sexta-feira, 23 de agosto de 2013

François Villon

Considerado um dos maiores poetas do seu tempo, François Villon (pseudónimo de François de Montcorbier ou François des Loges), nasceu em Paris no ano de 1431, no meio da mais extrema pobreza, quando a França, no rescaldo da Guerra dos Cem Anos, se encontrava ocupada pelos ingleses.
Orfão de pai aos 12 anos, sua mãe entregou-o a um parente, o padre Guilhaume de Villon que o adoptou, dando-lhe o seu apelido e custeando-lhe os estudos na Universidade de Paris, onde em 1452 se licenciou em Artes. O seu tutor tencionava fazer dele um sacerdote, mas Villon depressa se cansou dos frios tratados de Teologia, preferindo a vida nocturna e boémia, fazendo parte de uma pandilha de ébrios que gastavam até ao último tostão em vinho, mulheres e canções.
Deste grupo fazia parte um padre, Philippe Sermoise. Numa noite de Verão de 1455 e durante uma briga por causa de uma rapariga, Villon apunhala Sermoise que, ao cair ferido de morte, ainda consegue ferir o seu rival no rosto, cortando-lhe um lábio e desfigurando-o para o resto da vida.
A questão era séria. Villon já adquirira uma reputação detestável pela vida desregrada que levava, tendo já comprometido seriamente as suas oportunidades na carreira eclesiástica. Acusado agora de assassínio, o poeta esconde-se fora da cidade durante uns meses, mas, felizmente para ele, Sermoise, no seu leito de morte perdoa-lhe, e graças ao seu tutor é-lhe concedido um indulto real. Mas lançado já numa vida completamente dissoluta, em 1456 na companhia de alguns assaltantes conhecidos ajuda a roubar a caixa da Faculdade de Teologia.
Desta vez julgou mais prudente desaparecer de Paris, mas antes, escreveu o seu poema Le Lais, um conjunto de versos sardónicos que dedicou à cidade e que se tornou conhecido como O Pequeno Testamento.
Associou-se a uma quadrilha de assassinos e ladrões que operavam em França, a que era dado o nome de coquillards, não se sabendo exactamente o número de roubos de que foi cúmplice.
Aparece em Blois, em 1457,na corte de Carlos, Duque d'Orleães, príncipe-poeta e mais tarde pai de Luís XII de França. No manuscrito onde Carlos regista os seus poemas e os da sua corte, encontram-se três poemas assinados por Villon (provavelmente escritos ali por ele próprio). O mais longo deles celebra o nascimento Marie d'Orléans em 19 de dezembro de 1457, filha de Carlos e Marie de Clèves. Este manuscrito contém ainda a Ballade des contradictions e a Ballade franco-latine, uma sátira a Fredet, o favorito de Carlos, fazendo com que seja expulso da corte.
Nos fins de 1458, Villon tenta em vão retomar o contacto com o seu antigo mecenas, aproveitando a vinda deste a Vendôme para assistir ao processo de traição de seu genro Jean II d'Alençon, fazendo-lhe chegar duas das suas obras, a Ballade des proverbes e a Ballade des Menus Propos, mas sem sucesso.
Em 1461, devido a um crime menor, vai parar à prisão de Meung-sur-Loire, onde provavelmente compôs o Épître à ses amis e o Débat du cuer et du corps de Villon. É indultado alguns meses mais tarde, por alturas da coroação de Luís XII, de França. Compõe então a Ballade contre les ennemis de la France com o interesse de chamar a atenção do rei sobre este fato, assim como Requeste au Prince, a Carlos d´Orléans. Como os dois rejeitam o seu pedido, decide voltar para Paris.
Pode ter composto a Ballade du bon conseil neste retorno a Paris, mostrando-se como um delinquente regenerado e depois a Ballade de Fortune, que exprime sua decepção com o universo parisiense dos letrados que o rejeita.
Aparentemente é nesse período de andanças por Paris que ele teria escrito sua obra-prima Le Testament (com algumas baladas possivelmente anteriores). Nesta obra, Villon finge despedir-se da vida e volta as costas a toda a literatura que o precedeu. O Grande Testamento só tem de comum com a poesia do seu tempo, a forma. O conteúdo da obra e o seu espirito são perfeitamente modernos. É o próprio poeta, com os seus sentimentos, que constitui o centro deste grande poema, de cerca de 200 versos.
Novamente preso em 1462 sofre a tortura da água e mais uma vez é condenado à forca. Na prisão escreve um dos seus mais célebres poemas, a Ballad du Pendus (A BALADA DOS ENFORCADOS):

