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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

INVERNO



Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.
Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.
Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.
Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.
Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.
Eugénio de Andrade -  in Aquela nuvem e outras

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Poemas A. Nobre

Certa Velhinha

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que triste velhinha que vae a passar!
Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes...
Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

Os ventos entoam cantigas funestas,
Relampagos tingem de vermelho o Azul!
Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
Com vento da Barra puxado do sul?

Aonde irá ella, pastores! boieiras!
Aonde irá ella, n'uma noite assim?
Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

Contava-me aquella que a tumba já cerra,
Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
Porque em noites d'estas não anda ninguem...

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Que linda velhinha que vem a passar!
E que olhos aquelles que parecem luzes!
Quaes velas accezas que a vêm a guiar...

Que pobre capinha que leva de rastros,
Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
É o céu estrellado vestido do envez...

Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
Parece uma vinha de luar em flor...
Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
So no céu ha uvas com aquella cor...

A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
Que ao redor espalha divino clarão!
Parece que chove luar na montanha...
Que noite de inverno que parece verão!

Além, na tapada das Quatorze Cruzes,
Velhinha tão alta que vem a chegar!
Parece uma Torre côada de luzes!
Ou antes a Torre de Marfim, a andar!

Não! Não é uma Torre côada de luzes,
Nem antes a Torre de Marfim, a andar,
Que pela tapada das Quatorze Cruzes,
N'uma noite destas, eu vejo passar...

Tambem não é, ouve, minha velha ama!
Como tu contavas, a Virgem de Luz:
Digo-te ao ouvido como ella se chama,
Mas guarda segredo, que é...
  • Jezus! Jezus!

António Nobre - SÓ

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Christina Georgina Rossetti

Christina Georgina Rossetti (Londres, 5 de Dezembro de 1830 – Londres, 29 de Dezembro1894), foi uma poetisa inglesa, filha do escritor e poeta italiano Gabriele Rossetti (1734-1854), refugiado político do Reino das Duas Sicílias, casado com Frances Polidori, filha de Gaetano Polidori, secretário do escritor italiano Alfieri.
Deste casamento nasceram quatro crianças, sendo Christina a mais nova. Dois dos seus irmãos, Dante Gabriel Rossetti (1828-1882), pintor e depois poeta e William Michael (1829-1919), inspector dos impostos e crítico de arte foram os fundadores em 1848 do movimento pré-rafaelita, também conhecido como Irmandade Pré-Rafaelita (Pre-Raphaelite Brotherhood ou PBR em inglês), ou simplemente Pré-Rafaelitas, um grupo artístico dedicado principalmente à pintura.
Educada em casa, partilha dos interesses culturais da família e contribui para os jornais familiares. Anglicana devota, o seu noivado com o pintor James Collinson, amigo de seu irmão e membro do mesmo movimento é desfeito em 1850 quando o noivo se converte ao catolicismo, o mesmo se passando anos mais tarde com outro pretendente, mas porque este não sabia se era crente. Encerra-se em casa, embora esta seja frequentada por vários dos amigos dos seus irmãos, como Whistler, Swinburne, também pertencentes à Irmandade ou Lewis Carrol.
Ao todo, Christina escreveu mais de 1100 poemas, estreando-se aos doze anos com um poema dedicado ao aniversário de sua mãe. Em 1874, o avô publica-lhe um pequeno livro de poesia em inglês e italiano. Toda a sua obra acabará sendo recolhida em Poetical Works, editada em 1904 pelo seu irmão William, com uma dedicatória.
Em 1850 começa a contribuir para a revista The Germ com cinco textos usando o pseudónimo de Ellen Alleyn.
Em 1862, publica aquele que é tido por todos como o primeiro grande êxito literário da Irmandade e o melhor trabalho de Christina (embora lhes tivesse servido de modelo, nunca foi considerada um membro a tempo inteiro), Goblin Market and Other Poems (Mercado de Duendes e Outros Poemas). Ilustrado pelo seu irmão Dante, tem posteriormente diversas edições em Inglaterra e nos Estados Unidos.
Em 1883 é-lhe encomendada uma biografia da poetisa Elizabeth Barrett Browning, que recusa por falta de cooperação do também poeta Robert Browning, marido de Elisabeth.
A obra de Christina Rossetti notabilizou-se pela originalidade, simplicidade, religiosidade e profundidade sentimental, sendo muita dela atravessada por uma melancolia por vezes rasando o mórbido.
Morre em Londres a 29 de Dezembro de 1894, de cancro da mama, surgido em 1893.







