quarta-feira, 2 de setembro de 2015

D. Mafalda



Mafalda, Matilde, Mahault ou Mahalda, da vida da primeira rainha de Portugal, como aliás de algumas outras, sabe-se muito pouco.
Filha de Amadeu III, conde de Sabóia, Maurienne e Piemonte e da condessa Mafalda de Albón, ignora-se ao certo o ano e o dia do seu nascimento, supondo-se que tivesse sido entre 1125 e 1130, pelo que teria entre 16 ou 20 anos quando se casou em 1146 com D. Afonso Henriques, que rondaria então os 37 anos de idade, pois a partir desse ano o seu nome figura, embora como Mahalda, em todos os documentos públicos do seu tempo, juntamente com o nome do rei. Seu pai tinha participado na 2ª Cruzada, sendo considerado um príncipe muito piedoso e um fiel Defensor do Papa, e além de D. Mafalda tinha mais 9 filhos. Pelo lado materno era sobrinha do rei Luís VII, de França, visto sua mãe ser irmã da rainha Adelaide, esposa deste soberano. Um seu tio-avô tinha sido Papa entre 1119 e 1124, com o nome de Calisto II e era também bisneta de Berta, imperatriz da Alemanha, casada com o imperador Henrique IV.
Como todas as princesas da sua época deveria possuir uma cuidada formação moral e religiosa influenciada pela Ordem de Cister, mas a noiva do nosso primeiro rei deve ter trazido também, juntamente com as suas aias e validos, alguma coisa da galantaria e do requinte que se verificava entre a alta aristocracia tanto de além Pirenéus como de além Alpes já muito mais sujeita à influência trovadoresca da França, que em Portugal ainda dava os primeiros passos.
As razões para este consórcio também não estão muito bem esclarecidas, mas além da Casa de Sabóia ter fortes ligações com a Casa de Borgonha de que D. Afonso descendia, o rei ganharia um excelente aliado para a expulsão dos mouros do território português. Roma também era favorável a esta união e o facto do monarca se unir matrimonialmente com a filha de um vassalo do imperador romano-germânico não só o distanciava do imperador hispânico, como o prestigiava e favorecia a legitimação do reino junto da Santa Sé.
Mas enquanto decorriam as escolhas e as negociações para o matrimónio do rei, em 1138 ou talvez antes, D. Afonso apaixonou-se por D. Flâmula ou Chamoa Gomes, sobrinha de Fernão Peres de Trava e filha de Gomes Nunes de Pombeiro, antigo conde de Toroño. Tinha sido casada com Paio Soares da Maia, com quem teve 3 filhos. O mais velho, Pedro Pais foi alferes – mor de D.Afonso entre 1147 e 1169. Após enviuvar, D. Chamoa entrou para o Mosteiro de Vairão, mas ainda teve uma relação com D. Mem Rodrigues de Tougues, de quem teve também um filho. É depois destes acontecimentos que D. Afonso estabelece com ela uma relação sentimental da qual nasceram 2 filhos e que só acaba com o casamento do Rei. Chamoa foi o grande amor da vida do monarca português que tudo tentou para casar com ela, mas dado que era “devota, isto é deo vota, votada a Deus”, nem a Santa Sé teria poder para a desligar dos votos monásticos. Por outro lado, D. Afonso teria também a oposição dos barões portugueses que, de maneira nenhuma, quereriam ver uma sobrinha do conde Fernão Peres de Trava, sentada no trono de Portugal…
Atendendo a todas estas razões e porque era imperioso garantir a sucessão do trono, D. Afonso Henriques aceita o casamento com D. Mafalda e Chamoa Gomes retira-se para o convento de Grijó, onde ainda sobreviveu ao rei. Seria um casamento de conveniência, como era normal na época, mas os cronistas dizem que era “mui formosa e dotada de muitas bondades.” Dizem também que tinha mau génio, que a união não seria muito pacífica, e que a presença da rainha no reino não estivera isenta de conflitos.
