quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Santo António de Lisboa - IV


O Culto Antonino

O culto a Santo António só chegou a Portugal depois da sua canonização e de um modo deveras insólito: No mesmo dia em que Gregório IX o canonizava na catedral de Espoleto, os sinos de Lisboa começaram a tocar sem que ninguém lhes mexesse. Quando a notícia da sua canonização cá chegou, ficou tal modo arreigado no povo, que é neste dia que se celebra o feriado municipal da cidade, como se do seu Padroeiro se tratasse, em vez de ser celebrado no dia 22 de Janeiro, dia consagrado a S. Vicente, esse sim, declarado Padroeiro de Lisboa por D. Afonso Henriques, ou no dia de S. Jorge, celebrado na Primavera, pois foi em seu nome que Lisboa foi tomada aos Mouros.
Ainda em vida já a fama da sua santidade se tinha espalhado por parte da Europa, e mais tarde, as viagens marítimas feitas pelos portugueses, espanhóis e italianos em que iam sempre missionários para fazerem a evangelização dos gentios, ajudaram a espalhá-lo por praticamente todos os continentes.
A primitiva igreja de Santo António, possivelmente construída no reinado de D. Sancho II, que lhe tinha grande devoção, foi totalmente destruída pelo terramoto de 1755, salvando-se apenas a capela-mor com a estátua do santo, e o lugar do seu nascimento. A actual igreja mandada construir por Paulo de Carvalho, irmão do Marquês de Pombal, em estilo barroco, teve como arquitecto Mateus Vicente, que também projectou a Basílica da Estrela. Foi parcialmente paga pelas crianças que pediam “um tostãozinho para o Santo António” e por essa a razão está o chão todo coberto de moedas. A cripta está transformada numa capela, pois diz a tradição ter sido ali o quarto do Santo.
O Menino Jesus que o acompanha sempre, tem origem no sec XV, através de uma lenda contando que Santo António numa das suas paragens no castelo de Camposampiero, pertencente ao seu amigo, conde Tiso, foi visto por este uma noite, a conversar com o Menino, que lhe aparecia muitas vezes para falarem.
É representado geralmente com um livro numa mão, símbolo da sua sabedoria, e, porque na outra tem sempre um lírio, símbolo de pureza, ou uma cruz, símbolo da fé, ou um pão, ou então, simplesmente levantada numa atitude de pregador, os artistas tiveram de pôr Jesus sentado ou em pé sobre o livro. Os pés geralmente não estão juntos, mas um à frente do outro, numa indicação de “caminhar”, pois como pregador andou de terra em terra, chegando a atravessar os Alpes a pé, para difundir a palavra de Deus.
Considerado como Santo milagreiro, quando não atende um pedido, a sua imagem pode ser por vezes, bastante maltratada… Se as moças lhe pedem um noivo e ele se demora a arranjá-los, batem-lhe, viram-no de cabeça para baixo, atiram-no pela janela, põem-lhe cera na cabeça, enforcam-no, tiram-lhe o Menino, etc…Os marinheiros levavam-no consigo nas viagens, e muitas vezes mergulhavam-no no mar, para que Ele lhes evitasse as tempestades.
Uma moça casadoira tinha-lhe posto em casa um altarzinho sempre com flores, para que lhe arranjasse um marido. Como o noivo nunca mais aparecia e ela já estava a passar da idade, pegou na imagem e atirou-a pela janela. Na rua estava a passar um cavalheiro que apanhou com ele na cabeça. Vendo de onde tinha sido atirado, foi bater à porta da jovem, para lho entregar e…o romance aconteceu!
Em Itália também se contam muitos milagres do Santo ainda durante a sua vida, como por exemplo: Uma senhora tinha dado à luz um lindo menino, mas o marido, extremamente ciumento, não queria assumir a paternidade da criança, dizendo que sua mulher o tinha atraiçoado. Foram ter com Santo António que se virou para o recém-nascido e lhe pediu que dissesse quem era o seu pai. O menino estendeu os bracinhos para o marido ciumento, dizendo “Eis aqui o meu pai”…
Girolamo de Carpi, em 1530 pintou um quadro sobre este milagre, que se encontra na Pinacoteca de Ferrara.
Em França, fez com que uma burra ajoelhasse para adorar a hóstia. Ressuscitou os mortos, curou leprosos e epilépticos, restituiu os cabelos a uma senhora a quem o marido os tinha arrancado, pregou aos peixes, e teve também o dom da ubiquidade, pois por duas vezes pelo menos, estando a pregar em Pádua, calou-se de repente, baixou a cabeça, e de uma delas veio a Portugal salvar o pai da forca, e da outra, foi orientar os meninos do coro de um convento, retomando depois o sermão normalmente. E como estes são inúmeros os milagres que lhe atribuem, tanto em vida como depois da sua morte, nenhum outro fez tantos e tão diversos.
Na Basílica de Pádua que lhe serve de túmulo, estão gravados em baixo-relevo, alguns dos milagres que lhe foram atribuídos, e uma série dos melhores pintores e escultores das escolas italianas, tais como Giotto, Donatello, Bellini, Tiziano, André Ricci ou Bellano, entre outros, deram a sua contribuição para a decoração da igreja.
Quando em 1263 os seus restos mortais foram trasladados para a nova basílica, em Pádua, encontrou-se a sua língua intacta, por entre os ossos do seu esqueleto. Está guardada dentro de um relicário nessa mesma basílica.
Quem milagres quer achar
Contra males e demónio,
Busque logo a Santo António
Que aí o há-de encontrar.
Aplaca a fúria do mar
Tira os presos da prisão
Aos doentes torna sãos
E o perdido faz achar.
E sem respeitar os anos
Socorre qualquer idade;
Abonem esta verdade
Os cidadãos paduanos.

Fontes: www.tribunatp.com.br.
www.agencia.ecclesia.pt.
Rolim, P. – Santo António de Lisboa, 1931, Coimbra Editora, Lda.

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