terça-feira, 31 de agosto de 2010

Paulo Coelho – Contos III

A FORÇA E A SABEDORIA

Todos os anos, numa cidade, os habitantes reuniam-se para um concurso.
Quem cortasse mais troncos durante 15 horas, levava o prémio. O mestre lenhador ganhava sempre.
Um dia, um rapaz resolveu desafiá-lo. Confiando na sua juventude e na sua disposição, apostou muito dinheiro em si mesmo. O concurso começou. A cada hora, o mestre sentava-se um pouco.
“Ele já perdeu a vitalidade”, pensou o rapaz, enquanto trabalhava sem parar. No final, foi feita a contagem, e o mestre ganhou.
“Não é possível”, disse o rapaz para o mestre. “Como pode ter ganho, se eu vi o senhor parar muitas vezes para descansar?”
“Eu não estava a descansar”, respondeu o mestre. “Eu parava para afiar o machado”.

Conto de Paulo Coelho, publicado numa revista


Etiqueta - contos

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

E. de Andrade - Poemas I

Foi para ti que criei as rosas.

Foi para ti que criei as rosas
Foi para ti que lhes dei perfume
Para ti rasguei ribeiros
E dei às romãs a cor do lume.

Eugénio de Andrade

domingo, 29 de agosto de 2010

Contos de Paulo Coelho - II


A BENÇÃO QUE NÃO É NOTADA

Um leão encontrou um grupo de gatos a conversar. “Vou devorá-los”, pensou.
Mas começou a sentir-se estranhamente calmo. E resolveu sentar-se com eles, para prestar atenção à conversa.
“Meu bom Deus” disse um dos gatos. “Orámos a tarde inteira! Pedimos que chovessem ratos do céu!”.
“E, até agora, nada aconteceu!”, disse outro. “Será que o Senhor não existe?” O céu permaneceu mudo, e os gatos perderam a fé.
O leão levantou-se, e seguiu o seu caminho, pensando: “Vejam como as coisas são. Eu ia matar aqueles gatos, mas Deus impediu-me. Mesmo assim, eles pararam de acreditar na graça divina. Estavam tão preocupados com o que faltava, que nem repararam na protecção que receberam”.


Texto de Paulo Coelho, retirado de uma revista

Contos de Paulo Coelho -I

A MORTE COMO MADRINHA

Um carvoeiro, apavorado pela ideia de morrer, resolveu convidar a morte para madrinha do filho. “Assim ela não me leva, pois terá de cuidar do meu filho”, pensava o carvoeiro.
Realmente, ele viveu muitos anos, mas um dia a morte precisou de o ir buscar; para não o apanhar de surpresa, avisou a sua visita com antecipação; assim o carvoeiro poderia tomar as providências que fossem precisas. O homem ficou apavorado – e, no dia marcado, disfarçou-se de mendigo e foi para a rua.
A morte chegou.
“O meu marido não está em casa”, disse a mulher do carvoeiro.
“Ainda bem! Vou levar aquele pobre mendigo ali na rua, e Deus não vai reclamar.”
E o carvoeiro foi levado pela morte