O mais célebre deu-se com S. Teotónio, prior do Mosteiro de St. Cruz, de quem se dizia que D. Afonso quando o via, descia do cavalo para lhe beijar a mão. Diz a tradição que D. Mafalda era de partos difíceis; assim achando-se uma vez às portas da morte, por ocasião de estar no último período de gravidez, sem poder nem ter forças para parir, diz a lenda que mandara chamar S. Teotónio, o qual deitando-lhe a benção, logo a rainha dera à luz o menino com toda a facilidade. Um quadro foi mandado fazer, em 1627, pelo prior geral D. Miguel de Santos Agostinho, para a capela de S. Teotónio na igreja de Santa Cruz, representando aquele milagre.
A Rainha foi depois ao Mosteiro em acção de graças, pela recuperação do parto, e pretendeu de todos os modos, ver o claustro interior. S. Teotónio guardava-se das mulheres como se fossem inimigos e nunca falava com uma sem ter testemunhas, recusou-lhe terminantemente a entrada por “nem ser coisa de ordem nem de louvável costume, mulher alguma entrar na morada dos que fugiam ao mundo, senão por ventura fosse morta nem ser ofício de rainha, nem por Deus lhe seria reputado a glória fazer tal cousa.” - Em Vida de S. Teotónio, 1968 p.164. Acrescenta Fonseca Benevides, que muitas foram as desavenças entre a rainha e o prior, a quem perseguiu com o seu ódio e muitas vexações.
De qualquer modo, D. Mafalda cumpriu em pleno o seu papel de procriadora, dando à luz em 12 anos de casada, sete filhos. O primogénito herdeiro, a quem foi dado o nome de Henrique, nasceu a 5 de Março de 1147, fruto de um parto difícil e complicado, como foram todos os seis seguintes. Sucederam-se Urraca (1148), Teresa (1151), Mafalda (1153), Martinho, futuro Sancho I (1154), João (1156) e Sancha, nascida em 1157 a quem não chegou a ver pois morreu dez dias após o seu nascimento.
Não se conhece qualquer interferência da rainha na vida política do país. Dedicou-se à educação dos seus filhos e dos bastardos do rei, que como era uso na altura eram criados juntos e passou pelo desgosto de ver morrer o seu primogénito. Às mortes do outros três filhos que morreram jovens, Mafalda, João e Sancha , já não assistiu, pois já não era deste mundo.
Quanto ao seu casamento, é certo que durante os doze anos que durou, não se conheceram quaisquer ligações amorosas ao rei, mas dado o feitio colérico de D. Afonso, sujeito a excessos, violências e brutalidades e as suas constantes ausências da corte devido aos combates que teve de travar para a expansão e consolidação do reino, não deve ter primado pela felicidade...
Segundo as poucas notícias que temos dela, são-lhe atribuídas algumas obras sociais, como a fundação de uma igreja em Marco de Canaveses juntamente com uma albergaria para peregrinos e pobres “e com boas portas fechadas porque os peregrinos que ali albergarem não recebam algum desaguisado. E estarão aí camas boas e limpas em que se possam bem albergar nove desses peregrinos, aos quais serão dadas rações de entrada ou de saída e lume e água e sal quanto lhe fizer mester. E finando-se algum desses peregrinos seja enterrado com três missas. E com pano e cera.” – La Figaniére, 1859,p.222.
Fundou também o Mosteiro da Costa, sobranceiro a Guimarães. Atribui-se-lhe o estabelecimento do serviço de dois barcos em Moledo e Porto de Rei, de modo a proporcionar a travessia do rio Douro, perto de Lamego. Os barqueiros recebiam pelo serviço as rendas de algumas propriedades locais pertencentes à rainha e estavam proibidos de cobrar o que quer que fosse aos passageiros, sob pena de multa ou prisão. Mandou também construir uma ponte sobre o rio Tâmega e outra sobre o Douro, em Mesão Frio.
Morreu a 3 de Dezembro de 1157/1158, provavelmente de complicações do último parto, com cerca de 32 anos e jaz sepultada na Igreja de St. Cruz, no mesmo mausoléu do seu marido, que lhe sobreviveu 27 anos.

