sábado, 20 de novembro de 2010

A Tília - II

A sua madeira macia, leve, de cor castanho claro, fácil de esculpir, foi muito utilizada na manufactura de estatuetas religiosas e instrumentos musicais. Andrei Rublev, o famoso pintor russo, utilizava a madeira de tília para pintar os seus ícones. Além disso do romeno ou casca interior da tília, eram feitas umas tábuas finas de madeira, utilizadas como material de escrita, e quando cortado em tiras servia para adivinhação, o que nos leva a outra lenda:
Cronos, o deus Saturno dos romanos, apaixonou-se perdidamente por Philyra ou Filira, ninfa de uma extrema beleza, filha do Oceano e de Tétis, acabando por conseguir seduzi-la. Acontece que Reia, sua esposa, foi procurá-lo e Cronos para não ser apanhado em flagrante delito de adultério e evitar assim a sua ira transformou-se num cavalo. Tempos depois, Phylira teve um filho, metade humano, metade cavalo, a quem chamaram Quíron. Desesperada por ter um filho centauro, abandonou-o e os deuses compadecidos transformaram-na numa tília, a árvore que dava flores e folhas medicinais. Era a deusa do perfume e da escrita, ensinando aos homens o fabrico do papel. Quanto a Quíron, criado por Apolo, a sua fama de médico, sábio e profeta fez com que fosse conhecido por Filho de Philyra (Tília).
Na mitologia eslava, a tília (Lipa) é também considerada uma árvore sagrada e na Polónia há varias aldeias cujo nome é uma derivação de Lipa. Na Croácia, a moeda nacional, a Kuna é dividida em 100 Lipa. Na Hungria, também tem um valor espiritual e cultural e chama-se Hars.
Mas a Tília não entra só na mitologia pagã. Um dos grandes santuários na Checoslováquia, o de Nossa Senhora da Visitação, na fronteira deste país com a Alemanha e a Polónia tem também uma lenda relativa à sua fundação:
Um pobre artesão, necessitando de madeira para trabalhar, pôs-se a caminho à procura dela, deixando em casa a sua pobre mulher doente e uma filha pequenina. Já de regresso, fez um descanso debaixo duma tília e adormeceu. Teve um sonho muito estranho. A árvore iluminou-se e sentados na sua copa estavam dois anjos que lhe disseram: «Tu encontras-te num lugar lindíssimo que agradou a Deus. Vai e traz uma estatueta da Mãe de Deus, para que cada um que por aqui passe no futuro pare e possa agradecer a Deus». O homem acordou, hesitou por um momento e decidiu ir até à próxima cidade para aí comprar a estatueta, e assim cumprir o que os anjos lhe haviam dito. Foi a um entalhador em Zita, comprou a estatueta da Virgem Maria e regressando ao local fixou-a à tília, onde havia estado. Mais tarde trouxe até à tília a sua mulher e filha, para juntos orarem, e a sua família como por milagre foi curada. A notícia sobre o milagre espalhou-se rapidamente. E a este local começaram a afluir peregrinos de longínquas paragens. Em vez da tília foi construída uma capela de madeira, em que o carpinteiro deixou gravada a data da sua construção, 1211. Mais tarde foi construído um convento de franciscanos. A Basílica que hoje lá se encontra foi construída entre 1722/29, sendo ali criado depois da 2ª Guerra, um centro internacional de renovação espiritual, onde todos os anos se realiza uma peregrinação de reconciliação.
A sua longevidade é também lendária. No pátio do Castelo Imperial de Nuremberga havia uma tília que conta a tradição, foi plantada pela imperatriz Cunegundes, esposa de Henrique II da Alemanha, falecida em 1040. Em 1900, embora doente, ainda dava folhas nos três ramos que lhe restavam. Em Baden-Württemberg, na Alemanha, caiu uma tília cuja idade foi calculada em mil anos.
Alta, elegante e perfumada, representa também a graça e a feminilidade, não admirando portanto, que na literatura e poesia tenha sido cantada por poetas e escritores, desde os primeiros trovadores, como Walther von der Vogelweide (1170-1230), que escreveu uma canção “Sob a Tília”, até, Christian Bobin, nascido em 1951 e ainda vivo, que no seu livro “Ressuscitar” comenta:
“A tília em frente da janela é o mestre que escolhi para escrever e sei de antemão que não poderei igualá-lo: nem mesmo os maiores escritores alguma vez escreveram com tanta graça como esta árvore inscreve delicadamente a luz e a sombra em cada uma das suas folhas e renova a sua inspiração a cada segundo
Homero, Plínio, Horácio e Heródoto também escreveram sobre esta árvore e as suas virtudes.
Jan Kochanowski (Sycyna, 1530 - Lublin, 22 de agosto de 1584) foi um poeta renascentista polaco, geralmente considerado o maior poeta do período anterior ao sec. XIX. Um dos seus poemas intitula-se, “A Tília” e diz:
“Peregrino senta-te debaixo da ramagem, descansa;
Eu prometo – sequer o sol selvagem aqui pode avançar.
Porém os raios justos deverão as sombras aquietar nos arbustos.
Aqui sempre sopram brisas frescas do campo,
Rouxinóis e negras aves cantam seu canto.
Abelhas obreiras recolhem mel das flores perfumadas
Para brindar as mesas dos nobres.
E a todos os homens meu murmúrio sereno
Cobre facilmente de adocicado sono…

