domingo, 8 de maio de 2011

Um Conto taoista

O Domar da Harpa

Havia em tempos idos, na Ravina de Lungmen, uma árvore kiri (Pandownia), verdadeira rainha da floresta. Erguia a cabeça para conversar com as estrelas, as suas raízes desciam fundas no solo, emaranhando-se nas do dragão prateado que dormia por baixo. E aconteceu que um mago poderoso fez desta árvore uma harpa maravilhosa, cujo espírito obstinado havia de ser domado apenas pelo maior dos músicos. Durante muito tempo o instrumento foi estimado pelo imperador da China, mas foram vãos todos os esforços dos que à vez tentaram extrair melodias daquelas cordas. Em resposta às suas melhores tentativas soltavam-se da harpa apenas notas roufenhas de desprezo, em desarmonia com as canções que eles gostariam de cantar.

A harpa recusava-se a reconhecer um mestre.
Por fim, chegou Peiwoh, o príncipe dos harpistas. Com mão meiga acariciou a harpa, como quem tentasse acalmar um cavalo obstinado, e tocou suavemente as suas cordas. Cantou a natureza e as estações, montanhas altaneiras e águas correntes, e todas as memórias da árvore despertaram! O doce sopro da primavera tornou a brincar entre os seus ramos. A s jovens cataratas dançando pela ravina, riram-se para as flores em botão. Seguidamente, escutaram-se as vozes sonhadoras do verão, com a sua miríade de insectos, o gentil tamborilar da chuva, o grito do cuco.

Escutai! Ruge um tigre – o vale volta a responder. É Outono; na noite deserta, afiada como uma espada, brilha a lua sobre a erva molhada de geada. Agora reina o inverno, e pelo ar cheio de neve redemoinham flocos de cisnes, e pedras de granizo ruidosas fustigam os troncos numa delícia feroz.
Então Peiwoh mudou de tom e cantou o amor. A floresta balançou como um mancebo ardente embrenhado em pensamentos. Lá no alto, qual donzela altiva, correu uma nuvem reluzente e linda; passageiras apenas, longas sombras rastejaram pelo solo, negras como o desespero.
De novo o tom mudou; Peiwoh cantou a guerra, o embater do aço e os corcéis em tropel. E na harpa cresceu a tempestade de Lungmen, o dragão cavalgando o corisco, a avalanche tempestuosa embatendo pelos montes.
Em êxtase, o monarca celeste questionou Peiwoh pelo segredo desta vitória.
“Senhor” replicou ele, “os outros falharam por que apenas se cantaram a si próprios. Eu deixei que a harpa escolhesse o seu tema, e não soube verdadeiramente se a harpa era Peiwoh, ou se Peiwoh foi a harpa”.

Okakura, Kakuzo – O Livro do chá



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