Ilustração de Dante Gabriel Rossetti para a capa de Goblin Market and Other Poems (1862), primeiro de poemas de Christina Rossetti 

Song

When I am dead, my dearest,
Sing no sad songs for me;
Plant thou no roses at my head,
Nor shady cypress tree;
Be the green grass above me
With showers and dewdrops wet;
And if thou wilt, remember,
And if thou wilt, forget.

I shall not see the shadows,
I shall not feel the rain;
I shall not hear the nightingale
Sing on, as if in pain;
And dreaming through the twilight
That doth not rise nor set,
Haply I may remember
And haply may forget.

Quando estiver morta, querido amor,
Não cantes canções tristes por mim,
Não plantes rosas sobre a minha cabeça,
Nem um ombroso cipreste;
Que nasça a verde erva sobre mim
Regada de gotas e orvalho;
E se te apetecer, recorda,
E se te apetecer, esquece.

Eu não mais verei as sombras,
Não sentirei a chuva,
Nem ouvirei o rouxinol
A cantar como se sofresse;
E sonhando num crepúsculo
Que não nasce nem se põe,
Talvez possa recordar
Talvez possa esquecer.

Christina Rossetti – in Goblin Market and Other Poems

Fontes: wikipedia org.
Os Poetas Pré-Rafaelitas, Antologia Poética – Círculo de Leitores
 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Aniversário blog

Hoje, 30 de Julho, dia do 5º aniversário do blog, é também internacionalmente comemorado o Dia da Amizade , o que me deixa muito feliz.
A iniciativa para o estabelecimento de um Dia do Amigo reconhecido internacionalmente, teve como antecedente histórico a Cruzada Mundial da Amizade, uma campanha a favor da valorização e realce da amizade entre os seres humanos, de forma a fomentar a cultura da paz, idealizada pelo médico Ramón Artemio Bracho em Puerto Pinasco, Paraguai, a 20 de Junho de 1958, durante um jantar com um grupo de amigos.
A 27 de Abril de 2011, na Assembleia Geral das Nações Unidas (Secção 65), dentro do tratamento da "Cultura da Paz", reconheceu-se "a pertinência e a importância da amizade como sentimento nobre e valioso na vida dos seres humanos de todo o mundo" e decidiu-se designar como Dia Internacional da Amizade o dia 30 de Julho, em concordância com a proposta original promovida pela Cruzada Mundial da Amizade. A iniciativa foi apresentada conjuntamente por 43 países sendo aceite unanimemente pela Assembleia Geral.
No entanto, há países que celebram este dia a 20 de Julho, data da chegada do homem à Lua em 1969. O médico argentino Enrique Ernesto Febbraro enviou cerca de quatro mil cartas para diversos países e idiomas com o intuito de instituir o Dia do Amigo. Febbraro considerava a chegada do homem à lua "um feito que demonstra que se o homem se unir com os seus semelhantes, não há objetivos impossíveis".
Em qualquer destas datas os amigos enviam mensagens de carinho, amizade e afeto aos seus amigos, agradecendo a amizade e dedicação destes.
Para todos os meus amigos, com o meu abraço cheio de afecto e um muito obrigado pelo vosso carinho, aqui vos deixo


O importante da amizade

O importante da amizade não é conhecer o amigo;
e sim saber o que há dentro dele!...

Cada amigo novo que ganhamos na vida, nos aperfeiçoa
e enriquece, não pelo que nos dá, mas pelo
quanto descobrimos de nós mesmos.

Ser amigo não é coisa de um dia. São gestos, palavras,
sentimentos que se solidificam no tempo
e não se apagam jamais.

O amigo revela, desvenda, conforta.
É uma porta sempre aberta em qualquer situação.

O amigo na hora certa, é sol ao meio
dia, estrela na escuridão.

O amigo é bússola e rota no oceano,
porto seguro da tripulação.

O amigo é o milagre do calor humano
que Deus opera no coração.
(Desconhecido)

imagem:recadosdanet.com

PS: Por ontem me ter sido completamente impossível publicar a mensagem do aniversário do blog,  a transcrevo-a hoje, com o mesmo sentimento de ontem...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Dia da Criança

O Direito das Crianças

Toda criança no mundo
Deve ser bem protegida
Contra os rigores do tempo
Contra os rigores da vida.