Goethe, em “Os infortúnios do jovem Werther”, faz enterrar o seu personagem principal debaixo de uma tília.
Conta-se que Mihai Eminescu, o maior poeta romeno, escrevia os seus poemas à sombra de uma, e Samuel Taylor Coleridge, encerrava-se numa pérgola, à sombra desta árvore, a quem dedicou o seu poema “Este Lime-tree Bower, minha prisão”.
Franz Schubert no seu ciclo” Winterreise”, (Viagem de Inverno) de 1827, Opus 89, compôs 24 canções sobre poemas de Wilhelm Müller, sendo uma das mais célebres a 5ª canção, chamada “Der Lindenbaum” (A Tília). Escrita em 1822, conta a história de um caminhante que passando junto a uma tília existente junto ao portão da cidade, onde ele algumas vezes adormeceu e em cuja casca gravou palavras de amor, sente os ramos da árvore chamarem-no, convidando-o a descansar entre eles, o que é tomado como uma insinuação de suicídio. Ele passa de largo, sem olhar para trás, com o vento gelado a bater-lhe na cara, mas muitas horas depois e longe dali, ainda recorda o sussurro dos ramos da tília dizendo-lhe:” Aqui encontrarás descanso”.
Miguel Torga, num dos seus contos, escreve:
"Por lhe ter receitado inalações de flor de tília, o homem cuidou que eu atraiçoava o progresso. E conversámos longamente..”
Termino com um soneto de Florbela Espanca:


A Voz da Tília

Diz-me a tília a cantar: “Eu sou sincera,
Eu sou isto que vês: o sonho, a graça;
Deu ao meu corpo, o vento quando passa,
Este ar escultural de bayadera…

E de manhã o sol é uma cratera,
Uma serpente de oiro que me enlaça…
Trago nas mãos as mãos da Primavera…
E é para mim que em noites de desgraça

Toca o vento Mozart, triste e solene,
E à minha alma vibrante, posta a nú,
Diz à chuva sonetos de Verlaine…”

E, ao ver-me triste, a tília murmurou:
“Já fui um dia poeta como tu…
Ainda hás-de ser tília como eu sou…”


Fontes:pt.wikilingue.com
Abrigodossabios-paulo.blogspot.com
www.czechtourism.com
Grave, Robert - Mitos da mitologia greco-romana
Espanca, Florbela – Sonetos, Bertrand editora
Lipp, Frank J. – O Simbolismo das plantas
Olivrodaareia.blogspot.com

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