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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Quinta-Feira de Ascensão ou O Dia da Espiga - I


Hoje, dia 2 de Junho, celebra-se o Dia da Espiga, cuja origem anterior à Era cristã, está ligada aos festivais agrícolas das celebrações da Primavera, em que com cantares e danças se comemorava o fim do Inverno e o renascimento da vida vegetal e animal, pedindo a bênção dos deuses para as novas colheitas, como acontece com a tradição das Maias.
Com o advento do Cristianismo e tal como aconteceu com outras festas pagãs, a Igreja cristianiza-a associando-a a um evento religioso, a festa da Ascensão.
Esta festa, que teve origem em Jerusalém e era no início celebrada no mesmo dia do Pentecostes, servia para festejar a Ascensão de Jesus ao Céu, não só em espírito, mas também em corpo e alma, em Betânia, na presença dos Apóstolos, e depois de os ter abençoado, quarenta dias após a sua Ressurreição.
A partir do sec. IV, este dia começa a ser celebrado como um dia especial, a Quinta-Feira de Ascensão, com procissões e a bênção dos campos e dos primeiros frutos que o povo levava como oferta, conseguindo-se desta maneira, que o ritual pagão do Dia da Espiga ficasse para sempre ligado à festa religiosa da Ascensão.
Em Portugal, este dia, considerado feriado ou Dia Santo, era celebrado com passeios pelo campo, merendas e bailaricos, aproveitando-se para se colher a espiga, que seria depois pendurada atrás da porta, até à sua renovação no ano seguinte, para que nunca faltasse o pão em casa!
Em 1952, por altura da revisão dos feriados nacionais, a Igreja teve de prescindir de alguns, entre eles o da festa móvel da Ascensão, o que provocou algumas altercações. Pouco dispostos a prescindir desta festa, muitos concelhos adoptaram-no como feriado municipal, o que mais uma vez se prova, que é às Câmaras Municipais que pertence a salvaguarda das tradições do nosso país…
A Espiga, ou mais propriamente o ramo que a forma, é composto de flores, troncos e cereais, seguindo um ritual de fertilidade onde todos eles têm o seu valor simbólico profano e religioso, embora variando de região para região.
Assim temos basicamente:


Espigas de trigo (em número ímpar) – pão
1 ramo de oliveira – azeite (luz, divina e não só) e paz
1 ramo de videira – vinho e alegria
Malmequer – ouro e prata
Papoilas – amor e vida
Alecrim – saúde e força

Guardado durante um ano atrás da porta, para trazer saúde, sorte, alegria e abundância, serve também para afastar a trovoada.
Associado a este dia, aparecem provérbios como:

Se chover em quinta-feira de Ascensão, as pedrinhas darão pão.
O vento que soprar em quinta-feira de Ascensão soprará todo o Verão.