Descendência:

D. Henrique (1147 – 1155) presumível herdeiro do trono, falecido aos 8 anos de idade.
D.Urraca ( 1148 – 1211?) casada com Fernando II, de Leão e cujo casamento foi anulado pelo Papa ao fim de onze anos de casamento, por falta de dispensa de parentesco.
D. Teresa (1151 – 1218) também conhecida por Matilde, casou em primeiras núpcias com o conde Filipe da Flandres em 1184, e depois com o duque Odo III da Borgonha, de quem se separou, tendo-se tornado condessa regente da Flandres.
D. Mafalda (1153 – 1162) noiva de Afonso II de Aragão, morreu jovem.
D. Martinho, futuro Sancho I (1154-1211) herdeiro do trono de Portugal, depois da morte do seu irmão Henrique, altura em que lhe trocaram o nome para Sancho por ser um nome mais usual entre os monarcas leoneses.
D. João (1156 – 1163) falecido ainda criança.
D. Sancha (1157 – 1167) faleceu aos dez anos.
Fontes:
Domingues, Mário – D. Afonso Henriques
Freitas do Amaral, Diogo – D. Afonso Henriques
Benevides, Francisco da Fonseca – Rainhas de Portugal
Oliveira, Ana Rodrigues – Rainhas Medievais de Portugal
Imagem: Purl,pt

3 comentários:

  1. "Mafalda, Matilde, Mahault ou Mahalda, da vida da primeira rainha de Portugal, como aliás de algumas outras, sabe-se muito pouco. Filha de Amadeu III, conde de Sabóia, Maurienne e Piemonte e da condessa Mafalda de Albón."

    Isto é o que os Senhores afirmam, agora um registo original de La Histoire des Dauphin de Viennois - 1683, pagina 38 a colocar Mathilda como filha de Guigues III Dauphin de Viennois e casada com Amé III de saboia e Piemont, no qual teve 8 filhos e depois a mesma casou com D. Afonso Henriques, os bispos de Espanha da altura ficaram preocupados com a idade da esposa de não ser a indicada.

    Mas Conde D. Henrique vem da Borgonha e Guigues é seu antepassado, familiares deste Guigues criaram a casa ducal da Bourgonha.

    Era interessante saber qual o apelido das casas d´Albon, Guigues, Forez, Lorraine, D´Armagnac, Foix, Comminges, Aragão, Navarra, França, Savoie, Piemont, Lombardie, Grenoble, Tour du Pin, Semur, Bourgonha, Mascaron, Rougemont ou de la Cornibus, Dreux, Mello, Montaut, Miramont, Auvergne, Austria e muitas outras.

    des Dauphins de Viennois. 37
    pays s'appellât Dauphiné du
    nom de fa femme.
    Cela eftant, il faudroit qu'il
    eût efté marié trois fois ; car il
    avoit époufé auparavant l'an
    11o6. une Princeffe du Sang
    Royal d'Angleterre, à laquelle
    on ne donne pas d'autre nom
    que celuy deReine,parce qu'en
    ce temps-là les filles de Roys,
    quoy que leurs maris ne fuffent
    pas Roys, confervoient toû
    jours la qualité de Reyne.
    Cette Princeffe eftant morte
    fans enfans, il époufa en fecon
    des ou en troifiémes nôces Ine
    ou Agnés de Barcelonne, fille
    de Raimond Berenger Comte
    de Barcelonne, & de la Com
    teffe Adalmode , de laquelle
    il eut .
    Gu 1 cu Es III. dit Dau
    --
    -
    --
    IIo6.
    38 Hiftoire Genealogique
    phin , qui luy fucceda :
    MATHILDE ou MAHAuT,
    qui époufa Amé III. Comte
    de Savoye, & qui fut mere de
    huit enfans , & entr'autres
    d'Humbert II I. Comte de
    Savoye, de Piémont & de
    Maurienne ; & de Mahaut
    de Maurienne ou de Savoye,
    femme d'Alphonfe I. Roy de
    Portugal. |
    **


    Existem casas de França e Portugal que são originais de Piemont e Savoie quem tem um apelido comum. Como antigamente existiam contratos de casamentos, porque todas essas casas eram do mesmo sangue, familia e não podiam casar fora desse circulo.

    Não é como na republica casasam se por gostarem das pessoas e não ha contratos de patrimonio e títulos

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  2. A casa de Mascaron é de Portugal e vieram de Piemont mas tem um apelido comum, criada em 1204 e são os detentores do titulo dos Condes de Santa Cruz e não é Mascarenhas nem outra casa em Portugal e o registo vem dos Frades Menores das Ordens Serafica e grande Observância tempo da Inquisição.