Criança tem que ter nome
Criança tem que ter lar
Ter saúde e não ter fome
Ter segurança e estudar.

Não é questão de querer
Nem questão de concordar
Os diretos das crianças
Todos tem de respeitar.

Tem direito à atenção
Direito de não ter medos
Direito a livros e a pão
Direito de ter brinquedos.

Mas criança também tem
O direito de sorrir.
Correr na beira do mar,
Ter lápis de colorir...

Ver uma estrela cadente,
Filme que tenha robô,
Ganhar um lindo presente,
Ouvir histórias do avô.

Descer do escorregador,
Fazer bolha de sabão,
Sorvete, se faz calor,
Brincar de adivinhação.

Morango com chantilly,
Ver mágico de cartola,
O canto do bem-te-vi,
Bola, bola,bola, bola!

Lamber fundo da panela
Ser tratada com afeição
Ser alegre e tagarela
Poder também dizer não!

Carrinho, jogos, bonecas,
Montar um jogo de armar,
Amarelinha, petecas,
E uma corda de pular.

Ruth Rocha 

Ruth Rocha nasceu em S. Paulo a 2 de Março de 1931, sendo uma das mais importantes escritoras da literatura infanto-juvenil brasileira. É formada em Sociologia Política, iniciando a sua carreira de escritora em 1976, com o livro “Palavras muitas Palavras”. Porém a sua obra mais famosa é o best-seller “Marcelo, Marmelo, Martelo”, que foi traduzido para diversas línguas e vendeu mais de um milhão de exemplares.
Mas a sua escrita é também rica em conteúdos sociais, como por exemplo, o livro "Uma História de Rabos Presos", lançado no Congresso Nacional brasileiro, em 1989. Em 1990, lançou na sede das Organizações das Nações Unidas o livro "Declaração Universal dos Direitos Humanos Para Crianças".
Foi condecorada em 1998, pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso, com a Comenda da Ordem do Ministério da Cultura. Ganhou quatro prêmios Jabuti, com destaque para o livro "Escrever e Criar", lançado em 2002.
É membro da Academia Paulista de Letras desde 25 de outubro de 2007,ocupando a cadeira 38. Foi também escolhida em 2002 para fazer parte do PEN CLUB-Associação Mundial de escritores, localizada no Rio de Janeiro.

Obras da Autora:
Marcelo, Marmelo, Martelo
Mil Pássaros
Almanaque Ruth Rocha
O Macaco Bombeiro
Este Admirável Mundo Novo
O Coelhinho Que Não Era de Páscoa
O Velho, O Menino e o Burro
O Sistema de Caderninho Preto
Armandinho, o Juiz
A Rua do Marcelo
A Menina Que Aprendeu a Voar
Gabriela e a Titia
Viva a Macacada
O Que é, O Que é?
De Hora em Hora
Solta o Sabiá
Faz Muito Tempo
O Gato e a Árvore
Atras da Porta

O Menino Que Quase Morreu Afogado no Lixo
Como se Fosse Dinheiro
As Coisas Que Agente Fala
Palavras Muitas Palavras
Uma História de Rabos Presos
Declaração Universal dos Direitos Humanos Para Crianças
Pessoinhas - Natureza e Sociedade
Pessoinhas - Matemática
A Arte de se Expressar Bem em Público
Escrever e Criar, Uma Nova Proposta
Minidicionário da Língua Portuguesa



























 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A TERRA


O Cântico da Terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranquilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