E também há também lendas e superstições…


domingo, 1 de maio de 2011

As Maias


É no primeiro de Maio, que se começam a celebrar as festividades cíclicas conhecidas por “Maias” e que se prolongam durante este mês.
Maio simboliza o triunfo da natureza fecunda sobre o longo Inverno estéril, e os povos antigos, essencialmente agrícolas, honravam com a chegada da primavera, os deuses menores que lhes protegiam as sementeiras, os bosques, o gado, as colheitas, tudo o que era essencial para a sua sobrevivência.
Já os Fenícios e os Gregos manifestavam a sua adoração aos deuses em festas comemorativas de acontecimentos tão transcendentes como a mudança das estações do ano. Esses costumes foram assimilados por civilizações pré-romanas como os Celtas, que no 1º de Maio celebravam a festa druídica (Beltane), época em que começava o ano e se acendiam grandes fogueiras. Acendia-se então o fogo novo, símbolo da eterna renovação. Foram depois assimiladas pelos romanos, que também comemoravam a chegada da Primavera, homenageando os seus deuses pastoris, como Flora, Palas, Pomona, Ceres, entre outros.
Está neste caso a deusa Pales, protectora dos pastores e dos rebanhos, a quem este dia também era consagrado e que tinha em Roma festas chamadas Palílias ou Parílias. É apresentada coroada de louros e com um molho de palha nas mãos.
Ao nascer do dia os pastores vestiam os seus melhores fatos, purificavam os rebanhos e os currais fazendo à entrada fogueiras alimentadas com enxofre, pinho, loureiro e rosmaninho.
Depois desta purificação, ofereciam pela mão do sacerdote, leite, mel e bolos de farinha de milho ou trigo, realizando-se a seguir, uma refeição pública.
Outra é a deusa Maia, uma ninfa que teve de Zeus um filho, Hermes o mensageiro dos deuses. É-lhe consagrado tanto o primeiro dia de Maio, como também o dia 15. É a deusa da fecundidade e da projecção da energia vital. Na Hispania, também era conhecida como Fauna, Bona Dea e Ops, e sacrificavam-lhe uma porca grávida.
Alguns festejos incluíam um combate entre a Rainha de Maio, toda de branco, e a Rainha de Inverno, representada por um rapaz vestido sombriamente, que acabava com a derrota deste.
Com o advento do Cristianismo, esta festa de celebração da Primavera e de adoração à Terra, personificada na deusa Maia, foi absorvida pela Igreja, como uma festa de exaltação religiosa de veneração à Virgem Maria, dedicando-lhe o mês de Maio.
Estas celebrações ocorrem por vários países da Europa, embora com variantes.
Em Portugal, as Maias ocorrem nalgumas regiões do país, onde na noite do dia 30 de Abril, se colocaram nas portas e janelas giestas em flor ou coroas de flores (as maias), para protecção do “Maio”, também chamado de “Careto” ou “Burro”, entidade maléfica personificando as forças negativas do inverno.
Em Trás-os-Montes e Beiras, comem-se castanhas, guardadas desde o Inverno, as chamadas castanhas piladas, caso contrario, quando se for passar por um burro, este, atira-se à pessoa e morde-a. “Quem não come castanhas no 1º de Maio, monta-o o burro”, é um ditado da região, que considera Maio, o mês dos burros.
É também costume enfeitarem um menino, o “maio-moço” que levam pelas ruas, cantando e dançando à volta dele:
O meu maio-moço/ ele lá vem/ vestido de verde/que parece bem.
Na região norte acredita-se que se não se colocar a “maia” à porta “Vem o Maio montado num burro branco e quebra a louça”. Os rapazes fazem uma coroa de flores que põem à porta das moças de quem gostam.
Noutras regiões, veste-se uma menina de branco, enfeitada de giestas e flores, que sentada num tapete, rodeada de outras meninas pede esmola, enquanto elas cantam:
Esmolinha à Maia/ para um pandeiro/ que não tem dinheiro.
Mais para o Sul, faz-se uma boneca de palha ou de trapos, ao redor da qual, as moças cantam e dançam toda a noite.No Algarve comem-se os “queijinhos de Maio”.
Esta festa, foi proibida várias vezes e já no tempo de D. João I, em 1385, este considera-a como um costume diabólico e um crime de idolatria. Na Idade Média, designava-se por Cavalo de Maio, um tributo que no dia 1º de Maio, pagavam todos aqueles que não tinham cavalo de marca que servisse para a guerra. Ainda hoje, nos Açores, se chama “Cavalo Branco” ao oficial que faz citações.
O facto de as giestas serem as flores escolhidas, prende-se talvez com uma lenda que conta que: “Quando Judas negociou com os sacerdotes a entrega de Jesus, foi combinado que ele poria um ramo de giestas na porta da casa onde Jesus estivesse. Os apóstolos, apercebendo-se disso, enfeitaram todas as portas com um ramo dessas flores, e os guardas quando chegaram, não O puderam prender dessa vez.”
Em Nanterre, França, é chamada de Festa da Rosa e elege-se a mais bela rapariga da localidade, em Nice, é conhecida como a Batalha das Flores.
“Maia” ou “Maio” é também o nome que se dá ao tronco de árvore ou pau alto, que enfeitado de flores e fitas se ergue no meio da praça e à volta do qual há bailarico toda a noite.

Fontes: Oliveira, Ernesto Veiga de – Festividades Cíclicas em Portugal
Coelho, Adolfo – Obra Etnográfica, vol.I
pt.wikipedia.org
imagem: cm-lagos.pt

