sábado, 26 de março de 2011

Branca de Bourbon – II

casamento medieval
A prisão da rainha deu origem a uma crise interna. Os toledanos compadecidos da sua sorte, promovem um motim, a que grande parte da nobreza adere, ao mesmo tempo que o Papa exorta o rei a retomar D. Branca como esposa.
Em 1354, D. João Afonso de Albuquerque é envenenado pelo seu médico, provavelmente a mando do monarca, mas os seus amigos depositam o corpo num ataúde que levam sempre consigo, dizendo ao rei que não o enterrariam enquanto não vencessem a demanda por Dona Branca. Este senhor de Albuquerque ficará para a História, como o “Do Ataúde”.
Obrigado a ceder, o rei acode a Toro onde vive algum tempo quase prisioneiro. Astuciosamente, consegue fugir para Segóvia e entrando em Toledo, manda abater vinte e dois” homens bons do comum” como represália por terem protegido a rainha. Conta-se que entre estes estava um ourives já ancião. O filho, ainda bem moço, pediu ao rei que poupasse o pai e o matasse a ele, ao que o rei acedeu.
Manda conduzir novamente D. Branca de volta a Arévalo, com ordens para que não tivesse nenhuma visita, nem mesmo de sua sogra. A partir daí, até à sua morte, a rainha ficou isolada do mundo. Pretendendo o rei casar-se com D. Joana de Castro, meia-irmã de Inês de Castro, cuja beleza o deslumbrou, obriga os bispos de Ávila e Salamanca a darem por nulo o seu casamento com a rainha, e a recebê-los como marido e mulher. Depois do casamento consumado, abandona para sempre a nova esposa, enviando-a para um convento, a qual, no entanto, lhe dará um filho, e se intitulará sempre como rainha de Castela.
Entretanto a pobre D. Branca é transferida para Jerez de la Frontera, onde pede aos monges do Mosteiro de S. Francisco, que a deixem ali ser sepultada quando morresse. Tempos depois foi enviada para a fortaleza de Medina Sidónia, já não tendo qualquer esperança de ver terminado o seu cativeiro. Com um mínimo de mobiliário, o conforto dentro daquelas paredes grossas era reduzido. Encerrada na torre, tendo por companhia apenas duas aias e o seu capelão, além da oração, apenas a tapeçaria lhe era permitida. Ao fim de tantos anos de prisão, era apenas uma pálida sombra da linda princesa cheia de sonhos, que um dia tinha chegado a Castela!
Em 1359 nasce um filho varão a Maria de Padilla, a quem puseram o nome de seu avô paterno, Afonso. O rei nomeia-o seu sucessor e para o legitimar pretende casar-se com a favorita.
Tinha por fim chegado a hora de se desfazer daquela incómoda cativa… Em 1361, acusando-a de conspiração, envia a Medina Sidónia, o seu melhor arqueiro, Juan Perez de Rebolledo com ordem para a matar, uns dizem que envenenada.
Tinha 25 anos de idade, e nada justificava tão triste sina! Desde o seu casamento, apenas tinha conhecido prisões e sofrimento, tudo aguentando com paciência.
No sec. XVI começaram as demolições do recinto amuralhado da fortaleza e da chamada Torre de D. Branca, onde segundo a tradição a rainha foi morta. Uma lápide lá colocada em 1859 recorda esse facto:


En esta torre estuvo presa
y acabó sus días a manos del ballestero
Juan Pérez de Rebolledo, en el año 1361,
la virtuosa y desventurada reina
doña Blanca de Borbón,
esposa de don Pedro de Castilla.

O seu corpo foi depois sepultado segundo o seu desejo, na igreja do Convento Franciscano de Jerez de La Frontera, sem honras nenhumas. Mais tarde, a Rainha Isabel, a Católica, manda restaurar a sua sepultura, pondo uma lápide a assinalá-la. No início do sec. XX, devido a obras de restauração na igreja, a lápide e a tumba foram colocadas na sacristia.
Segundo Lopez de Ayala, nas suas Cronicas de los Reyes de Castilla, conta ele que um dia estando o rei a caçar nas imediações de Medina, onde a rainha estava presa, se acercou um homem junto dele, dizendo-lhe que vinha por ordem de Deus avisá-lo que todo o mal que ele fizesse à rainha, lhe seria cobrado, mas que se a aceitasse como mulher, dela teria filhos que herdariam o reino.
Ficou o rei muito espantado, e mandou prender o homem, pensando que era a rainha que o tinha enviado. Mandou á fortaleza indagar se isto seria verdade, mas responderam-lhe que a rainha estava de tal maneira guardada, que lhe seria impossível enviar alguém. Então todos os que viram e ouviram isto pensaram que era obra de Deus. Soltaram depois o homem, e nunca mais ninguém o viu.


Fontes: Crónicas de Fernão Lopes
Cronicas de los Reyes de Castilla – Pero López de Ayala
Portugal Medievo – António Borges Coelho
Dicionário da História de Espanha, vol.I
www.mundohistoria.org
druta.wordpress.com
imagem:idademedianaescola.blogspot.com

Sem comentários:

Enviar um comentário