Cora Coralina


O Dia da Terra foi criado pelo senador norte-americano Gaylord Nelson, um activista ambiental, tendo por finalidade criar uma consciência comum para os problemas que afligem a Terra, depois de verificar as consequências do desastre petrolífero de Santa Barbara, na Califórnia, ocorrido em 1969.
Na primeira manifestação que teve lugar no dia 22 de Abril de 1970, para a criação de uma agenda ambiental, participaram duas mil universidades, dez mil escolas primárias e secundárias e centenas de comunidades. A pressão social teve sucesso e o governos dos Estados Unidos criaram a Agencia de Proteção Ambiental (Environmental Protection Agency) e uma série de leis destinadas à proteção do meio ambiente. Em 2009 as Nações Unidas instituíram o Dia Internacional da Mãe Terra.
...A informação sobre as possíveis ameaças em resultado do desenvolvimento insustentável parece não assustar a humanidade. Afinal, a Terra continua a dar-nos água, alimento (mais para uns do que para outros), recursos vários.
O ponto de não retorno ainda não foi atingido e a “teoria de Gaia”, proposta por James Lovelock, parece continuar a resultar: o planeta Terra mostra resiliência, como se se tratasse dum superorganismo, apesar de todos os riscos que o Homem lhe faz correr. Lembra a história de Pedro e o Lobo. Os lenhadores não acreditavam nas partidas que o Pedro pregava, porque não havia lobo, o problema foi quando ele apareceu mesmo. No caso do nosso planeta, os cientistas avisam, não para pregar partidas, mas para alertar para os riscos e consequências das nossas opções...” - (Excerto de um Artigo publicado no Jornal “O Público” na coluna Opinião, pela Prof. Dra. Maria Amélia Martins-Loução).
Astronomicamente, a nossa Mãe Terra é o terceiro planeta a contar do Sol, o mais denso e o quinto maior dos oito planetas do Sistema Solar, sendo também conhecido por Planeta Azul. É também o maior dos quatro planetas telúricos e (até agora), o único onde é conhecida a existência de vida tal como a concebemos.
Mitologicamente, a Terra é a substância universal Prakriti, o caos primordial, a matéria-prima separada das águas, segundo o Génesis; trazida à superfície das águas pelo javali de Vixnu; coagulada pelos heróis míticos do xintoísmo; matéria com que o Criador (na China, Niukua) molda o homem.
A Terra simboliza a função maternal: Tellus Mater. Ela dá e tira a vida. Prostrando-se no chão, Job escreve: Saí nu do ventre da minha mãe e nu voltarei para ele (1, 21), identificando a terra-mãe com o colo maternal. Na religião védica, a terra simboliza também a mãe, fonte do ser e da vida, protectora contra todas as forças do aniquilamento. Segundo os ritos védicos dos funerais, no momento em que a urna funerária contendo os restos da incineração é enterrada, são recitados versos:
Vai para esta Terra, tua mãe,
para as vastas moradas, para os bons favores!
Suave como a lã a quem a soube dar,
que ela te proteja do Nada!
Forma uma abóbada para ele e não o esmagues;
recebe-o Terra, acolhe-o!
Cobre-o com uma orla do teu vestido
como uma mãe protege o seu filho”. (Rig Veda, Grhyasutra, 4, 1)
Segundo a Teogonia, de Hesíodo, ela (Gaia) deu à luz o próprio Céu (Úrano), que deveria cobri-la a seguir para dar origem a todos os deuses. Os deuses imitaram esta primeira hierogamia, depois os homens, e os animais; a Terra revelou-se a origem de toda a vida, e foi-lhe dado o nome de Grande Mãe.
No Japão supõe-se que a terra é transportada por um enorme peixe; na Índia, por uma tartaruga; entre os Ameríndios por uma serpente; no Egipto, por um escaravelho; no Sueste da Ásia, por um elefante, etc. Os sismos explicam-se pelos movimentos repentinos desses animais geóforos que correspondem às fases da evolução.
Na literatura identifica-se muitas vezes a terra fértil com a mulher: sulcos semeados, lavoura e penetração sexual, parto e colheita, trabalho agrícola e acto gerador, colheita dos frutos e aleitamento, a relha do arado e o falo do homem.
Paul Diel esboçou toda uma psicogeografia dos símbolos na qual a superfície plana da terra representa o homem enquanto ser consciente; o mundo subterrâneo com os seus demónios e os seus monstros ou divindades malevolentes, representa o subconsciente; os cumes mais elevados, mais próximos do céu, são a imagem do supraconsciente. Ela é a arena dos conflitos da consciência do ser humano.


Poema da Terra Adubada

Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
Por detrás das árvores escondem-se os soldados
com granadas de mão.

As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.

Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.

O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes.
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.

Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.

Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.