sábado, 30 de abril de 2011

A Noite de Walpurgis


É uma festa tradicional cristã cujas origens remontam em parte ao paganismo, celebrada na noite de 30 de Abril para 1 de Maio, também conhecida por noite das bruxas. Hoje em dia é celebrada igualmente quer por comunidades cristãs quer por não cristãs, em diversos países do Norte e Centro da Europa.
Na maioria dos países esta festividade é celebrada em honra de Santa Walpurgis, uma monja anglo-saxónica, que no início do sec. VIII foi evangelizar a Germânia, chamada por S. Bonifácio, sendo eleita em 754 abadessa do convento beneditino de Heidenheim, na Baviera, onde faleceu em 780. Os seus restos mortais foram depositados na parte oca de uma rocha da qual brotava uma espécie de betume, conhecido depois pelo nome de óleo de Walpurgis e que teve a reputação de ser um remédio milagroso. Esta gruta depressa passou a ser objecto de peregrinações, construindo-se ali uma igreja.
Nos países germânicos havia uma crença solidamente estabelecida de que durante a noite de 30 de Abril, os demónios e as bruxas reuniam-se nas montanhas, principalmente na de Blocksberg, no Harz, a que se chamava “Montanha de Walpurgis”, para celebrarem o seu sabbat. Conta a lenda, que, por obra do diabo, a santa foi levada a essa montanha para conhecer de perto essas práticas que ela tanto tinha combatido, mas ao chegar lá, pregou com tanto fervor, que por pouco não converteu o próprio diabo…
Nas tradições celtas, celebrava-se esta noite, o festival de Beltaine (Fogo Benéfico), em honra de Belenos, o deus do fogo, e que marcava o começo da temporada de verão fazendo-se a purificação dos gados, que seriam depois levados para os pastos verdes dos altos das montanhas. Acendiam-se fogueiras no alto dos montes e das colinas e o gado passava por entre elas, para se proteger das doenças e acidentes durante todo o ano. Estes fogos marcavam o triunfo da luz sobre as trevas, esconjurando os maus espírito, e debaixo da sua protecção as pessoas reunidas realizavam os rituais de fertilidade, associados a estes festejos.
No mito irlandês de Cailleach Bheur, uma bruxa invernosa de cor azul, também chamada de Senhora Repugnante, aprisionou a namorada da Primavera e destinou-lhe a difícil tarefa de lavar um novelo de lã castanha até ele ficar branco. A Primavera tentou combater a velha, mas como não a conseguiu vencer, pediu ajuda ao Sol, que atirando uma lança, obrigou a velha a refugiar-se debaixo de um tufo de azevinho, e assim a jovem foi libertada. Não é mais que a deusa na sua tripla forma de virgem, mãe e velha, em que neste duelo, a sua forma “repugnante” se limita a desaparecer no Beltane (30 de Abril), para retornar no Samadh (31 de Outubro).
Beltane, recuperada por S. Patrício, foi convertida na Vigília Pascal.
Com o advento do Cristianismo, a festa de Santa Walpurgis a 25 de Fevereiro, foi mudada para 1 de Maio, passando a ser considerada a protectora desta noite. Com o correr do tempo, as duas celebrações ter-se-ão confundido, dando assim origem às festividades de hoje em dia, onde é costume acenderem-se grandes fogueiras de modo a afugentar espíritos malignos e almas penadas, os quais segundo a crença popular, vagueiam nesta altura por entre os vivos e onde às vezes se queima um boneco que representa uma bruxa.
No nosso país nesta noite, colocam-se nas portas as flores de giesta, ou as “maias”, para que as casas estejam protegidas quando começar o dia evitando assim que o “Maio” que também se chama “Carrapato” ou “Burro”, não entrem.
Nalgumas regiões de França, colhe-se durante a noite, o “matagot”, isto é a “erva da serpente” ou o selo-de-salomão (flor-da-felicidade azul), ou apanha-se o orvalho de madrugada, porque é bom para a pele.
Na Finlândia, é uma espécie de festa carnavalesca onde se come e bebe bastante e que se prolonga pelo dia 1, considerado o 3º maior feriado finlandês.

Fontes: Markale, Jean – O Cristianismo Celta
Husain, Shahrukh – Divindades Femininas

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Florálias

Começavam hoje em Roma as festas anuais em honra de Flora, a deusa das flores, que duravam seis dias, prolongando-se até ao próximo dia 3 de Maio, e que deram origem aos Jogos Florais.
De início esta festa era móvel, mas Júlio César quando lançou o Calendário Romano, fixou-a no dia 28 de Abril, data em que foi consagrado o templo da deusa no monte Aventino. Esta celebração iniciou-se em 240 a.C., mas caiu em desuso, até que em 173 a.C., o Senado romano, preocupado com as más colheitas agrícolas, ordenou de novo a sua comemoração.
Foi nesta altura que os jogos foram introduzidos no festival (Ludi Florales), cuja organização era da responsabilidade dos edis plebeus e incluíam representações teatrais, mímicas, concursos de dança e jogos de circo. Estes jogos podiam ficar extremamente caros aos edis, que os usavam como uma maneira de atrair as simpatias da população e ganharem votos mais tarde.
Eram celebrados à noite à luz dos archotes, no grande circo da rua Patrícia, mas o sentimento religioso que os caracterizava na sua origem, depressa se perdeu. Como também se encontrava-se associado às prostitutas, acabou por se caracterizar pela sua licenciosidade.
Nos concursos, as cortesãs reuniam-se e dançavam nuas, ao som de trombetas, e as vencedoras eram coroadas de flores. No Circo Máximo, lebres e cabras, animais associados à fertilidade, eram soltos entre o público, para o qual se atirava também grão-de-bico e outras sementes relacionadas com a fertilidade. Durante estes dias, a usual roupa branca era trocada por roupas coloridas.
Com o correr dos tempos, estes jogos foram caindo em desuso, e a partir do sec. XIII, esta celebração passou a abranger apenas um concurso literário, que, felizmente, algumas Câmaras ainda hoje realizam, esforçando-se por manter vivas tradições que fazem parte do nosso passado.

