a ela se deve a fortificação das relações políticas entre os dois países, mantendo vivo o Tratado de Windsor. Foi dela a ideia de casar a filha bastarda do rei, a infanta D. Beatriz, com o conde de Arundel.
Esposa e mãe exemplar, austera, recatada e devota, reinou de 1387 a 1415, mas como mulher, conseguiu que D. João I lhe fosse sempre fiel durante tantos anos de casamento, o que desdiz um pouco da imagem “glacial” com que geralmente a encaramos…
Descendência:
Branca de Portugal (1388-1389) morreu jovem
Afonso de Portugal (1390-1400) morreu jovem
Duarte de Portugal (1391-1438), sucessor do pai no trono português, poeta e escritor
Pedro, Duque de Coimbra (1392-1449), foi um dos príncipes mais esclarecidos do seu tempo. Foi regente durante a menoridade do seu sobrinho, o futuro rei D. Afonso V e morreu na Batalha de Alfarrobeira
Henrique, Duque de Viseu, O Navegador (1394-1460), investiu a sua fortuna em investigação relacionada com navegação, náutica e cartografia. Mestre da Ordem de Cristo.
Isabel (1397-1471) casou com Filipe III, Duque da Borgonha e entreteve uma corte refinada e erudita nas suas terras
João, condestável de Portugal, (1400-1442) e avô de Isabel de Castela
Fernando, o Infante Santo (1402-1433), morreu no cativeiro em Fez

Fernando Pessoa, na sua Mensagem, chama-lhe “Madrinha de Portugal”:



Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Gral,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!


Fontes: www.wikipedia.org
Faria, Américo – Dicionário de Mulheres Célebres
Pessoa, Fernando – Mensagem
Lourenço, Paula, Ana Cristina Pereira, Joana Troni – As amantes dos reis de Portugal.
Lapa, Rodrigues – Prosas históricas, de Gomes Eanes de Zurara.