Irmãos homens, que após nosso tempo vireis,
Contra nós, não volvais um duro coração,
Pois se alguma piedade destes pobres haveis,
Mais depressa de vós Deus terá compaixão.
Aqui nos vedes presos, juntos, cinco, seis;
Quando de nossa carne, antro de tentação,
Comida e putrefacta, nada mais restar
E nós os tristes ossos, formos cinza e pó,
Ninguém de nosso mal queira rir ou folgar,
A Deus, pra todos nós, rogai absolvição e dó.

Se a vós, irmãos, clamamos, por nada devereis
Desdenhar destes pobres cuja execução
A justiça ditou. De resto, bem sabeis
Que os homens não têm todos um juízo são;
Já que mortos estamos, por nós intercedei
Junto d’O que nasceu de virgem concepção
P’ra que ele nos preserve da fogueira infernal
E sua graça infinita não se afaste de nós,
Mortos, que às nossas almas não venha qualquer mal
A Deus, pra todos nós, rogai absolvição e dó.

A chuva nos lavou, em bátegas cruéis,
E secou-nos o sol e queimou-nos então.
Olhos e sobrancelhas, cabelos e anéis
Da barba, tudo foi para os corvos bom quinhão.
Em tempo algum quietos achado nos haveis
Pois que, pra cá, pra lá, consoante a viração,
Rígidos oscilámos, picados pelas aves
Mais ainda do que um dedal num dedo só,
Não queirais de nós outros ser míseros confrades,
A Deus, pra todos nós, rogai absolvição e dó.

Ó príncipe Jesus, que tens o senhorio
De todos os mortais, defende-nos do Inferno,
Que é pena demasiado dura para nós
Homems, não é motivo pra troça o fogo eterno.
A Deus, pra todos nós, rogai absolvição e dó.


Afresco da Igreja de Santa Anastácia em Verona
Mais uma vez devido à interferência do padre Guillaume Villon, o poeta escapou a um justo castigo e a pena de morte foi-lhe comutada por um exílio de Paris por 10 anos. Deram-lhe três dias para se preparar para a jornada, e, num dia de Janeiro de 1463, pobre como Job e miserável, Villon desapareceu para sempre, não se sabendo mesmo a data exacta da sua morte.
Tinha pouco mais de trinta anos e apesar da vida sórdida que levou, a sua alma de poeta podia produzir obras-primas de ternura, como a Balada à Virgem Maria, escrita para a sua mãe:
(…)
Mulher sou, pobrezinha de Cristo e anciã,
Nada sei, não conheço uma letra sequer.
No mosteiro onde vou rezar pela manhã,
Vejo pintado um Céu com harpas e alaúdes
E um Inferno onde são queimados os perdidos.
Este me mete medo, dá-me alegria aquele.
A bênção da alegria concede-me alta Deusa,
A quem todo o que peca deve recorrer
À força de uma fé que nunca desfaleça.
Nessa fé meu desejo é viver e morrer.

Os escritores do Romantismo consideraram-no o primeiro poeta maldito da história da literatura. O autor desta expressão foi o poeta Alfred de Vigny que a utilizou pela primeira vez em 1832.

Fontes: Wikipédi. org
Grinberg, Carl - História Universal, vol.8


 


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