sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Hefesto e Afrodite


Como recompensa por ter fabricado os raios de ouro com que Zeus venceu os Titãs, Hefesto pediu a mão de Afrodite, a deusa da beleza e do amor. Zeus ainda hesitou, estremecendo só à ideia de tal casamento, mas a beleza da deusa era tal, que todos os deuses a assediavam, e as restantes deusas cheias de ciúmes, queriam que ela tivesse algum castigo, exactamente por ser tão deslumbrante...
E assim, por ordem do rei dos deuses, Hefesto recebeu o seu prémio e Afrodite viu-se obrigada a casar com o deus feio, disforme e coxo, que apenas lhe inspirava um sentimento de indiferença. Sempre apaixonada, traía o marido tanto com imortais como com belos mortais desde que lhe agradassem, adornando-se com as belíssimas joias que o deus metalúrgico fabricava para ela, pensando conquistá-la assim.
Uma das grandes paixões de Afrodite, foi Ares, o violento senhor da guerra. O par amoroso encontrava-se durante a noite, no próprio palácio de Hesfesto, durante as suas frequentes ausências, para que Helios, o deus do Sol, inimigo de Ares, não descobrisse os seus encontros secretos. Para isso, deixava sempre o jovem Electrion, seu confidente, de guarda, para os avisar quando chegasse a alvorada.
Ora aconteceu que, uma noite, Electrion deixou-se dormir, e Helios, que tudo vê e tudo ouve, ao passar com o carro do Sol por cima do palácio de Hefesto, descobriu os dois amantes e, sem demora, foi avisar o senhor dos vulcões. Este, cheio de raiva e roído de ciúmes, fabricou uma finissima rede, quase invisível, que presa à cama, envolveria os dois apaixonados e da qual não se poderiam libertar.
Este tema mitológico foi tratado por grande número de pintores desde o Renascimento, entre eles Botticelli, Tintoretto, e Mark van Heemskerck.
Cerca de 1555, Jacopo Tintoretto pinta a tela acima apresentada, medindo 1,35m de comprimento x 1,98m de largura, adquirida em 1925 pela Antiga Pinacoteca de Munique, na Alemanha, onde se encontra.
Nela, podemos apreciar Vénus reclinada no leito e que Hefesto destapa com uma mão, enquanto que com a outra, prende a rede à cama, sem que a deusa se aperceba. Este movimento é reflectido pelo espelho na parede do fundo. Eros, o filho de Afrodite, e que normalmente está sempre vigilante, encontra-se adormecido. Por sua vez, Hefesto não se apercebe da presente de Ares debaixo da outra cama (reconhecível pelo elmo que lhe cobre a cabeça), tentando desesperadamente calar o cão, que com os seus latidos pretende chamar a atenção do dono para a presença de um estranho. Mas o deus coxo, está tão concentrado na montagem da sua vingança, que nem o ouve.
Reza a lenda, que não se apercebendo da rede, os dois amantes depois da saída de Hefesto, retomam a sua actividade amorosa. A mola da armadilha é accionada e o par fica preso na teia.
Depois disto, Hefesto convoca todos os deuses do Olimpo, mostrando-lhes a rede onde Afrodite e Ares, se debatem como dois peixes e da qual ele não pretende libertá-los. Apesar das gargalhadas dos deuses, mais pelo caricato da situação, do que por simpatia pelo deus traído, Poseídon e Hermes, conseguem que o irredutível Hefesto deixe o par sair em liberdade. Ares, humilhado, transforma Electrion num galo, para que todos os dias, pontualmente, anuncie o nascer do sol.
Martin Van Heemskerck, um dos principais pintores holandeses do sec. XVI, trata a humilhação dos dois deuses perante os seus pares, nesta tela que faz parte de um triptico dedicado a Hefesto, realizada em 1540. A obra completa, encontra-se na Galeria Narodni, em Praga.


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