António Gedeão, in 'Linhas de Força'

Fontes: www.wikipédia.org
Jornal “O Público”
Chevalier, Jean, Alain Gheerbrant – Dicionário dos Símbolos
Imagem: internet

terça-feira, 7 de abril de 2015

Gabriela Mistral

Gabriela Mistral, pseudónimo da poetisa chilena Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, nasceu a 7 de Abril de 1889, na pequena vila de Vicuña, no Vale de Equi, a norte do Chile, filha de Juan Jerónimo Godoy Villanueva, e de Petronila Alcayaga Rojas, de ascendência basca. Foi criada na aldeia de Monte Grande, no mesmo vale, por sua mãe e uma irmã mais velha. O pai, um professor primário, que escrevia pequenos poemas para ela e lhos cantava à guitarra, abandonou a família quando ela tinha 3 anos de idade. Dele, como diria mais tarde Gabriela, herdou a veia poética e a alma nómada.
Poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena, foi a primeira escritora latino-americana a receber o Prémio Nobel de Literatura, em 1945, sendo comparada a Unamuno por alguns críticos. Eugénio d'Ors chamou-lhe o “Anjo da Guarda da República do Chile”. Ninguém como ela sentiu e descreveu os contrastes da paisagem chilena.
Tida como um exemplo de honestidade moral e intelectual e movida por um profundo sentimento religioso, a tragédia do suicídio do noivo marcou toda a sua poesia com um forte sentimento de carinho maternal, principalmente nos seus poemas em relação às crianças. Na sua obra aparecem como temas recorrentes: o amor pelos humildes, um interesse mais amplo por toda a humanidade.
Iniciou a sua vida aos 15 anos, dando aulas e em 1914 obtém o 1º Prémio nos Jogos Florais de Santiago do Chile com “Sonetos de La Muerte”, sob o pseudónimo de Gabriela Mistral, formado a partir do nome dos seus dois poetas preferidos – o italiano Gabriel D'Annunzio e o francês Frederico Mistral - e com o qual se tornou universalmente conhecida. Os “Sonetos” foram inspirados pelo suicídio do seu noivo em 1909. Gabrielle nunca se casaria mas em 1946 conheceu a escritora estadounidense Doris Dana, com quem estabeleceu uma relação de amizade que se manteve até à sua morte e a quem confiou a sua obra, para que os direitos obtidos pela sua venda fossem destinados às crianças de Montegrande.
Os temas centrais nos seus poemas são o amor, o amor de mãe, memórias pessoais dolorosas, mágoa e recuperação. A mãe de Lucila faleceu no ano de 1929 e a escritora dedicou-lhe a primeira parte de seu livro Tala, a que chamou: Muerte de mi Madre.
Em 1922, o Instituto Hispânico de Nova Iorque publicou uma colectânea das suas poesias dispersas, sob o título de “Desolação”, na qual está incluído o poema “Dolor” onde fala da perda do seu amado. O sentimento de maternidade frustrada aparece nos trabalhos seguintes, Ternura (1924) e Tala (1938). Escreve depois Nuvens Brancas (1930), A Oração da Mestra, que lhe valeu o título de Cantora da Raça (1930), Leituras para Mulheres (1932), Vidas de Artesãos Franceses, obra-prima de prosa, e Vida de S. Francisco de Assis uma obra excepcional, que reflecte tendências para o misticismo e religiosidade. Antologia (1941), Lagar (1954), Recados Contando a Chile (1957), Poema de Chile (1967).
Em 1922, foi encarregada de estudar, no México a organização de bibliotecas. Representou o Chile no Congresso dos Educadores, em Lucarno, e na Conferência International das Universidades, em Madrid.
O Prêmio Nobel transformou-a em figura de destaque na literatura internacional o que a levou a viajar por todo o mundo e representar seu país em comissões culturais das Nações Unidas. A notoriedade a obrigou a abandonar o ensino para desempenhar diversos cargos diplomáticos na Europa. Foi Secretária do Instituto de Cooperação Intelectual da Sociedade das Nações; desempenhou funções consulares em diversos países: Génova, Madrid, Lisboa, Petrópolis, Los Angeles. Conhecia Portugal, sendo admiradora de Gil Vicente.
Sofrendo de diabetes e com problemas cardíacos faleceu em 1957 numa clínica em Hempstead, estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Três anos depois de morrer, o seu corpo foi trasladado, do Cemitério Geral de Santiago para a sua aldeia natal, onde a população prestou uma comovida homenagem à sua memória. O Governo chileno determinou que a casa onde nascera e vivera fosse considerado monumento nacional. Foi sepultada por sua expressa determinação numa colina junto do Monte Grande, em cripta aberta na terra, apenas coberta por uma pedra, na qual se encontra o seguinte epitáfio:
Gabriela Mistral – Prémio Nobel, 1945 – 7-4-1889 – 10-1-1957. O que a alma faz pelo seu corpo é o que o artista faz pelo seu povo. G.M.”.