Imagem:jornale.com.br

quarta-feira, 27 de abril de 2011

FLORA


Na mitologia romana, Flora, é uma ninfa das Ilhas Afortunadas, deusa da Primavera, das flores, das vinhas, dos cereais e das árvores frutíferas. É a representação da Natureza na sua potência fecundante, desencadeando o despertar da floração das árvores e do ciclo vegetativo adormecidos durante o Inverno.
Foram os Sabinos, que primeiro praticaram o culto desta deusa, dedicando-lhe o mês de Abril e introduzindo-o depois no panteão romano, quando foram assimilados por estes.
Conta a lenda, que, num dia de Primavera, quando Flora passeava pelos campos, o louro Zéfiro, o deus do vento oeste, o mais suave de todos os ventos, cuja brisa morna e agradável acaricia as flores e dá vida à natureza, viu-a e apaixonando-se por ela, raptou-a. Arrependido da sua violência, casou com ela, concedendo-lhe, como prova de amor e recompensa, o de reinar sobre todas as flores, tanto dos jardins, como dos campos cultivados.
Mais tarde, Flora ensinou aos homens como retirar o mel, oferecendo-lhes também as sementes para cultivarem os campos.
Um dia, Hera, a rainha do Olimpo, zangada por Zeus ter dado à luz sozinho a deusa Minerva (esta deusa nasceu já adulta e armada, da cabeça do rei dos deuses), sem pedir a sua contribuição, resolveu mostrar ao marido que também podia conceber sozinha. Foi pedir ajuda ao Oceano, mas durante o caminho, cansada, sentou-se à porta do templo de Flora. Esta, ao vê-la, perguntou-lhe o que a incomodava. Ao saber do assunto, fez Hera prometer que nunca contaria nada a ninguém, mostrando-lhe uma flor que tinha a virtude de engravidar qualquer mulher que se sentasse sobre ela. E assim nasceu Marte, o deus da guerra, cujo nome está na origem do primeiro mês consagrado à Primavera – Março.
Tinha um sacerdote particular em Roma, um dos doze flâmines menores, e em sua honra celebravam-se as festas da Floralia, que começando no dia 28 de Abril, só terminavam a 3 de Maio e em que participavam as cortesãs.
A sua lenda mistura-se com a de Clóris, ninfa grega dos campos. Com Zéfiro, teve Carpo, o deus dos frutos.
Outros autores dizem que em Roma houve uma cortesã belíssima chamada Clóris, conhecida pela sua licenciosidade e que por sua morte, institui o Senado romano como seu herdeiro. Este, agradecido, mudou-lhe o nome para Flora.
Como as suas festas se prolongam até Maio, este culto pagão junto com a de outros deuses agrícolas, deu origem à festa das Maias, que ainda hoje se celebram no nosso país e de que falarei depois.
Na tapeçaria que se mostra acima, desenhada pelos pré-rafaelitas William Morris e Edward Burne-Jones em 1885, Flora está representada descalça, com uma coroa de flores na cabeça, num intrincado fundo floral, inspirado numa técnica decorativa medieval, conhecida como “Mille Fleurs” (Mil Flores). Nas suas mãos segura flores frescas e em letras góticas debruando o quadro em cima e em baixo, pode ler-se este poema de William Morris:

I am the handmaid of the earth,/I broider fair her glorious gown,/ And deck her on her days of mirth/With many a garland of renown./
And while Earth's little ones are fain/And play about the Mother's hem,/ I scatter every gift I gain/From sun and wind to gladden them.

Fontes: Magno, Albino Pereira – Mitologia.
pt.wikipedia.org.
www.thetapestryhouse.com/
Imagem: commons.wikimedia.org