sábado, 17 de novembro de 2012

A Excelente Senhora – II


Para acabar com esses rumores, o rei permitiu um parto público, pelo que, no momento do nascimento da pequena infanta, a quem foi dado o mesmo nome da mãe, encontravam-se, além do Rei e do arcebispo de Toledo, vários senhores da grande nobreza castelhana, certificando com a sua presença conforme os costumes da época, que não havia troca de crianças e se tratava realmente do filho do rei e da rainha.

Apesar disso, e de se constar muito em segredo que a rainha teria engravidado através de fecundação assistida praticada pelo médico judeu da corte com processos rudimentares (a primeira de que se tem conhecimento), a pedido do próprio Henrique IV para quem o nascimento de um herdeiro era absolutamente vital, os boatos sobre a infidelidade da rainha aumentaram quando se soube que oito dias antes do nascimento da princesa, o rei tinha elevado D. Béltran de la Cueva a conde de Ledesma!

A partir daí, a pequena Joana passou a ser apelidada de “a Beltraneja” pela forte facção dos nobres que se opunham ao rei, o que não impediu que fosse reconhecida como herdeira do trono nas Cortes de Toledo, reunidas nesse mesmo ano.

Dois anos depois do nascimento de Joana, o monarca, incapaz de resistir às pressões dos seus opositores e para evitar maiores confrontos, aceitou nomear o seu meio-irmão Afonso, de onze anos de idade, como seu sucessor, na condição de que este casasse com a sobrinha. Desta maneira, o próprio pai reconhecia publicamente a bastardia da filha!

 Como mesmo assim as intrigas palacianas e a contestação não abrandassem, Henrique IV procurou apoio militar em Portugal, oferecendo ao rei D. Afonso V, seu cunhado e viúvo há vários anos, a mão da sua meia-irmã Isabel, negociando também o casamento do príncipe herdeiro português, João, com a sua filha Joana.

A oferta era excelente para Portugal, mas o rei português apesar de ter assinado os capítulos do contracto matrimonial em Setembro de 1465, não se deu a grandes pressas e a oportunidade gorou-se para desgosto do príncipe de Portugal, entusiasmado com esse casamento.

Mas em Castela os anos que se seguiram foram bastante conturbados, ficando a rainha e a princesa “reféns” das mais poderosas famílias que apoiavam, ou melhor, dominavam o rei. A rainha D. Joana foi entregue à guarda do arcebispo de Sevilha, acabando por se apaixonar por um sobrinho deste, de quem teve dois filhos, o que não obstou a que até ao fim da sua vida lutasse pelos direitos sucessórios da filha. Ao contrário do marido, fraco e indeciso, a rainha de Castela tinha um caracter forte e enérgico que até os seus adversários reconheciam…Contudo, esta paixão foi funesta para a sua reputação e em nada beneficiou a filha.

Em 1468 morre em Castela o infante D. Afonso vitimado pela peste, e as forças contrárias ao rei através do pacto de Toros de Guisando, impõem a infanta Isabel como herdeira do trono castelhano, ao que Henrique IV, velho e cansado, mais uma vez acedeu, com a condição de que a infanta se não poderia casar sem o seu consentimento. Novamente Joana era humilhantemente preterida, desta vez em favor da sua tia e madrinha, apenas o tutor da pequena princesa protestou junto do papa contra a exclusão da legítima herdeira. Neste pacto, o rei concordou também em separar-se da rainha, devido ao seu adultério.

Quando em 1469, o Papa Paulo II envia a bula de dispensa de impedimento de casamento devido à proximidade de parentesco, Isabel quebrou o acordo e à revelia do irmão casou-se com o príncipe herdeiro de Aragão. Furioso, Henrique IV revoga o pacto anterior e Joana volta novamente a ser declarada a legítima sucessora do trono castelhano, depois de sua mãe ter jurado de que ela era verdadeiramente filha legítima do rei, primogénita e única herdeira do reino, juramento esse feito publicamente durante uma missa celebrada para o efeito, assistida pelo rei e parte da nobreza, sendo esse juramento sacramentado pela comunhão, após o que a rainha se recolheu ao Convento de S. Francisco de Madrid.

Em Outubro de 1470 é proclamada Princesa das Astúrias e outro noivo se perfila no horizonte…Desta vez a escolha recaiu sobre Carlos, duque de Guyenne e Berry, irmão de Luís XI de França, tendo-se realizado os esponsais por procuração. Mas como diz o velho ditado – Quando a sorte é adversa nada vale ao infeliz – ainda não foi desta vez que a pequena princesa de oito anos conheceu o noivo. Em 1472 o duque morre e a dança matrimonial continua…

As atenções voltam-se novamente para Portugal, mas como o príncipe João entretanto se tinha casado com sua prima Leonor, a mão de Joana foi oferecida ao rei D. Afonso V. Enquanto as negociações decorriam, o monarca castelhano que já se encontrava doente morre em 1474, ao regressar de uma caçada, e seis meses depois morria a rainha Joana, deixando a jovem princesa entregue aos cuidados dos seus tutores, o cardeal de Espanha, o duque de Arévalo, o marquês de Vilhena, o condestável de Castela e o conde de Benavente.

Com apenas doze anos de idade, Joana encontrava-se órfã de pai e de mãe, à espera de um marido que defendesse os seus direitos à Coroa castelhana, pois assim que o rei morreu, a infanta Isabel proclamou-se como a legal sucessora ao trono, com base no testamento do seu pai, o rei João II, e na ilegitimidade da “Beltraneja”, fazendo-se jurar como rainha de Castela.

E aí o rei português acordou! Ao ver tão ao seu alcance a Coroa de Castela, o último rei cavaleiro da Idade Média em Portugal, pôs de lado o seu longo celibato de vinte e três anos e correu em socorro da sua pequena dama…

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