LOS SONETOS DE LA MUERTE


Del nicho helado en que los hombres te pusieron,
te bajaré a la tierra humilde y soleada.
Que he de dormirme en ella los hombres no supieron,
y que hemos de soñar sobre la misma almohada.

Te acostaré en la tierra soleada con una
dulcedumbre de madre para el hijo dormido,
y la tierra ha de hacerse suavidades de cuna
al recibir tu cuerpo de niño dolorido,

Luego iré espolvoreando tierra y polvo de rosas,
y en la azulada y leve polvoreda de luna,
los despojos livianos irán quedando presos.

Me alejaré cantando mis venganzas hermosas,
¡porque a ese hondor recóndito la mano de ninguna
bajará a disputarme tu puñado de huesos!


LA MAESTRA RURAL

La maestra era pura. "Los suaves hortelanos",
decía, "de este predio, que es predio de Jesús,
han de conservar puros los ojos y las manos,
guardar claros sus óleos, para dar clara luz".

La maestra era pobre. Su reino no es humano.
(Así en el doloroso sembrador de Israel.)
Vestía sayas pardas, no enjoyaba su mano
¡y era todo su espíritu un inmenso joyel!

La maestra era alegre. ¡Pobre mujer herida!
Su sonrisa fue un modo de llorar con bondad.
Por sobre la sandalia rota y enrojecida,
era ella la insigne flor de su santidad.

¡Dulce ser! En su río de mieles, caudaloso,
largamente abrevaba sus tigres el dolor.
Los hierros que le abrieron el pecho generoso
¡más anchas le dejaron las cuencas del amor!

¡Oh labriego, cuyo hijo de su labio aprendía
el himno y la plegaria, nunca viste el fulgor
del lucero cautivo que en sus carnes ardía:
pasaste sin besar su corazòn en flor!

Campesina, ¿recuerdas que alguna vez prendiste
su nombre a un comentario brutal o baladí?
Cien veces la miraste, ninguna vez la viste
¡y en el solar de tu hijo, de ella hay más que de ti!

Pasò por él su fina, su delicada esteva,
abriendo surcos donde alojar perfección.
La albada de virtudes de que lento se nieva
es suya. Campesina, ¿no le pides perdón?

Daba sombra por una selva su encina hendida
el día en que la muerte la convidò a partir.
Pensando en que su madre la esperaba dormida,
a La de Ojos Profundos se dio sin resistir.

Y en su Dios se ha dormido, como en cojín de luna;
almohada de sus sienes, una constelación;
canta el Padre para ella sus canciones de cuna
¡y la paz llueve largo sobre su corazón!

Como un henchido vaso, traía el alma hecha
para dar ambrosía de toda eternidad;
y era su vida humana la dilatada brecha
que suele abrirse el Padre para echar claridad.

Por eso aún el polvo de sus huesos sustenta
púrpura de rosales de violento llamear.
¡Y el cuidador de tumbas, como aroma, me cuenta,
las plantas del que huella sus huesos, al pasar!




Fontes: www.wikipedia,org.
Lopes de Oliveira, Américo – Dicionário de Mulheres Célebres
Poemas: www.los-poetas.com.

sábado, 21 de março de 2015

Ovídio e “A Arte de Amar”