    Em Portugal conta se muitas mentiras e é preciso provar com registos da época e não do Estado Novo e da republica, os registos que possuo são originais.



    La Maison de Mascaron nef pas originaire de France; elle es de Portugal : les Comtes de Sainte Croix qui en portent le nom Familiam de Falgario sanguini de Mascaron junctam fuisse constat ex anliquissimis manuscripiis fide dignissimis. Hugonem de Mascaron prima pietatis et doctrines hausisse rudimenta sub disciplina Raymundi de Falgario ipsi affini pro certo habetur. Ainsi le docteur en droit Mascaron pouvait être parent de l'autre docteur *** de Miremont, et tous deux étaient de la famille des évêques Raymond de Falgar_une ancienne Nobleííe de nom & d'armes, originaire du Piémont

    François premier qui souhaittoit avec une pasion extrême de conserver le MilaneT^, comme un des plus beaux pleurons de fa Couronne, confia le Gouvernement du Château de Milan â un Seigneur de Mas caron.


    Henry III. faisoit tant d estime de Iean de Mascaron qu'il luy st s honneur de luy écrire par un Courrier exprés , de ne se pas engager dans aucun employ qui le peut éloigner de fa personne, ejr de se rendre incessamment a sa Cour pour entendre plus précisément sa volonté sur ce sujet. Puis comme Sa Majesté eut donne le commandement de son Armée de Dauphiné au sieur d'Ornano, elle creut que pour l'y établir avec toute l'autorité nécessaire, elle avoit besoin du crédit que Mascaron s'eftoit acquis, çjr luy fit encore l'honneur de luy écrire pour luy recommander cette affaire, qui eftoit de la derniere conséquence pour sonservice.

    Les Mascarons n ont pas seulement témoigné leur pieté par le soutien de la Foy Catholique, mais encore par leurs libéralisez, envers i Eglise, ejr par leur T^cle dans les charges Ecclésiastiques a, quoy leur mérite les a fait élever : dés l'an 1204. Raymond de Mascaron donna des biens considérables a £ Abbaye de Boulbonne , entr autres la maison qù elle possède dans Toulouse, d'ou une des rues de cette Ville a pris le nom de Boulbonne. Et le Chef de la Famille est le Patron de plusieurs Fondations que ses Prédécesseurs ont faites en diverses Eglises '. Ainsi la mesne pieté qui leur a fait aquerir du bien, les a obligez, d"en employer une partie a des œuvres saintes. L'an 1280. Hugues de Mascaron fut élA Evêque de Toulouse :sei^e ans aprés il mourut à Rome, ejrft bien connoítre que son cœur ne sestoit pas séparé de son Troupeau,car il ordonna que son corps fut rapporté dans fa Ville Cathédrale. Vn autre Mascaron fut bien-tost aprés élevé au Siège de Comminges , ejrse rendit fort recommandable par son zele.Enfin les chapitres de Toulouse ejr de Pamiers 0 nt souvent conféré leurs principales dignités de Chancellier, de Grand Archidiacre, ejr de Prévost à divers Mascarons, qui les ont remplies avec honneur.


    Agora da casa da Austria a Guigues


    FAUGE. L'Empereur Ferdinand III. mettant en considération les grands & importans services rendus à la maison d'Autriche , par Claude-Henri, dit le Capitaine de Fauge, & son frère Charles de Fauge, Général en chef des troupes de Savoie , ÔC de celles de Charles IV. Duc de Lorraine, les éleva à la dignité de Francs-Barons de l'Empire, avec toute leur postérité de l'un & de l'autre sexe , par 0 lettres données à Vienne le 23. Octobre I6$i. La famille de Fauge est originaire de Savoie. Alexandre de Fauge eut pour fils Guigues,


    Se Savoie casa com reis Portugueses, porquê não contam a verdade com registos, em vez de supor que seja assim.

    A verdade sempre a verdade

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  3. Em Portugal os Infantes Portugueses, filhos de Reis e seus descendentes eram os únicos detentores de vários pedaços de terra que ia de norte a sul de Portugal que se chama ?

    São curiosidades que me preocupavam

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