Particularmente prezada durante a Antiguidade, lida e relida – sobretudo às escondidas – ao longo de quase toda a Idade Média, revalorizada a partir do Renascimento, a Arte de Amar ( Ars Amatoria, em Latim), é uma trilogia escrita em verso pelo poeta romano Ovídio, que, profundo conhecedor do coração humano, não hesitou em ensinar através deles, aos homens e mulheres do seu tempo (e não só), a difícil arte de seduzir e fazer perdurar o amor, antecedendo em cerca de vinte séculos
a “revolução sexual” dos nossos dias...
Os dois primeiros volumes da trilogia, escritos entre 1 a.C., e 1 d.C., são dirigidos ao elemento masculino e falam “sobre como conquistar os corações das mulheres” e “como manter a amada”, respectivamente. O terceiro volume, que é dirigido especialmente às mulheres, contém os ensinamentos de “como atrair e seduzir os homens”, foi escrito posteriormente.
Públio Ovídio Naso, mais conhecido por Ovídio, nasceu a 20 de Março do ano 43 a.C., em Sulmona, num vale nos Apeninos, a leste de Roma, numa importante família da classe nobre rural, mas foi educado em Roma com os melhores mestres de retórica, pois seu pai destinava-o à carreira política. O jovem, porém, decide trocar a política pela poesia, e aos dezoito anos empreendeu uma viagem à Grécia, um complemento indispensável à educação dos jovens romanos.
Poeta de verso fácil, Ovídio antes desta trilogia, escreve um longo poema de forma epistolar, intitulado Heróides, constituído por cartas fictícias de grandes heroínas amorosas, históricas ou lendárias, para os seus amantes ausentes, uma tragédia intitulada Medeia, cujo rasto se perdeu e uma série de poemas eróticos em cinco livros, com o nome de Amores, dirigidos a uma amante, Corina.
O próximo poema de Ovídio, Medicamina Faciei, um trabalho fragmentado sobre tratamentos de beleza feminina precedeu Ars Amatoria, ou “A Arte de Amar” que foi escrita já o autor passava dos quarenta anos, mais ou menos na mesma altura em que na Galileia, vinha ao mundo um Menino chamado Jesus. Nesse mesmo ano escreveu ainda outro poema Remedia Amoris. Esta coleção de poesia elegíaca e erótica deu a Ovídio um lugar entre os principais elegistas romanos, Cornélio Galo, Tíbulo e Propércio, do qual ele próprio se via como o quarto membro. Casou-se por três vezes e divorciou-se de duas das suas mulheres ainda antes dos seus quarenta anos, tendo uma filha que lhe deu dois netos.
O ideal de beleza, masculina ou feminina, os mecanismos de sedução, os melhores métodos de obtenção do prazer e, mesmo, a arte da traição e do engano, são alguns dos temas que preenchem este manual do amor, e que provavelmente levaram a que o autor fosse banido de Roma pelo Imperador Augusto, muito empenhado numa reforma dos bons costumes. A celebração do amor extraconjugal pode ter sido tomada como uma afronta intolerável a um regime que promovia os 'valores da família' e que já tinha levado ao exílio tanto da filha como da neta do próprio Imperador.
O certo é que no ano 8 d.C., o poeta foi exilado para Tomis, hoje Constança na actual Roménia, sózinho e sem poder levar a sua mulher, ao mesmo tempo que a sua obra Ars Amatoria era retirada de todas as bibliotecas. Antes de morrer, preparava aquela que seria sua última obra, Haliêutica, sobre a arte da pesca; Caio Plínio Segundo acreditava que este era mais um ato de diversão de Ovídio, que não tinha qualquer interesse pelo tema tratado. Faleceu no ano 17 d.C.
A Arte de Amar....

De verdades, não mais, aqui se trata.
Ó mãe do Amor, secunda o meu intento!
E vós, longe daqui, ó finas faixas
que sempre do pudor sois ornamento!
E tú, também, ó longo véu que tapas
das matronas os pés, vai-te no vento!
Eu só a quem é livre me dirijo:
apenas me dirijo a quem não tema
os prazeres mais a furto concedidos...
não tem pois mal nenhum este poema...

.

Se vais para o amor como quem vai
pela primeira vez ao fogo das pelejas,
trata de procurar, antes de mais,
aquela a quem desejas.
Trata depois, então,
de conquistar o coração
da jovem que elegeste entre as demais mulheres.
E trata finalmente, em último lugar,
de esse amor prolongar
o mais que tu puderes.
Aqui tens o plano nas suas grandes linhas.
Este vai ser de nosso carro o curso;
esta, a meta – que há-de ser atingida
no termo do percurso.

.

O pudor impede a mulher
de provocar certas carícias
mas se é o homem a começar
ela recebe-as com delícia.
Ah! tens excessiva confiança
nas tuas qualidades físicas
se esperas que seja a mulher
a tomar a iniciativa.
É ao homem que compete começar
e dizer palavras suplicantes
Á mulher cabe acolher suavemente
essas brandas palavras amorosas.

.


Fontes:
Ovídio – A Arte de Amar – Edição da Galeria Panorama,1970


domingo, 8 de março de 2015

Dia Internacional da Mulher

A Mulher Inspiradora

Mulher, não és só obra de Deus;
os homens vão-te criando eternamente
com a formosura dos seus corações,
e os seus anseios
vestiram de glória a tua juventude.

Por ti o poeta vai tecendo
a sua imaginária tela de oiro:
o pintor dá às tuas formas,
dia após dia,
nova imortalidade.

Para te adornar, para te vestir,
para tornar-te mais preciosa,
o mar traz as suas pérolas,
a terra o seu oiro,
sua flor os jardins do Verão.

Mulher, és meio mulher,
meio sonho.

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Poemas M. Torga

Natal

Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer, já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção.
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.

Miguel Torga

Natividade – Anita Malfatti

domingo, 21 de dezembro de 2014

Poemas A. Gomes Leal

OS PASTORES

Guardavam certos pastores
seus rebanhos, ao relento,
sobre os céus consoladores
pondo a vista e o pensamento.
Quando viram que descia,
cheio de glória fulgente,
um anjo do céu do Oriente,
que era mais claro que o dia.
Jamais os cegara assim
luz do meio-dia ou manhã.
Dir-se-ia o audaz Serafim,
que um dia venceu Satã.
Cheios de assombro e terror,
rolaram na erva rasteira.
– Mas ele, com voz fagueira,
lhes diz, com suave amor:
«Erguei-vos, simples, daí,
humildes peitos da aldeia!
Nasceu o vosso Rabi,
que é Cristo – na Galileia!
Num berço, o filho real,
não o vereis reclinado.
Vê-lo-eis pobre e enfaixado,
sobre as palhas de um curral!
Segui dos astros a esteira.
Levai pombas, ramos, palmas,
ao que traz uma joeira
das estrelas e das almas!»
Foi-se o anjo: e nas neblinas,
então celestes legiões
soltam místicas canções,
sobre violas divinas.
Erguem-se, enfim, os pastores
e vão caminhos dalém,
com palmas, rolas, e flores,
cordeiros, até Belém.
E exclamavam indo a andar:
– «Vamos ver o vinhateiro!
Ver o que sabe lavrar
nas nuvens, ver o Ceifeiro!
Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus.
Ver esse pastor que é Deus
– e traz cajado de luz!»
Chegando ao presépio, enfim,
caem, de rojo, os pastores,
vendo o herdeiro d’Eloim
que veste os lírios e as flores.
Dão-lhe pombas gloriosas,
meigos, tenros animais.
– Mas, vendo coisas radiosas,
casos vindouros, fatais…
Abria o deus das crianças
uns olhos profundos, graves,
no meio das pombas mansas
– nas palpitações das aves.
Gomes Leal


Adoração dos pastores - Murillo


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Caravelas


Se eu fosse uma caravela
Pelos mares a navegar
Os meus braços uma vela
Que a fizessem singrar
Que rumos eu seguiria?
Aonde iria parar?

Com as mãos no leme crispadas,
Abriria rotas, estradas
Enfrentando monstros e medos
Desvendando os seus segredos
Olhando enfim, descobria
As terras de além-mar!

Navegando ao sol risonho
Ou pelas estrelas cintilantes
À luz branca do luar
Buscaria as terras distantes
Onde em palácios de sonho
Vivem mouras de encantar!

Talvez fosse a ligeira “Bérrio”,
Com a Boa Nova do Gama
De que a rota - mistério
Que a El-Rei traria a fama,
E a glória que o Poder detém
Já era dele também?

Ou seria a nau do comércio
Com ouro, marfim, aves belas
Pimenta, escravos, canela
D’ África, Brasil e Goa
Que fazem desta Lisboa
A capital de um Império?

E com arrojo iria, isso sim,
Aonde todos os perigos espreitam...
Provando ao Mundo que a Terra
É verdadeiramente uma esfera
E os oceanos se estreitam
Num abraço tremendo, sem fim!

E quando chegasse o dia
De o meu corpo terminar
O seu tempo neste mundo
Aos deuses eu rogaria
Que me deixassem repousar
Bem dentro do mar profundo…

N.G.




























quinta-feira, 31 de julho de 2014

Poemas M. de Sá-Carneiro

Estátua Falsa

Só de ouro falso meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram.
Como Ontem para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida cobre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar…

Mário de Sá-Carneiro